A mentira aprendeu a usar dados

Nunca se falou tanto em dados. Ao mesmo tempo, ficou fácil usar gráfico como atalho para parecer certo

mentiras podem ser baseadas em dados verdadeiros
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Guido Sarti 5 minutos de leitura

Tenho um hiperfoco bastante específico em "Os Simpsons". Gasto uma quantidade pouco defensável de memória com episódios, cenas e frases que raramente deveriam ocupar espaço útil na cabeça de um adulto funcional.

Existe, porém, uma compensação prática. Depois de mais de 30 anos de série, quase sempre aparece uma cena que explica algum bate-papo, alguma reunião ou algum desvio contemporâneo.

Este texto começa por uma delas.

Em 1994, Homer Simpson sentou diante do repórter Kent Brockman em defesa da patrulha de vigilantes que havia criado em Springfield. A cidade passava por uma onda de pequenos furtos. Homer montou um grupo, ganhou autoridade improvisada e logo virou parte do caos que chamava de solução.

Kent trouxe a conta. Os pequenos vandalismos haviam caído 80%. As agressões violentas haviam subido 900%. A pergunta era simples. A patrulha funcionava ou apenas trocava um tipo de problema por outro?

Homer respondeu com uma frase que envelheceu melhor do que muita teoria sobre comunicação pública: “Ah, as pessoas arranjam estatísticas para provar qualquer coisa, Kent. 14% das pessoas sabem disso.”

Homer Simpson inventa estatística para provar seu ponto de  vista
Crédito: 20th Television Animation

O truque inteiro aparece ali. Homer inventa uma estatística e usa a frase contra as estatísticas. Mistura base, período, causa e consequência. Em vez de responder à pergunta, joga fumaça sobre a pergunta. Kent escuta, pausa, segue o programa.

A piada durava poucos segundos. Hoje parece reunião.

De lá pra cá, a mentira ficou mais educada. Ganhou nome em inglês, “educated guess”, cara de hipótese, print de planilha e um vocabulário um pouco melhor. Antes gritava. Agora, muitas vezes, chega com relatório.

Parece prova antes de virar prova.

Existe diferença entre dado e figurino de dado. O dado vem com pergunta, fonte, escala, comparação, limite e consequência. O figurino vem com aparência. Parece sério, ocupa o espaço de prova e organiza a conversa ao redor de uma certeza que já vinha pronta.

Dado bom trabalha. Reduz incerteza, muda leitura, corrige rota ou mostra que a pergunta nasceu torta.

O dado ruim costuma seguir dois caminhos. Às vezes manipula a base. Às vezes coloca tanta informação em volta que a pergunta principal some.

O monitoramento de tudo entrou na rotina como sinal de controle. Painéis, recortes, trackings e abas multiplicam a sensação de domínio. A organização enxerga mais coisas. Isso ajuda. Só vira vantagem quando alguma decisão muda.

Uma compra pela internet virou uma pequena aula sobre isso. A página oferece material, acabamento, medidas, ranking, compatibilidade, avaliação, uso recomendado, componentes incluídos, método de controle e, claro, conectividade.

A informação sobra. A clareza, às vezes, fica em outro lugar. A decisão ainda depende de uma pergunta simples: isso resolve o uso que eu tenho em mente?

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Desculpem os infinitivos, mas eles cabem aqui: medir, comparar, provar, justificar, decidir. A sequência soa técnica. Muitas vezes vira só um jeito mais arrumado de defender uma conclusão que já estava escolhida.

Dado bom trabalha. Reduz incerteza, muda leitura, corrige rota ou mostra que a pergunta nasceu torta. Fora disso, vira rampa para uma decisão já tomada.

O teste é simples. Se a evidência confirma o caminho que a organização já preferia, a qualidade migra do método para a conveniência. A planilha entra depois. A vontade vinha antes.

O marketing conhece a mesma cena. Um criativo “ganhou” porque teve clique. Uma campanha “funcionou” porque o CPA (custo por aquisição) caiu. Uma marca “cresceu” porque o engajamento subiu. Um canal “merece verba” porque o ROAS (retorno do anúncio) parece melhor.

Cada frase pode estar certa. O problema aparece quando uma métrica boa vira resposta para outra pergunta.

leituras dedados podem levar a resultados enviesados
Créditos: mrhighsky/ iStock/ Compare Fibre/ Unsplash

Clique mede ação. Desejo pede outra leitura. Engajamento mede reação. Vínculo pede recorrência, memória, preferência e contexto. ROAS mede retorno atribuído dentro de uma janela. Marca vive também em horizontes longos, saliência acumulada, repertório cultural e distribuição de atenção.

Muita organização trata esse problema como falta de informação. Daí vem a resposta previsível: mais relatórios, mais checagens, mais dashboards, mais visualizações. Tudo isso ajuda, mas pega só a parte visível do problema.

A má leitura também tem sistema. Tem incentivo, recompensa, formato e velocidade. Circula bem porque reduz ambiguidade, cabe em pouco espaço e transforma complexidade em frase segura. A leitura correta pede repertório, tempo e alguns minutos a mais de dúvida.

É por isso que cultura de dados virou uma expressão curiosa. Em muita empresa, ela ainda aparece como acesso a ferramentas, volume de dashboards ou quantidade de pessoas mexendo em base. Essa parte importa. Mas cultura começa quando o dado muda a conversa.

A decisão depende de uma pergunta simples: isso resolve o uso que eu tenho em mente?

Mesmo quando custa. Especialmente quando custa. Meu chefe me disse, enquanto eu revisava este texto: “receio deveria ser o termômetro de ideia boa”. Dado que só conforta costuma mexer pouco no plano.

O critério final é menos bonito e mais útil: qual decisão muda depois dessa informação? Se a resposta for coisa alguma, talvez o dado esteja ali apenas para enfeitar a vontade. A decisão já existia. O número chegou depois.

A estética dos dados se popularizou antes da maturidade de leitura. Gráficos ficaram mais fáceis. Dashboards ficaram mais bonitos. Prints ficaram mais rápidos. Modelos ficaram mais acessíveis. Isso tem valor. Também abre espaço para um problema novo.

Quando todo mundo aprende a língua da evidência, a disputa fica menos sobre o número e mais sobre como ele foi ligado à conclusão.

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Entre dado e decisão existe interpretação. Parece detalhe. É o centro da história. É ali que mora a responsabilidade. É ali que a mentira contemporânea trabalha melhor. O dado continua. A conclusão anda.

Homer entendeu isso antes de quase todo mundo, do jeito mais idiota possível. Diante de uma estatística inconveniente, inventou outra e transformou a conversa em ruído.

A piada continua boa porque o truque continua funcionando.

Só mudou o figurino.

Agora tem gráfico.


SOBRE O AUTOR

Guido Sarti é sócio e vice-presidente de Dados e Tecnologia na Galeria, fundador da martech GAIA e da empresa de inteligência geolocal... saiba mais