Quem vigia os vigilantes

Um alerta de emergência invadido na madrugada revela a cadeira vazia de quem deveria responder pelo funcionamento das coisas

Créditos: cyano66/ Getty Images/ Panumas Nikhomkhai/ Pexels/ Davide Ragusa/ Martin Jernberg/ Unsplash

Guido Sarti 5 minutos de leitura

É uma e meia da manhã de sábado. O Brasil acabou de ganhar do Haiti. O celular emite um som que atravessa o modo silencioso e a tela trava num aviso que recusa ser fechado. A mensagem leva a assinatura da Defesa Civil e carrega uma palavra nem tão comum, misantropia.

Em Curitiba, São Paulo, Rio, Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal, a cena se repetiu para milhares de pessoas ao mesmo tempo. O susto veio primeiro, a procura por sentido veio logo depois.

O meu primeiro achismo foi alienígenas (que, infelizmente, não aconteceu). De alguns amigos, fim do mundo.

Como sempre, a explicação mais improvável é a mais aceitável. Afinal, não vivemos numa série. Alguém entrou no sistema de alertas extremos do país e disparou uma palavra sobre ódio à humanidade enquanto a população dormia.

A Defesa Civil Nacional confirmou a invasão, desligou a plataforma e acionou a Polícia Federal. As defesas civis estaduais e a prefeitura de Curitiba afirmaram que o disparo não saiu de seus sistemas. O botão foi acionado por alguém que, segundo todos os envolvidos, não deveria ter acesso a ele (o óbvio).

A PARTE HUMANA QUE ESCAPOU

O Cell Broadcast, operado em conjunto com a Anatel, é a tecnologia que interrompe milhões de telas simultaneamente, dispensando cadastro e autorização do usuário. Esse poder existe por uma razão defensável. Quando o aparelho toca, a vida de quem recebe pode estar em jogo.

A contrapartida desse poder é uma só. Alguém precisa garantir que apenas pessoas autorizadas o acionem. Essa garantia é a parte humana do sistema, e foi ela que escapou.

Um sistema precisa de mais do que um operador formal, precisa de alguém que responda quando ele falha.

Pouco importa o caminho técnico exato da invasão. Uma credencial vazada, um servidor exposto, uma porta deixada aberta por quem operava o sistema. Todas as portas levam ao mesmo cômodo.

A falha vive no controle de acesso, na guarda da chave, na vigilância de quem opera. Vive na pessoa antes de viver na máquina, e é por isso que nenhuma atualização de software a resolve sozinha.

O episódio teve um ensaio. Em agosto de 2025, São Paulo recebeu um alerta de teste com a frase “TEST warning message A+B”, também sem origem assumida. O aviso já estava dado havia quase um ano. A cadeira seguiu vazia.

A FUNÇÃO CONSTA NO ORGANOGRAMA. A RESPONSABILIDADE EVAPOROU

A tranquilidade cotidiana repousa sobre uma suposição que raramente colocamos à prova. A de que existe, em algum ponto da cadeia, um adulto encarregado de tomar conta. Alguém que disse “resolvido” depois de testar, e não antes.

O alerta invadido mostra o que acontece quando essa suposição é falsa. A responsabilidade se diluiu ao longo da cadeia até deixar de ter responsável.

alerta de perigo

A Defesa Civil estadual remete à nacional. A nacional opera com a Anatel. A Anatel depende das operadoras. Cada elo cuida de seu trecho e o conjunto fica órfão. Quando todo mundo é dono, ninguém é dono.

Essa mecânica reaparece em quase todo colapso de confiança. O cargo existe no papel. A responsabilidade, entendida como a disposição de responder pelas consequências, fica sem endereço. Há vigilante. Falta vigilância.

DE FIDELIDADE A RESPONSABILIDADE

A pergunta atribuída ao poeta romano Juvenal sobre quem guarda os próprios guardas nasceu como questão de fidelidade. Hoje ela opera como questão de responsabilidade. Um sistema precisa de mais do que um operador formal. Precisa de alguém que responda quando ele falha, e que responda antes, mantendo a falha distante.

Isso tudo me fez lembrar do menino que gritava lobo. Quando li a fábula, ainda criança, entendi que era sobre não mentir. Por sorte, minha mãe me explicou o que faltava. “Quando o lobo finalmente chegou, ninguém correu. E não foi só pela mentira, foi porque ninguém mais confiava no que ele dizia.” Era sobre o esgotamento da confiança.

O cenário aqui é parecido. Um alerta de emergência funciona em regime de tudo ou nada e se sustenta enquanto a população reage ao som sem questionar. Cada susto sem causa ensina as pessoas a duvidar.

A tranquilidade cotidiana repousa sobre a suposição de que existe, em algum ponto, um adulto encarregado de tomar conta.

O preço dessa dúvida fica para depois. No dia em que o aviso for verdadeiro, a primeira reação vai ser conferir se virou meme, antes de abandonar a casa.

A piada da madrugada custou pouco no curto prazo. O custo silencioso é a erosão da única coisa que faz um sistema de emergência operar: a presença confiável de alguém do outro lado.

Esse desgaste não é exclusividade dos alertas de celular. O Edelman Trust Barometer registra, edição após edição, a queda da confiança em governo, empresas e instituições.

A edição de 2025 chegou a nomear o fenômeno como uma crise de ressentimento, com seis em cada 10 pessoas relatando algum grau de inconformismo com quem deveria estar no comando.

A descrença do menino que gritava lobo deixou de ser uma fábula e virou diagnóstico de época.

O CUSTO DE UMA CADEIRA VAZIA

A desorganização social raramente vem do excesso de problemas. Ela se instala quando as funções de cuidado perdem o dono. Quando muitos operam e ninguém responde. Quando autônomo, automático e terceirizado passam a significar a mesma coisa: “Isso não é comigo.”

O alerta de misantropia saiu barato. Ninguém se feriu, nada se perdeu em valor, sobrou matéria-prima para meme. Ele expôs de graça uma conta que costuma chegar cara: a de uma estrutura abundante em operadores e escassa em responsáveis. Religar a plataforma será a parte simples.

Leia mais: IA pode salvar ou agravar a crise climática? Alerta da ONU acende debate

A parte difícil é a pergunta que ficou no ar, válida muito além de um alarme no celular. Quando algo essencial falha à 1h30 da manhã, quem está acordado para responder por isso.


SOBRE O AUTOR

Guido Sarti é sócio e vice-presidente de Dados e Tecnologia na Galeria, fundador da martech GAIA e da empresa de inteligência geolocal... saiba mais