O que ainda vai separar humanos da IA, segundo o CEO do Google DeepMind

Demis Hassabis afirma que a inteligência artificial geral pode chegar até 2030 e mudar radicalmente a sociedade e o trabalho

Crédito: Google DeepMind/ Unsplash

Ella Chakarian 3 minutos de leitura

O CEO do Google DeepMind, Demis Hassabis, tem defendido publicamente a ideia de que a inteligência artificial geral (IAG) – um tipo teórico de IA capaz de executar tarefas com um nível de cognição equivalente ao humano – está a apenas alguns anos de se tornar realidade.

Em uma entrevista recente na Escola de Negócios da Universidade Stanford, Hassabis reafirmou essa previsão. "Acredito que estamos a apenas alguns anos disso, talvez em 2030, com uma margem de um ano para mais ou para menos – o que é impressionante, se você parar para pensar", afirmou.

"Será uma tecnologia transformadora em uma escala gigantesca", acrescentou. "Ela vai, na prática, inaugurar uma nova era da humanidade."

Daqui a 10 anos, segundo Hassabis, perceberemos que "estávamos no 'pé da montanha' da singularidade", em referência ao momento hipotético em que a inteligência artificial supera a inteligência humana e passa a se aperfeiçoar continuamente, sem depender do controle das pessoas.

Não existe consenso sobre quando a IAG será alcançada, nem mesmo entre os principais líderes da indústria de inteligência artificial.

No ano passado, Sam Altman escreveu em seu blog que "a humanidade está próxima de construir uma superinteligência digital", referindo-se ao estágio hipotético posterior à IAG, quando a inteligência das máquinas supera a das pessoas mais inteligentes do planeta. "Estamos construindo (toda a indústria, não apenas a OpenAI) um cérebro para o mundo", escreveu.

Em um ensaio publicado em 2024, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, previu que uma IA altamente poderosa poderia surgir já no fim de 2026.

"Em 2027, sistemas de IA poderão ser capazes de realizar tarefas que hoje levam semanas para uma pessoa concluir", escreveram o cofundador da Anthropic, Jack Clark, e a diretora do Anthropic Institute, Marina Favaro, em um artigo publicado no mês passado.

Yann LeCun, ex-vice-presidente da Meta e cientista-chefe de IA da empresa – além de um dos pioneiros das redes neurais convolucionais, tecnologia de processamento visual usada em reconhecimento facial e veículos autônomos –, discorda completamente dessa visão.

Para LeCun, "o conceito de inteligência geral é um completo absurdo". Ele também acredita que os atuais grandes modelos de linguagem baseados na arquitetura Transformer dificilmente alcançarão um nível de inteligência geral ou equivalente ao humano capaz de produzir trabalho de alto valor.

O cientista-chefe de IAG do Google DeepMind, Shane Legg, por sua vez, estima uma probabilidade de 50% de que uma "IAG mínima" – capaz de executar parte das tarefas cognitivas realizadas por humanos – seja alcançada em 2028.

"Ainda acho que há muito trabalho pela frente e que estamos apenas no começo", disse Hassabis. "A sociedade precisa ouvir isso, porque não temos muito tempo para nos preparar para o que isso significa. O impacto será extremamente profundo."

O PROVÁVEL IMPACTO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GERAL

Da automação de tarefas rotineiras à programação, a inteligência artificial já transformou a maneira como as pessoas trabalham e alimentou preocupações sobre a substituição de empregos.

Como a IAG teria capacidade para resolver problemas, tomar decisões por conta própria, aprender continuamente e se adaptar a mudanças, ela poderia assumir um papel cada vez mais relevante em funções de alto nível dentro das empresas.

Em entrevista concedida no mês passado a Rowan Cheung, fundador da newsletter The Rundown AI, Hassabis afirmou que algumas características humanas continuarão diferenciando as pessoas das máquinas.

Nos próximos cinco anos, segundo ele, profissionais com "bom gosto, sensibilidade para design, pensamento original" e capacidade de "integrar conhecimentos de diferentes áreas" estarão em uma posição privilegiada.

"Acho que coisas extraordinárias serão criadas", afirmou Hassabis. "Tenho muita confiança na engenhosidade humana. Somos incrivelmente adaptáveis."

"Não podemos esquecer que nós mesmos somos inteligências gerais. Basta olhar para tudo o que construímos ao nosso redor — é extraordinário — usando cérebros de caçadores-coletores. Por que pararíamos agora?"


SOBRE A AUTORA

Ella Chakarian é jornalista e cobre os temas de tecnologia e cultura. Seus trabalhos foram publicados em veículos como Rolling Stone, ... saiba mais