A nova ansiedade do trabalho: procurar vagas sem se candidatar
Ansiedade, IA e processos seletivos desgastantes alimentam um comportamento que faz profissionais desistirem antes mesmo de se candidatar

Existe uma palavra para o hábito de navegar sem rumo por anúncios de emprego sem reunir energia para se candidatar a nenhuma vaga. Essa palavra é doomjobbing – algo como "procurar emprego de forma pessimista" –, um comportamento muitas vezes alimentado pela ansiedade e pela incerteza que muita gente enfrenta ao lidar com um mercado de trabalho turbulento.
O termo aparentemente foi criado por uma menina de oito anos que viu o pai navegando por vagas no LinkedIn depois de ser demitido. A expressão resume perfeitamente a sensação de impotência após uma dispensa ou diante da insatisfação com o trabalho atual.
À primeira vista, uma vaga pode até parecer interessante. Mas o doomjobbing começa quando clicar em "candidatar-se" não parece mais valer a pena, diante da concorrência acirrada, das inúmeras etapas do processo seletivo e da possibilidade de receber uma rejeição automática.
O doomjobbing ocupa um espaço desconfortável entre a esperança e a resignação. Quem procura emprego navega pelas oportunidades porque deseja um futuro diferente, mas para antes de dar o próximo passo porque o processo parece desgastante demais.
Assim como o doomscrolling nas redes sociais, esse hábito pode se tornar uma forma de lidar com um problema que parece estar fora do próprio controle. A consequência, no longo prazo, é uma geração inteira de trabalhadores ansiosos e desmotivados em relação ao futuro.
FUTURO NEBULOSO
Embora explorar possibilidades de carreira de forma saudável geralmente envolva um objetivo claro e disposição para agir, o doomjobbing funciona de maneira diferente, afirma Joe Patterson, vice-presidente de educação para a força de trabalho e comunidade da Universidade Nacional, em San Diego.
"O doomjobbing tende a ser reativo e guiado pelas emoções. Em vez de se sentirem fortalecidas, as pessoas se sentem sobrecarregadas", diz. "Com o tempo, esse ciclo pode aumentar a ansiedade e aprofundar a insatisfação com o emprego atual, mesmo que a situação delas não tenha mudado."

Em 2026, a inteligência artificial está transformando setores inteiros da economia, as demissões atingem diferentes setores e muitos trabalhadores enfrentam o esgotamento profissional.
Ao mesmo tempo, candidatos usam IA para produzir currículos refinados em escala, enquanto empresas recorrem a filtros baseados em IA para selecionar currículos. Os dois lados tentam acompanhar essa corrida tecnológica.
O fenômeno reflete a percepção de que o futuro do trabalho se tornou nebuloso e muito mais difícil de planejar.
IA NO RECRUTAMENTO
Um relatório de 2025 da empresa de verificação de antecedentes Checkr mostra que a frustração é generalizada. Entre os três mil norte-americanos ouvidos, 58% disseram que conseguir uma entrevista ou qualquer resposta por meio das plataformas tradicionais de vagas parece impossível. Já 62% afirmaram que a falta de retorno prejudicou sua confiança durante a busca por emprego.
Se tanto empregadores quanto trabalhadores acreditam que o processo de contratação é falho, o doomjobbing passa a fazer sentido como uma resposta racional, e não como uma falha pessoal.
O doomjobbing tende a ser reativo e guiado pelas emoções.
Jennifer Dulski, CEO da plataforma de desempenho no ambiente de trabalho Rising Team, afirma que nunca foi tão difícil para os profissionais se sentirem confiantes em relação ao próximo passo da carreira. Segundo ela, o termo "doomjobbing" é apropriado porque passar horas olhando vagas sem agir "pode fazer você se sentir ainda pior".
Patterson afirma que o fenômeno pode ser comparado à paralisia decisória. Quando somos confrontados com opções demais ou não sabemos exatamente o que queremos, tendemos a ficar paralisados.
"Pode ser difícil dar o próximo passo e realmente agir. Isso cria um ciclo de navegação sem ação. Não é falta de ambição; na maioria das vezes, é falta de clareza ou de confiança. Sem um senso claro de direção, as pessoas ficam indefinidamente na fase de exploração",explica Patterson.
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Dimitri Boylan, CEO da plataforma de recrutamento Avature, afirma que existe uma corrida tecnológica cada vez mais intensa entre candidatos e sistemas de contratação.
Os candidatos utilizam IA para produzir diversos currículos e cartas de apresentação altamente elaborados, enquanto as empresas implementam automação para filtrar esses candidatos. Diante desse cenário, muita gente passa a se perguntar se ainda vale a pena participar desse processo.
COMO ROMPER O CICLO DO DOOMJOBBING
Para quem está empregado, Boylan recomenda abandonar o hábito de ficar rolando listas de vagas e concentrar esforços em aproveitar ao máximo a posição atual. Já quem está desempregado deve "resistir à tentação de tentar vencer a máquina".
"A ideia do doomjobbing implica que você, na verdade, não está procurando outro emprego; está apenas olhando vagas. Se você consegue apresentar bem quem é e o que faz, e tem expectativas realistas sobre as oportunidades que pode conquistar, as chances são de que consiga um emprego."
Dulski afirma que, embora o futuro transformado pela IA assuste, ele também traz oportunidades, e os profissionais precisam lembrar que ainda mantêm algum controle sobre o próprio destino. "Eu realmente acredito que as pessoas têm capacidade de influenciar o próprio futuro", diz.

O doomjobbing pode ser um termo novo, mas a sensação de desejar desesperadamente uma mudança e, ao mesmo tempo, ter dificuldade para dar o próximo passo é bastante conhecida.
Para quem observa de fora, esse comportamento pode parecer apatia. Para muitos trabalhadores, porém, trata-se de uma reação a um mercado de trabalho cada vez mais imprevisível.
Nesse contexto, a distância entre navegar por vagas e efetivamente se candidatar pode parecer muito maior do que deveria.