O medo da IA chegou a “Toy Story”

Assim como em 1995, a animação usa uma revolução tecnológica para contar uma história sobre adaptação e convivência

Toy Story 5
Créditos: Disney/ Pixar/ Magnific

Shannon Cudd 4 minutos de leitura

Antes de serem suavizados pela Disney, os contos de fadas eram histórias assustadoras, criadas para ensinar às crianças os perigos do mundo. Agora, a Pixar parece recorrer a uma lógica semelhante. Desde o início, a franquia Toy Story gira em torno do medo de ser substituído.

No filme original, lançado em 1995, o cowboy Woody teme perder seu lugar para o recém-chegado patrulheiro espacial Buzz Lightyear. O próprio longa representava uma ruptura tecnológica ao inaugurar uma nova era da animação digital, espelhando a história contada na tela.

Agora, "Toy Story 5", que acaba de estrear nos cinemas, tem potencial para ampliar essa discussão ao alertar para os riscos da tecnologia. Eis o que já se sabe sobre o filme – com um pouco de história e alguns dados para contextualizar.

O primeiro "Toy Story" apresentou ao público os brinquedos favoritos do garoto Andy: Woody, Buzz Lightyear e toda a turma.

Na animação de 1995, Woody teme ser substituído pelo brinquedo mais moderno e chamativo. É um receio com o qual muitos trabalhadores de hoje conseguem se identificar.

Em "Toy Story 5", esse medo parece ganhar uma nova dimensão. Em vez de competir apenas com outro brinquedo, Jessie, Buzz e seus amigos enfrentam a ameaça de um tablet chamado Lilypad, que passa a disputar a atenção das crianças. Para lidar com o problema, eles recorrem ao velho amigo Woody.

O QUE O FILME E A IA TÊM EM COMUM?

A sensação de obsolescência, recorrente na franquia, também faz parte da realidade de muitos trabalhadores, especialmente daqueles que exercem suas atividades diante de um computador. Hoje, a inteligência artificial desperta o temor de substituir profissionais em praticamente todos os setores.

Segundo o Iceberg Index, um simulador do mercado de trabalho desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), cerca de 11,7% do mercado de trabalho dos EUA apresenta sobreposição significativa entre as habilidades exigidas pelas funções e as capacidades atuais da IA. Em termos econômicos, isso representa o equivalente a US$ 1,2 trilhão em salários ameaçados.

personagens do filme de animação Toy Story 5
Crédito: Disney/ Pixar

Embora essa estimativa seja hipotética, análises baseadas em dados reais também apontam impactos concretos. A economista Elsie Peng, do Goldman Sachs, calculou que a inteligência artificial reduziu o crescimento mensal da folha de pagamentos dos Estados Unidos em aproximadamente 16 mil empregos ao longo do último ano.

Ela ressalva, porém, que a análise não contabiliza totalmente os postos de trabalho gerados pela construção de data centers nem os ganhos de produtividade associados à IA.

O QUE O FILME NOS DIZ SOBRE TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃO?

Ao longo da franquia, Toy Story sempre defendeu o valor das interações humanas. Essa discussão também aparece no campo da educação. Afinal, além do mercado de trabalho, o avanço da tecnologia vem transformando as salas de aula – nem sempre de forma positiva.

No início deste ano, o neurocientista Jared Cooney Horvath apresentou um depoimento por escrito ao Comitê de Comércio, Ciência e Transporte do Senado dos Estados Unidos sobre os efeitos negativos do uso excessivo de tecnologia na educação.

A sensação de obsolescência, recorrente em "Toy Story", faz parte da realidade de muitos trabalhadores.

Com base em dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), Horvath concluiu que a geração Z é a primeira a apresentar desempenho cognitivo inferior ao das gerações anteriores.

Segundo ele, existe uma correlação entre esse declínio e o aumento do tempo de exposição às telas durante as atividades escolares.

Livros didáticos vêm sendo substituídos por Chromebooks. Escrever à mão cede lugar à digitação. E, diante de um computador, as distrações se multiplicam, prejudicando a retenção do conteúdo.

A franquia Toy Story é um produto direto da revolução digital dos anos 1990.

O primeiro filme estreou em novembro de 1995 e marcou diversos feitos históricos: foi o primeiro longa-metragem da Pixar, a primeira animação totalmente produzida por computador e o início da parceria do estúdio com a Disney, que acabaria adquirindo a produtora em 2006.

Woody e Buzz no longa de animação "Toy Story", de 1995
"Toy Story" (1995) Crédito: Pixar

O sucesso foi imediato. A animação tornou-se a maior bilheteria daquele ano, arrecadando US$ 192 milhões nos Estados Unidos e US$ 362 milhões em todo o mundo.

Também fez história no Oscar ao receber três indicações, incluindo a de Melhor Roteiro Original – a primeira vez que uma animação disputava essa categoria.

No desfecho do primeiro filme, Woody e Buzz descobrem que não precisam competir. Em vez disso, aprendem a coexistir e se tornam amigos.

personagens do filme de animação Toy Story 5
Crédito: Disney/ Pixar

Quase 31 anos depois, "Toy Story 5" parece sugerir que talvez seja possível fazer o mesmo com a tecnologia: conviver com ela, reconhecendo tanto seu potencial quanto seus riscos.

A grande lição pode ser que os trabalhadores precisam aprender a se adaptar. Diante dos impactos reais da inteligência artificial sobre o emprego e a educação, essa mensagem talvez nunca tenha sido tão atual.


SOBRE A AUTORA

Shannon Cudd é atriz e escritora. saiba mais