Antes da fumaça: os satélites que querem encontrar o fogo primeiro
Sistema identifica focos muito menores que os vistos por satélites convencionais e pode acelerar o combate às chamas

Quando um incêndio em vegetação começou às margens de uma estrada no estado do Oregon, no noroeste dos EUA, no ano passado, ele consumia apenas cerca de dois mil metros quadrados, uma área pequena demais para ser detectada pelos satélites convencionais.
Ainda assim, foi identificado por um protótipo do FireSat, um programa de satélites desenvolvido especificamente para detectar incêndios florestais.
Na época, os órgãos responsáveis pelo combate ao fogo ainda não utilizavam o sistema. Mas, quando estiver totalmente operacional, ele poderá emitir alertas antes que pequenos focos se transformem em grandes incêndios.
Agora, graças a um aporte de US$ 26 milhões do Bezos Earth Fund – que amplia um financiamento anterior do Google.org e de outros parceiros –, três satélites FireSat serão lançados em julho e vão começar a monitorar incêndios em escala global.
Até o início da década de 2030, a Earth Fire Alliance, organização sem fins lucrativos responsável pelo projeto, pretende colocar em órbita uma constelação de 50 satélites, capaz de revisitar todos os pontos do planeta a cada 20 minutos.
"Havia uma grande lacuna na compreensão dos incêndios", afirma Brian Collins, diretor-executivo da organização.
A Earth Fire Alliance foi criada em 2024, depois que sua equipe consultou mais de 200 agências de combate a incêndios, gestores ambientais e formuladores de políticas públicas para entender como aumentar a resiliência diante dos incêndios florestais.

"O tema que mais apareceu foi a necessidade de dados melhores para compreender realmente a dimensão e a escala dos incêndios florestais em todo o planeta", diz Collins.
Hoje, satélites meteorológicos já conseguem detectar alguns incêndios, mas não foram projetados para essa finalidade. Os satélites do FireSat, desenvolvidos pela Muon Space, coletam informações em diferentes comprimentos de onda, além da luz visível, permitindo observar aspectos distintos do fogo.
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O infravermelho de ondas curtas consegue enxergar através da fumaça. O infravermelho de ondas médias detecta tanto incêndios intensos quanto queimadas de baixa intensidade. O infravermelho de ondas longas mede a temperatura do solo. Já o infravermelho próximo revela como plantas e árvores estão reagindo ao fogo.
O diferencial está em reunir todos esses dados simultaneamente e em alta resolução, suficiente para detectar um incêndio do tamanho aproximado de uma garagem.
Segundo Collins, o sistema também consegue distinguir um foco de incêndio de situações como o reflexo do Sol em um telhado metálico, evitando falsos alarmes.

A tecnologia foi concebida para funcionar em conjunto com outras ferramentas, como câmeras de monitoramento. Embora elas consigam identificar rapidamente o início de um incêndio, nem sempre oferecem uma visão completa da situação.
Sem uma rede de múltiplas câmeras, pode ser difícil determinar exatamente onde a fumaça começou. Além disso, conforme o incêndio cresce e a fumaça se intensifica, a visibilidade das câmeras diminui, enquanto os satélites continuam acompanhando o deslocamento das chamas.
Órgãos de combate a incêndios já participam do projeto como parceiros iniciais. Na Floresta Amazônica, por exemplo, as autoridades muitas vezes só tomam conhecimento de um incêndio depois de 24 horas de queimadas. O FireSat poderá reduzir drasticamente esse tempo de resposta.
O sistema também será capaz de monitorar incêndios de baixa intensidade que talvez não exijam intervenção imediata.
Um dos principais objetivos do projeto é construir um retrato muito mais completo da atividade dos incêndios florestais e ampliar o conhecimento científico sobre o tema, já que, atualmente, apenas os maiores incêndios costumam ser registrados. A iniciativa também está formando uma rede global de agências especializadas no combate ao fogo.
À medida que os satélites reunirem informações e criarem o primeiro registro completo dos incêndios na Terra, esses dados poderão ser usados para prever como futuros incêndios tendem a se espalhar e até indicar onde novos focos têm maior probabilidade de surgir.