Não somos um problema a ser resolvido
Por que estamos tentando consertar o que nunca esteve quebrado?

Vivemos uma era de autocorreção, com estímulos, produtos, serviços e tecnologias que sugerem que precisamos melhorar. Em tudo! Como se nada fosse suficiente ou aprovável. Por quem?
Ser amador em algo não está mais tão divertido como antes, já que tudo virou performance. Até as atividades de lazer. Corremos para relaxar. Meditamos para performar melhor. Fazemos exercícios para otimizar resultados. Até o descanso passou a ter metas.
Temos de ser mais produtivos. Mais saudáveis. Mais inteligentes. Mais disciplinados. Mais espirituais.
Acredito que uma das maiores ilusões do nosso tempo seja acreditar que estamos nos realizando quando, na verdade, estamos nos exaurindo na tentativa de nos aperfeiçoar continuamente. Preenchidos de coisas externas, mas vazios por dentro. Muitas vezes, desconectados de nós mesmos.
Escondemos emoções, negamos vulnerabilidades, combatemos características que não se encaixam na “imagem ideal”. Para quem?
Usamos máscaras até com nós mesmos. Olhamos para o espelho procurando o que precisa ser corrigido. Mas quem foi que nos convenceu de que havia algo errado com o reflexo?
Na tentativa de nos tornarmos alguém melhor, começamos a rejeitar partes de quem somos. Calamos dúvidas para parecer confiantes. Escondemos o cansaço para parecer fortes. Dizemos "sim" quando gostaríamos de dizer "não".
E, aos poucos, nos fragmentamos.

Há um conceito que vem ganhando relevância em diferentes campos do conhecimento: wholeness. Embora não exista uma tradução perfeita, ela remete à ideia de inteireza. Não a de alguém que chegou a um estado ideal, mas a de alguém que consegue acolher e integrar todas as suas partes.
E essa fragmentação não fica restrita à vida pessoal. Líderes fragmentados criam culturas fragmentadas.
Quando alguém está em “guerra” consigo controla mais, escuta menos, projeta inseguranças, precisa provar valor o tempo todo.
Antes, as limitações vinham de fora. Hoje, a cobrança vem de dentro.
Na tentativa de nos tornarmos alguém melhor, começamos a rejeitar partes de quem somos.
Como aponta o filósofo Byung-Chul Han, a violência contemporânea já não é exercida principalmente por um chefe, uma instituição ou uma autoridade externa. Ela foi internalizada. Tornamo-nos simultaneamente patrões e empregados de nós mesmos.
Nos últimos anos, aprendemos a falar sobre wellness nas organizações. E isso importa. O próximo passo pode ser falar sobre wholeness. Não apenas sobre como ajudar as pessoas a se sentirem melhor, mas sobre como criar ambientes onde elas não precisem abandonar partes de si para serem aceitas, promovidas ou reconhecidas.
Líderes mais inteiros tendem a criar ambientes de maior confiança, segurança psicológica e autenticidade.
Inteireza é o ponto de partida para uma evolução mais consciente. E ela não nasce da aceleração. Ela costuma emergir nos momentos em que paramos de correr atrás de quem acreditamos que deveríamos ser.
Leia mais: Sociedade do cansaço: estamos cansados demais para perceber?
A evolução não acontece apenas quando adquirimos novas competências, ampliamos repertórios ou alcançamos novos resultados. Ela também acontece quando deixamos de rejeitar partes de quem somos.
Inteireza não é perfeição. É a capacidade de seguir evoluindo sem abandonar partes de si no processo. Porque não somos um problema para resolver. Somos uma inteireza para recordar.