11 formas de fazer os dias parecerem menos corrido durante a semana

O segredo é começar com pequenas mudanças na forma como percebemos, planejamos e aproveitamos o tempo que já temos

formas de fazer com que os dias pareçam menos corridos
Créditos: Mininyx Doodle/ Getty Images/ Fernando Strabuli/ Unsplash

Jeremy Caplan 11 minutos de leitura

Eu amo os livros de Laura Vanderkam, sobre como tirar o máximo proveito do seu tempo.

Eles nunca são sobre colocar mais compromissos no seu dia. Nem são sobre produtividade. São mais sobre saborear e refletir de forma criativa sobre aquilo que escolhemos fazer.

Sua obra, em especial 168 Hours e Tranquility by Tuesday, mudou a forma como penso sobre as minhas semanas. Seu argumento de que “é preciso se esforçar antes de poder relaxar sem esforço”, por exemplo, me levou a dedicar mais do meu tempo livre aos meus hobbies.

Seu último livro, Big Time, lançado no último mês, defende que vivemos com tempo em abundância: temos mais horas do que assumimos ter, e existem jeitos surpreendentes de aproveitá-las.

Laura e eu falamos sobre o porquê de as semanas importarem mais do que dias, como tornar o trabalho mais satisfatório através de pequenas mudanças, e porque as noites de dias úteis possivelmente oferecem mais tempo livre do que acreditamos. Abaixo, minhas ideias preferidas sobre a nossa conversa:

  1. Sua vida é um circo. Seja o mestre de cerimônias.

Quando as pessoas dizem que “minha vida é um circo”, elas estão se referindo ao caos. Laura diz que isso é difamação contra circos. Um circo de verdade é uma performance super organizada. Ninguém é lançado de um canhão na hora errada da apresentação.

Ela pensa a vida como um circo bem-regido, formado por três picadeiros: carreira, relacionamentos, e o “eu”. Você é o mestre de cerimônias. Cada picadeiro pode ter um ato maior ou menor a qualquer momento. Um bom circo é dirigido para trazer alegria. Deve-se conduzir uma performance que você realmente gostaria de assistir.

O circo também precisa de uma rede de proteção. Vidas complexas exigem planos de contingência, para que a complexidade não se torne um caos.

  1. Pense em semanas, não dias.

Existem 168 horas em uma semana. Esse número é mais importante do que 24.

Se você trabalha 40 horas e dorme 56, você ainda tem 72 horas para outras coisas. Não é tudo tempo livre, mas temos bem mais disponibilidade do que assumimos. Laura diz que o sentimento de falta de tempo resulta, com frequência, do olhar limitante sobre um único dia. Expanda-o para a semana inteira, e você provavelmente encontrará mais brechas.

  1. Monitore o seu tempo de forma simples

Laura monitora seus horários através de uma planilha simples de Excel. Intervalos de meia-hora, de segunda a domingo. Confere isso três vezes ao dia, e anota aquilo que conseguiu fazer desde a última checagem.

Ela não usa gráficos de pizza. Usa uma linguagem simples: “Email", "Cozinhar", "Ler", "Dirigir". O tipo de coisa que você casualmente diria a um amigo se ele perguntasse o que você está fazendo neste exato momento.

Ao final de cada semana, dedica-se a um momento de reflexão: Quais foram os pontos altos? O que ela mais gostou? O que foi mais memorável esta semana? E mais frustrante? Depois disso, ela guarda esse registro e inicia um novo.

Laura tem feito isso a tempo suficiente para que hoje ela consiga abrir um registro da mesma semana relativo ao ano anterior. Recentemente, ela comparou o último mês de abril aos registros de abril de 2020. Agora, ela tem um tipo de cápsula do tempo pessoal. (Minha esposa e minhas filhas usam o 5-Year One-Sentence Journal criado por Gretchen Rubin. Funciona também como um tipo de cápsula).

Dica: Você pode usar a planilha para gerir horários de Laura, que é simples e grátis. Se as planilhas são trabalhosas demais para você, tente o Toggl. Eu uso o Rize, que automaticamente categoriza meu tempo pra que eu não precise lembrar de registrar.

  1. Aproveite mais o trabalho com 3 pequenas táticas

Ao longo de três semanas, Laura testou três mudanças com centenas de pessoas. Os participantes se sentiram mais satisfeitos com seu trabalho a um grau estatisticamente significativo. Essas abordagens não exigem que você mude seu serviço, e também não dependem de você ter um alto grau de autonomia. Por isso, são concebidos para se adaptar a todos os tipos de funções.

