O que Messi, Mbappé e Haaland fazem diferente? A resposta está no cérebro

Da criatividade tática ao foco sob pressão, psicólogo esportivo mostra por que a força mental é decisiva no futebol de alto rendimento

habilidades mentais que ajudam jogadores, a enfrentar a pressão no campo
Créditos: Tasnim News Agency/ Sandro Halank/ Jacek Stanislawek/ CC BY-SA 4.0/ Wikimedia Commons/ Mike Cho/ Unsplash

Eric Zillmer 5 minutos de leitura

Parte da beleza do futebol está em sua imprevisibilidade.

Já na Copa do Mundo de 2026, vimos Marrocos empatar com o Brasil, pentacampeão mundial, e a Austrália contrariar as expectativas ao derrotar a Turquia. Mas poucas surpresas superam o empate em 0 a 0 entre Cabo Verde, que iniciou o torneio na 67ª posição do ranking, e a Espanha, apontada por muitos especialistas como favorita ao título.

Mas o que determina se uma equipe vence, empata ou perde? É claro que a qualidade dos jogadores e da comissão técnica faz diferença.

Os avanços recentes na análise de desempenho esportivo, incluindo métricas de geolocalização dos atletas em tempo real, levaram à adoção de decisões em campo baseadas em dados.

As principais equipes de futebol dependem cada vez mais de grandes volumes de dados e algoritmos preditivos para conquistar vantagem competitiva. Mas a psicologia do esporte também desempenha um papel fundamental.

Como psicólogo esportivo e diretor do Global Sport Leadership Solutions Lab, da Universidade Drexel, estudo como jogadores e treinadores podem lidar com o caos em campo para melhorar estrategicamente o desempenho e vencer.

A seguir, apresento alguns princípios modernos da psicologia considerados essenciais para as 48 seleções que disputam a Copa do Mundo da FIFA de 2026.

CINCO PASSOS PARA O SUCESSO NO FUTEBOL

1. DISRUPÇÃO

Em qualquer esporte, é verdade que a equipe vencedora costuma se beneficiar ao desestabilizar o adversário. Táticas de disrupção incluem faltas estratégicas mais duras, contra-ataques em alta velocidade que pegam o rival desprevenido, jogadas ensaiadas enganosas que criam um caos organizado, marcação sob pressão para forçar erros e até provocar emocionalmente os jogadores da equipe adversária.

Romper a organização e o ritmo do oponente é tanto uma mentalidade quanto uma estratégia capaz de criar oportunidades de gol. Uma equipe que consegue interromper o fluxo de jogo do adversário pode compensar uma desvantagem técnica ou desmoralizar equipes mais frágeis.

2. CONDICIONAMENTO DA ATENÇÃO

Marcar gols no futebol internacional é uma tarefa difícil. Um grande atacante vale ouro. Além de dribles excepcionais e habilidade em confrontos individuais, esses jogadores possuem um elevado "condicionamento da atenção", que combina eficiência cognitiva e dedicação para ocupar as posições ideais para finalizar.

Esses atletas são celebrados pela frieza e pelo domínio da bola, mas é sua inteligência psicológica que realmente os torna especiais. Uma das primeiras habilidades a se deteriorar sob pressão é justamente a capacidade de manter o foco. O artilheiro por excelência não paralisa diante do momento decisivo.

Atacantes como Harry Kane, da Inglaterra, Kylian Mbappé, da França, e Erling Haaland, da Noruega, conseguem preservar o controle da atenção mesmo sob enorme pressão. Eles se concentram totalmente quando o momento exige e alternam entre diferentes tarefas com naturalidade.

3. DISTRAÇÃO CONTROLADA

O devaneio é aquele momento em que a mente se afasta espontaneamente do ambiente imediato. Nos esportes, costuma ser visto de forma negativa, já que a falta de atenção em um instante decisivo pode levar ao desastre.

Mas é extremamente difícil manter o foco absoluto durante mais de 90 minutos de uma partida. Além disso, novas evidências obtidas por meio de técnicas de neuroimagem mostram que, durante os momentos de devaneio, o cérebro não está em repouso. Ele apenas processa as informações de outra maneira.

Por isso, o devaneio controlado — que envolve uma exploração mental ativa — pode ser altamente benéfico nos esportes de alto rendimento, ainda que dure apenas alguns segundos.

Os melhores jogadores parecem saber exatamente quando concentrar a atenção e quando ampliar sua percepção. Em certos momentos, desviam o olhar da bola para absorver uma visão mais ampla da partida. Quando surge uma oportunidade decisiva de gol, voltam a focar completamente e estão 100% presentes.

Pesquisadores que estudaram para onde Lionel Messi direciona o olhar descobriram que ele frequentemente não está olhando para a bola. O senso comum no futebol sempre foi manter os olhos fixos nela, mas novas pesquisas sugerem que os vencedores também se permitem momentos de devaneio e desviam a atenção da ação imediata.

O cérebro de Messi aparentemente consegue realizar processos cognitivos que muitos adversários não conseguem, demonstrando capacidades mentais de nível excepcional.

4. RESILIÊNCIA (PARA OS ÁRBITROS)

O futebol está entre os esportes mais difíceis de arbitrar. Além de excelente preparo físico, os árbitros precisam administrar emocionalmente o jogo.

Essa tarefa ficou ainda mais complexa com a simulação frequente de faltas por jogadores profissionais, a interpretação do impedimento em diferenças de poucos centímetros e uma das decisões cognitivas mais difíceis do esporte: marcar ou não um pênalti.

Com tanto em jogo e milhões de pessoas observando, o árbitro da Copa do Mundo precisa reunir habilidades excepcionais de multitarefa, comunicação e gestão.

Os árbitros fazem parte da narrativa da partida, queiram ou não. Todos os julgam. Por isso, seu repertório psicológico precisa começar por uma forte dose de resiliência.

5. CRIATIVIDADE TÁTICA

A criatividade tática no futebol está relacionada à capacidade de encontrar soluções para situações individuais ou coletivas complexas durante a partida. Ela quase sempre depende do pensamento divergente e costuma resultar em jogadas surpreendentes e originais.

Pesquisas mostram que a criatividade está ao alcance de qualquer pessoa, inclusive dos jogadores de futebol, especialmente quando faz parte do planejamento dos treinamentos.

Como consequência, o estilo de jogo do futebol de elite mudou nas últimas décadas. O modelo estruturado, defensivo e baseado na posse de bola deu lugar a uma abordagem moderna, orientada por dados e baseada em pressionar o adversário desde seu campo de defesa.

Esse modelo exige que os jogadores desempenhem múltiplas funções durante a partida. Também requer um equilíbrio entre inspiração — ou abertura para novas ideias — e transpiração, isto é, disciplina.

Com a Copa do Mundo em andamento, psicólogos do esporte, assim como torcedores de todo o planeta, podem observar como os atletas colocam esses princípios em prática. E, com sorte, o torneio proporcionará momentos de criatividade capazes de ficar na memória por toda a vida.


SOBRE O AUTOR

Eric Zillmer é professor de neuropsicologia na Universidade Drexel. saiba mais