5 perguntas para Tyler Cowen, economista e autor
O acadêmico e escritor conta por que acredita que aprender a conviver com a incerteza será uma das habilidades mais importantes dos próximos anos

O economista, escritor e professor norte-americano Tyler Cowen esteve no Brasil na semana passada para participar do Fronteiras do Pensamento, projeto que reúne alguns dos principais intelectuais do mundo para discutir os grandes desafios da sociedade contemporânea. Antes de subir ao palco, ele reservou um tempo para conversar com a Fast Company Brasil.
Professor da Universidade George Mason, colunista da Bloomberg e autor de livros como "Crie sua própria economia: o guia da prosperidade para um mundo em desordem", "Descubra o seu economista interior" e "Talento: como identificar mobilizadores, criativos e vencedores ao redor do mundo", Cowen é considerado um dos mais influentes pensadores sobre economia, inovação e tecnologia da atualidade.
Ele também apresenta o podcast Conversations with Tyler, no qual já entrevistou centenas de cientistas, CEOs, artistas e escritores em conversas profundas sobre criatividade, ciência e futuro.
Ao longo da entrevista, falou sobre inteligência artificial, mas também sobre curiosidade, viagens, ambição, Brasil e por que acredita que aprender a conviver com a incerteza será uma das habilidades mais importantes dos próximos anos.
FC Brasil – No Conversations with Tyler, você costuma começar perguntando aos convidados sobre suas paixões. Então vamos inverter os papéis: qual é a sua?
Tyler Cowen – Viajar. Esta é minha quarta vez em São Paulo e já visitei mais de 100 países. Alguns deles muitas vezes. O México, por exemplo, mais de 30 vezes. Índia, cerca de 10. China, 11.
As pessoas sempre esperam que eu responda "ler". Eu adoro ler. Mas, se tivesse que escolher entre leitura e viagem, escolheria viajar. Você lê sobre um lugar, vai até lá e volta muito mais rico intelectualmente.
Leia mais: A mudança que não pede licença
O melhor das viagens é que elas mostram o quanto você ainda não entende do mundo. Você chega com perguntas, encontra algumas respostas, mas volta com dúvidas ainda melhores.
Veja o Brasil: há empresas extraordinárias, muito talento, recursos naturais. Em outros momentos da história, o país cresceu mais de 10% ao ano. Hoje, comemoramos quando cresce 2%. Por quê? Tenho algumas hipóteses, mas não uma resposta definitiva. Talvez ninguém tenha. E isso faz parte do aprendizado.
FC Brasil – Em seu livro mais recente, "GOAT: Who is the Greatest Economist of all Time and Why Does it Matter?" (Quem é o maior economista de todos os tempos e por que isso importa? em tradução livre) você analisa os maiores economistas da história e mostra como eles formularam perguntas diferentes sobre o mundo. Ao mesmo tempo, vivemos uma época em que muita gente parece ter certeza sobre o futuro, especialmente quando o assunto é IA. Por que isso acontece?
Tyler Cowen – Acho que as pessoas se agarram a certezas porque têm medo da incerteza. E estamos vivendo um momento em que há muita incerteza.

A inteligência artificial é um bom exemplo. As pessoas querem saber o que isso significa para seus empregos, para seus filhos, para seus planos de vida. É desconfortável não saber. Então tentamos encontrar alguma resposta definitiva à qual possamos nos agarrar.
Mas acho que esse impulso nos leva ao erro. A verdade é que ninguém sabe exatamente como essas mudanças vão acontecer. E precisamos aprender a conviver com isso.
FC Brasil – Você costuma ser descrito como um tecno-otimista. O que as pessoas ainda não entenderam sobre a inteligência artificial?
Tyler Cowen – Acho curioso que muitas das pessoas mais preocupadas com a IA sejam justamente as elites. Jornalistas, escritores, professores universitários, profissionais cujo trabalho depende da produção de conhecimento. Eles sentem que a tecnologia compete diretamente com eles.

Já as pessoas comuns costumam reagir de outra forma. Recentemente, estive em uma região rural da África do Sul e mostrei ferramentas de IA para pessoas que nunca tinham ouvido falar delas. A reação foi imediata. "Isso é incrível. Meus filhos vão adorar". Pela primeira vez, elas tinham acesso a algo que antes simplesmente não existia.
Também acredito que ainda subestimamos o impacto da IA na ciência e na medicina. Escrevi sobre inteligência artificial há mais de 10 anos e, olhando para trás, percebo que não imaginei o quanto ela seria útil para a biologia. Hoje acredito que veremos avanços extraordinários nessas áreas. Estamos construindo uma IA melhor do que aquela que eu mesmo imaginava.
FC Brasil – Depois de visitar mais de 100 países, o que o Brasil ainda não percebeu sobre si mesmo?
Tyler Cowen – O Brasil é um país muito seguro do ponto de vista geopolítico. E isso, paradoxalmente, pode ser uma desvantagem. Ninguém vai invadir o Brasil. Vocês não vivem sob uma ameaça existencial. Isso reduz a pressão para inovar rapidamente.
as pessoas se agarram a certezas porque têm medo da incerteza. E estamos vivendo um momento de muita incerteza.
Quando olho para países como a Ucrânia, por exemplo, vejo pessoas desenvolvendo tecnologias porque precisam sobreviver. Ao longo da história, a competição produziu inovação. O Brasil não enfrenta esse tipo de urgência.
Também sinto que o país perdeu parte da ambição que demonstrava algumas décadas atrás. Brasília talvez seja o melhor exemplo disso. Você pode gostar ou não da cidade, mas ela representa uma enorme visão de futuro.
Na mesma época, o Brasil era admirado por sua música, arquitetura, cinema e criatividade. Ainda há muita inovação em tecnologia e agricultura, mas essa ambição cultural parece menos presente. Não sei exatamente por quê. Mas também não faz tanto tempo assim. Isso significa que ela pode voltar.
FC Brasil – Como você imagina os próximos 10 anos?
Tyler Cowen – Acho que teremos mais surpresas na próxima década do que estamos acostumados a viver. Espero que a maioria delas seja positiva.
Não acredito que estejamos caminhando para um período de estabilidade. Pelo contrário. Será uma época de mudanças rápidas, de novas descobertas e de muitas transformações.
Para quem trabalha com jornalismo, isso significa uma oportunidade extraordinária. Vocês terão muito sobre o que escrever e estarão observando um dos momentos mais interessantes da história.
Então meu conselho é simples: apertem os cintos. Vocês terão mais surpresas nos próximos 10 anos do que estão acostumados.