  • Dedique uma hora a mais por semana ao trabalho que você mais gosta. Todo trabalho tem tarefas que você prefere. Até mesmo uma breve conversa com um gerente pode fazer com que você passe a se dedicar mais a essas tarefas. (Isso me remete à estratégia de “job crafting” - que pode ser traduzido como "redesenho do trabalho”, sobre a qual já escrevi na revista Time).
  • Passe 15 minutos extras por semana com alguém de quem você gosta no trabalho. Os amigos do trabalho são pessoas com quem você gostaria de passar tempo fora do escritório. Os momentos de convívio nesse ambiente são mais importantes do que imaginamos.
  • Faça duas pausas intencionais por dia. Todo mundo faz pausas. A maioria delas não é planejada. Quando você decide com antecedência como vai passar uma pausa, pode escolher algo revigorante, em vez de acabar, de forma automática, navegando na internet, diante de telas.

Um participante do estudo de Laura disse a ela: “Pensei em deixar meu emprego. Talvez ainda faça isso. Mas agora vejo maneiras de melhorar o meu trabalho, quer eu saia ou não.”

  1. Recupere suas horas de ouro

Laura chama de “horas de ouro” o período da semana entre o fim do expediente e a hora de dormir. Para a maioria das pessoas, isso corresponde aproximadamente das 18h às 23h. São cinco horas.

O desafio proposto por Laura: definir uma intenção para as “horas de ouro” todos os dias. Trinta minutos dedicados a algo que você escolha e realmente goste de fazer. Nada de trabalho, nem de tarefas domésticas.

Pode ser a leitura, um quebra-cabeças, uma caminhada, um jogo de tabuleiro, ouvir música. Até mesmo assistir a um filme com alguém querido, se você preferir.

O importante é a consciência e a intenção. Quando você reserva 30 minutos para um momento de lazer de sua escolha, fica menos provável que você se convença de que não tem tempo livre.

Laura também mencionou que é esse o título do seu próximo livro, em inglês: Golden Hours. Considerando que Big Time acabou de ser lançado, estou impressionado por ela já estar pronta para o próximo.

  1. Experimente a diversão que exige esforço antes da diversão sem esforço

Essa foi a tática mais memorável e útil que aprendi no livro anterior escrito pela Laura, que reaparece no atual. A ideia é a seguinte: quando sua agenda permitir um tempinho livre, comece com pelo menos alguns minutos de alguma atividade que exija esforço, antes de cair na tentação de ficar na frente das telas ou fazer alguma atividade mecânica. Leia três páginas de um livro antes de abrir o Instagram. Comece a desenhar ou a tocar um instrumento (essa é a minha escolha) antes de pegar o celular.

De duas, uma: Ou você vai ficar tão envolvido pelo livro que vai continuar lendo, ou você vai abrir o Instagram mesmo assim. Pelo menos, já aproveitou alguns minutos fazendo algo que lhe interessava antes.

Laura gosta de se dedicar a grandes projetos que duram o ano inteiro, como ouvir a obra completa de Bach ou Beethoven, ou ler tudo já publicado por Jane Austen ou Shakespeare — todos exemplos verídicos dela, de anos anteriores. Tudo isso requer a leitura de apenas 10 páginas por dia ou a escuta de uma peça musical. Se você incluir momentos de dedicação em seus dias, vai se aprofundar nos projetos que lhe interessam ao longo de um ano. Caso contrário, terá um ano inteiro de scroll ou outras distrações sem sentido, que podem não resultar em nada memorável.

A reflexão de Laura: a diversão que exige esforço é ainda mais agradável e valiosa depois que se supera o obstáculo inicial de apenas começar. Quando se inicia com uma diversão que não exige esforço, é fácil ficar viciado nela, e difícil mudar para algo que apresente mais atrito.

  1. Saia depois do jantar

A família da Laura usa a sigla TOAD: Time Outside After Dinner, “tempo ao ar livre depois do jantar” em português. Quando o entardecer se estende após a última refeição, saia de casa. Caminhe. Brinque. Simplesmente fique ali do lado de fora. Isso quebra a tendência natural a ficar diante das telas nas horas depois do jantar.

  1. Pratique a paciência ativa

Algumas coisas simplesmente levam tempo. Laura falou sobre como seus livros vão se revelando aos poucos, à medida que ela os escreve. Ela pode começar com um esboço detalhado, mas as nuances de cada capítulo vão surgindo de maneira gradual.

