Consumimos mais jornalismo sem confiar ou perdemos a capacidade de medir confiança?
O relatório Reuters Oxford Digital News Report indica que o uso de sites jornalísticos vem caindo num ritmo parecido ao da TV

Acaba de ser divulgada mais uma versão do Reuters Oxford Digital News Report, pesquisa que mede, a partir de questionários online, os hábitos de consumo de notícias e a confiança no jornalismo em diferentes países.
O relatório traz dados interessantes sobre diversas questões envolvendo consumo midiático, mas gostaríamos de destacar alguns resultados diante dos quais precisamos refletir com mais cuidado.
Começaremos pelo que consideramos o dado mais preocupante: a queda na confiança no jornalismo, fenômeno que o relatório registra em vários países e que merece uma análise atenta.
E essa é apenas a primeira parte da nossa análise. Na segunda parte vamos debater a tendência sobre o consumo de notícias por vídeos online, indicada como resultado do estudo.
No relatório deste ano, a proporção de pessoas que dizem confiar nas notícias caiu para 37%, a menor marca desde que a pesquisa começou a medir esse indicador, em 2015. Nos Estados Unidos, apenas 25% confiam nas notícias – entre os que se declaram de direita, esse número cai para 15%.
Para os autores, essa erosão não decorre só do aumento da crítica ao jornalismo, algo que consideramos desejável em ambientes democráticos, pois significa maior cobrança da sociedade por qualidade. O que está acontecendo é um desgaste mais amplo da confiança nas instituições, alimentado por uma guerra cultural que inclui os ataques à imprensa.
ATAQUES À IMPRENSA
No Netlab UFRJ, acompanhamos há mais de cinco anos essa campanha permanente contra a imprensa, que no Brasil é coordenada nas redes por setores da extrema-direita com múltiplas estratégias de desinformação.
É significativo que essa correlação entre ataques políticos à imprensa e queda de confiança no jornalismo apareça pela primeira vez também em nível global, o que reforça nossa tese.
Nosso argumento, que vai de encontro aos achados do relatório Reuters/ Oxford, é que esses ataques não são apenas efeito colateral das limitações e erros da cobertura jornalística, mas parte de uma agenda política comum da direita global.

Figuras públicas transformaram o confronto com a imprensa em manobra para construir um ecossistema midiático paralelo – canais, porta-vozes e criadores de conteúdo que opinam sobre o cotidiano difundindo valores políticos, independentemente da cobertura factual.
O resultado é uma audiência moldada por essa desconfiança fabricada não pelos erros reais do jornalismo, mas pelos ataques à imprensa que atingem mais profundamente o público de direita, que naturalmente consome mais esse tipo de conteúdo por afinidade ideológica.
Outro dado que chama a atenção é que, pela primeira vez na série histórica da pesquisa, redes sociais e plataformas de vídeo (54%) superam globalmente tanto os sites e aplicativos próprios dos veículos (51%) quanto a televisão (52%) como principal forma de acesso a notícias.
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O relatório também indica que o uso de sites jornalísticos vem caindo num ritmo parecido ao da TV, informação que contrasta com os dados de mercado usados pela indústria, como os próprios autores do relatório admitem.
Vale registrar que o próprio estudo reconhece outras limitações metodológicas: a amostra não tem representatividade estatística, considerando um número de entrevistados praticamente igual entre países com populações significativamente diferentes; e os dados são autodeclarados, ou seja, não necessariamente correspondem ao consumo realmente praticado.
A esse novo modo de consumo identificado no relatório, somam-se números curiosos. Apenas 22% da população confia nas notícias que vê nas redes sociais e 62% se dizem muito preocupados com notícias falsas e desinformação online.
No relatório deste ano, a proporção de pessoas que dizem confiar nas notícias caiu para 37%.
O relatório indica que quanto mais alguém consome notícias pelas redes sociais, menos costuma acreditar nelas – enquanto quem usa mais TV, rádio e jornal para acessar notícias tende a confiar mais no que consome.
Ou seja, as pessoas parecem entender que as redes sociais são um ambiente manipulado, onde circula muita desinformação sem qualquer consequência.
O que é preciso entender é: as pessoas estão realmente consumindo mais conteúdo no qual não confiam? Ou a gente não está conseguindo medir a confiança com os métodos e parâmetros adequados?
Além disso, fica a questão: por que os anunciantes têm migrado para redes sociais, onde mais da metade do público diz confiar menos, teme ser enganado e desconfia do que lê e vê?
São perguntas sobre as quais o mercado precisa se debruçar e responder – antes que a resposta venha tarde demais.
