O brasileiro veste a camisa da seleção, mas não a da própria ficção
O Brasil exporta talentos, histórias e criatividade, mas ainda encontra dificuldade para convencer parte do próprio público sobre o valor de sua ficção

De quatro em quatro anos, a Copa do Mundo toma conta do Brasil. A camisa amarela volta às ruas, e o país inteiro entra em clima de mobilização coletiva.
Esse entusiasmo em torno do futebol evidencia como o esporte é capaz de criar um forte sentimento de pertencimento nacional. No entanto, essa mesma identificação não se estende com a mesma intensidade a outros produtos culturais brasileiros.
No campo da ficção, o entusiasmo coletivo e o sentimento de comunidade parecem diminuir. Levantamento da Go Magenta, especializada em análise de comportamento de consumo e entretenimento, revela que, entre gêneros como comédia, true crime, romance e drama, apenas 12% dos brasileiros dizem preferir produções nacionais.
PREFERÊNCIAS CULTURAIS NO STREAMING
Além dos esportes, reality shows como BBB lideram, com 55% de preferência por conteúdos nacionais. Os documentários também apresentam forte adesão, com cerca de 45%. São gêneros que funcionam como espelhos da cultura, dos costumes e do cotidiano brasileiro, reforçando a sensação de reconhecimento imediato.
A pesquisa mostra que a preferência por produções locais se concentra em formatos que refletem diretamente a realidade do público. Ficção científica, horror e suspense dividem entre si apenas 12% de preferência por produções locais.
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Nesse cenário, a forma como o público consome conteúdo também ajuda a explicar esse comportamento. Enquanto o streaming tradicional ainda segue uma lógica mais individual e sob demanda, novos formatos de transmissão têm resgatado uma experiência coletiva que aproxima o público da sensação de pertencimento.
PRODUÇÕES BRASILEIRAS DÃO AUDIÊNCIA
A preferência por conteúdos nacionais que dialogam com a realidade e com experiências coletivas aparece em diferentes formatos recentes. A CazéTV, por exemplo, se tornou um fenômeno ao transformar transmissões esportivas e eventos em experiências digitais ao vivo, com interação constante e clima de “assistir junto”.
O modelo se aproxima tanto da televisão aberta em grandes eventos, como a Copa do Mundo, quanto de reality shows, que também se estruturam em torno do acompanhamento em tempo real e do engajamento coletivo do público.
Esse padrão aparece nos dados de consumo. No caso dos esportes, 64% dos brasileiros preferem conteúdos nacionais. A proximidade com eventos como a Copa do Mundo ajuda a explicar esse resultado, já que conteúdos esportivos tendem a amplificar o senso de brasilidade e reforçar a identidade coletiva.

O gênero lifestyle também indica abertura para produções brasileiras. São formatos que têm em comum o fato de espelharem o cotidiano, os costumes e a identidade do próprio público.
Fenômenos recentes, como "Emergência Radioativa" (série da Netflix sobre o acidente com Césio 137 em Goiânia, em 1987) viralizaram justamente porque muitos brasileiros desconheciam o caso. Este exemplo demonstra que existe, sim, interesse por temas brasileiros, especialmente quando eles abordam acontecimentos pouco conhecidos da nossa história.
Ainda assim, a produção dependeu de uma plataforma global para ganhar credibilidade e alcançar grande público. Mesmo nesse cenário, casos como esse permanecem exceções, e não a regra.
BUSCA DE VALIDAÇÃO EXTERNA
Já nos gêneros associados à fantasia, ao suspense e à construção de universos ficcionais, ainda buscamos validação externa. Muitas vezes, uma produção brasileira só desperta interesse após conquistar reconhecimento internacional. É o famoso “se fez sucesso lá fora, deve ser bom”.
Esse comportamento não é exclusivo do Brasil. Países como Argentina, Chile, Colômbia e México apresentam padrões semelhantes, com esportes e reality shows liderando a preferência por conteúdos locais, enquanto dramas, aventuras e histórias de horror continuam mais associados a produções estrangeiras.
No caso dos esportes, 64% dos brasileiros preferem conteúdos nacionais.
O resultado é um paradoxo cultural. O Brasil exporta talentos, histórias e criatividade, mas ainda encontra dificuldade para convencer parte do próprio público sobre o valor de sua ficção. A onda do “Brasilcore” conquistou a moda, a música e as redes sociais, mas ainda não ganhou completamente as telas.
No fim das contas, o brasileiro continua demonstrando orgulho de sua identidade, mas de forma seletiva. Vibra com a seleção, acompanha reality shows nacionais e reconhece símbolos culturais do país. Mas, quando se trata de ficção científica, thrillers ou comédias, a preferência ainda é pelo produto de fora.
O orgulho existe, mas nem sempre se traduz em consumo cultural. Na ficção, ainda seguimos estrangeiros.