O Leão agora morde

Festival inaugura uma nova era de integridade e passa a exigir criatividade verificável para premiar campanhas.

Ilustração de um leão rugindo sobre um tabuleiro de xadrez, simbolizando a nova política de integridade e transparência do Cannes Lions.
Cannes Lions passa a exigir criatividade verificável e inaugura uma nova era de integridade na publicidade.

Erlana Castro 5 minutos de leitura

Durante décadas, Cannes Lions viveu o que parecia ser um pacto tácito: regras existiam,  mas eram quase decorativas. O Leão rugia, mas não mordia. A indústria sabia disso e,  entre zonas cinzentas, exageros criativos e cases “bons demais para ser verdade”, a  fronteira entre criatividade real e ficção publicitária foi ficando cada vez mais borrada. 

Leia aqui a nossa cobertura especial de Cannes Lions 2026

Em 2026, esse pacto acaba. O festival assume seu papel como guardião global da  confiança criativa: cria sistemas de verificação, institui governança independente, define  consequências reais e exige transparência radical. Simon Cook, CEO do festival, declara  sem rodeios que criatividade só tem valor se for crível e verificável. 

O SALTO DA INTEGRIDADE

Integridade sempre foi um valor declarado, mas em 2026 ela deixa de ser discurso e vira  estrutura. O festival implementa um sistema híbrido de verificação humano com inteligência artificial, institui  um Integrity Council independente, engaja e orienta todo o corpo jurado na nova regra,  estabelece auditoria anual, define sanções reais (incluindo banimento, para além da  retirada de Leões) e exige aprovação formal dos responsáveis legais do anunciante para  cada inscrição submetida. É o fim da era da ficção publicitária. 

Integridade como critério de excelência 

O lançamento do LIONS Integrity Handbook funciona como um manifesto de integridade  do festival e traz, nas palavras de Simon Cook, um decreto central: 

“Excelência ciativa deveria ser sinônino de integridade criativa""

Na nova era do Cannes Lions, excelência e integridade tornam-se sinônimos.

Não basta  emocionar, não basta viralizar, não basta ganhar mídia espontânea. A ideia precisa ser  real, verificável, coerente, proporcional, responsável, rastreável. Sem isso, não tem Leão. 

CRIATIVIDADE VERIFICÁVEL E CONFIÁVEL É UM CRITÉRIO PARA O LEÃO

Outro mantra de Simon Cook coloca a integridade como condição para o reconhecimento  do valor criado pela criatividade, não como atributo opcional: "Criatividade é valiosa apenas se é confiável".

A criatividade só vale se aguenta escrutínio. Se tem lastro. Se tem dados verificáveis. Se  tem impacto real. Se declarar o uso de IA. Se ter coerência entre discurso criativo e prática empresarial, o que o festival chama de right to play, também conhecido como ticket to  play

Sem sombra nem cinza, a nova regra é simples: criatividade que não é verificável não é  premiável. 

INTERGRIDADE EM CANNES AGORA É REGRA: O LEÃO MOSTRA OS DENTES

Cannes não está inventando integridade, nem fazendo “metapropaganda”. Está  respondendo ao colapso da confiança — tanto no contexto de negócios quanto no próprio  festival, especialmente após a crise de 2025. Trata-se de uma mudança profunda de  modelo de operação e, não menos importante, de papel institucional. 

Nas palavras do CEO:  "O festival é um articulador global e referência na definição dos padrões de excelência criativa, com a responsabilidade máxima de garantir que a criatividade continue sendo uma força poderosa e verificável para o crescimento dos negócios e o progresso da sociedade."

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Traduzindo e contextualizando: Cannes Lions deixa de ser apenas um palco de celebração para assumir o papel de guardião global da confiança criativa, com a responsabilidade última de garantir  que a criatividade permaneça uma força poderosa e verificável, servindo simultaneamente  ao crescimento dos negócios e ao progresso da sociedade. 

Essa frase reposiciona Cannes não mais como um palco celebratório, mas como um  fórum regulador da indústria criativa — um guardião da integridade e um árbitro global de  padrões.

É o festival assumindo um papel de entidade de autorregulação, pelo julgamento e validação entre pares, algo nunca explicitado com tanta clareza: uma infraestrutura de  governança coletiva responsável por proteger a reputação e o valor econômico da  criatividade. 

INTEGRIDADE COMO VANTADE COMPETITIVA

Nesse movimento, o festival desloca a integridade do campo moral para o campo  estratégico. E esse talvez seja o ponto mais transformador para marcas e seus parceiros  criativos: a integridade sai da conta do custo e entra na conta de criação de valor

Ela se torna diferencial de marca, argumento de negócio, critério de investimento, ativo  reputacional e motor de crescimento para todos os stakeholders. Deixa de ser  demonstração de “virtude” e passa a ser demonstração de resultados.

O que Cannes Lions fez em 2026 não foi um ajuste técnico, nem uma simples atualização  de regras.

Foi um salto de entendimento de contexto, de papel institucional e de modelo  de funcionamento. 

O primeiro efeito verificável dessa mudança? A qualificação das peças criativas  submetidas ao festival. De 2025 para 2026, houve uma queda de cerca de 25% no total  de inscrições. Somente as inscrições brasileiras retraíram 42%. 

Essa autolimpeza aparece também nas categorias que mais encolheram: Glass: The Lion  for Change caiu cerca de 50%; Creative Business Transformation, 42%; SDG (ODS) Lions,  40%; Creative Effectiveness e Creative Commerce, ambas em torno de 39%. A barra subiu, e subiu de verdade. 

O LIONS Integrity Handbook é o marco zero dessa nova era, em que a função do festival  não é apenas celebrar e promover a indústria, mas proteger a criatividade como a maior  força de criação de valor econômico e cultural disponível

Cannes Lions se assume como guardião global da confiança criativa e, ao fazer isso,  redefine o que significa criar, julgar e premiar ideias no século XXI — e redefine também a  lente com a qual vamos observar e cobrir o festival. 

O Leão agora morde e a gente vai querer ver os dentes.  


SOBRE A AUTORA

Erlana Castro é palestrante internacional, autora, pesquisadora independente e professora convidada da Fundação Dom Cabral, fundadora ... saiba mais