Uma composição musical só se torna parte de você depois de muitas horas de prática. Dediquei anos a algumas das minhas peças favoritas para violino; frequentemente descubro novos detalhes, como dinâmicas ou indicações de articulação às quais não tinha prestado muita atenção, mesmo depois de ter passado centenas de horas estudando a partitura.

Após 11 anos de acompanhamento, Laura sabe exatamente o que cabe em 168 horas. Suas listas de prioridades semanais são curtas e realistas. Se algo estiver na lista, ela vai fazer. Caso contrário, ela vai adiar para uma semana futura.

Essa precisão elimina a culpa. Laura não se impõe tarefas que não vai realmente fazer. E não se sente mal por aquilo que deliberadamente escolheu não executar naquela semana. Se você, como eu, às vezes se sente culpado por não fazer o suficiente, dê uma olhada no livro I Didn’t Do The Thing Today: Letting Go of Productivity Guilt, de Madeleine Dore. É de uma abordagem brilhante.

  1. Deixe espaço para dizer sim.

A maioria dos conselhos sobre produtividade gira em torno de dizer não. Laura inverte essa lógica. Quase todas as novas oportunidades, relacionamentos e avanços surgem quando dizemos sim a algo sobre o qual não temos certeza absoluta.

O motivo para esvaziar sua agenda não é apenas para ter menos compromissos. É para criar espaço mental para aceitar quando algo inesperado surgir. Se você se sentir completamente sobrecarregado, talvez nem sequer considere novas possibilidades. Gerenciar a carga mental não se resume apenas a dar conta das tarefas. Trata-se de manter a mente aberta para o que pode vir a seguir, e dar espaço para o acaso. É estar aberto ao que Laura chama de “pequenas apostas”, dedicando tempo a algo novo que pode acabar sendo fantástico.

Dica: Em seu livro Flourish, Daniel Coyle descreve essa abordagem como “abrir portas amarelas”. Elas são amarelas (como num semáforo) porque não representam um sinal claro de “vá em frente”. Você não tem certeza de onde elas vão levar. Você pode resistir a elas por instinto em favor de portas verdes mais óbvias. Coyle destaca, assim como Laura, que essas portas amarelas podem levá-lo a lugares surpreendentes aos quais você não iria de outra forma.

  1. Este provavelmente não é o seu último dia.

“Viva cada dia como se fosse o último” soa inspirador. Mas não é prático para tomarmos decisões reais de forma consistente sobre como gastamos nosso tempo.

Se tudo se resumisse a viver o momento, você não economizaria dinheiro, não aprenderia um novo idioma nem praticaria violoncelo. Planejar pareceria inútil ou tolo.

Laura prefere uma perspectiva diferente: “Um dia vamos morrer. Mas, em todos os outros dias, não vamos.” Ela atribui essa ideia a uma tira do Snoopy.

A maioria dos dias não é o último dia em que estaremos vivos. Vale a pena investir em coisas que darão frutos mais tarde. Desenvolva habilidades. Comece aquele projeto de longo prazo.

A Social Security Administration - a Administração da Segurança Social dos Estados Unidos - publica tabelas atuariais caso você queira ter uma ideia mais clara sobre sua própria expectativa de vida. Para a maioria das idades, suas chances de chegar ao próximo ano são excelentes. Isso vale tanto se você estiver na casa dos quarenta, como a Laura, quanto se tiver 92 anos. Um fato curioso: só quando você chega aos 105 anos é que suas chances de falecer dentro de um ano começam a ultrapassar 50%, de acordo com essas tabelas.

  1. Tome menos decisões. Confie nas opções pré-definidas.

A família de Laura tem um cardápio fixo para as refeições. Macarrão às segundas-feiras. Fajitas às terças-feiras. Comida de café da manhã como jantar às quintas-feiras. (Eles adoram bacon). Os fins de semana são para experimentar coisas novas.

Essa abordagem vai além da alimentação. Seguir rotinas libera energia mental para questões cruciais. Você não está sendo chato, está sendo estratégico quanto ao uso de seus esforços de tomada de decisão.

Jeff Bezos e outros líderes visionários falam sobre distinguir as pequenas decisões reversíveis daquelas de grande impacto que não podem ser revogadas. Se você não gostar de um almoço, sempre haverá outro no dia seguinte. Se você demitir alguém ou sair de uma parceria, talvez não tenha uma segunda chance tão rapidamente.

Este artigo foi republicado com a permissão de Wonder Tools, a newsletter que te ajuda a descobrir os sites e apps mais úteis.


SOBRE O AUTOR

Jeremy Caplan é diretor da Newmark Graduate School of Journalism da CUNY e criador da newsletter Wonder Tools. saiba mais