A desconfiança se espalha, do jornalismo às redes sociais e à vida real

Em ano de eleições presidenciais, o fenômeno preocupa ao nos deixar cada vez mais fechados às diferenças

A desconfiança se espalha, do jornalismo às redes sociais e à vida real
Crédito: Fast Company Brasil

Sofia Bolina 6 minutos de leitura

Quem se deparou com um dos alertas emitidos pelo sistema da Defesa Civil anunciando "misantropia", na madrugada do último sábado (20 de junho), se deparou também com um sentimento cada vez mais frequente: a dúvida. Além do termo ser amplamente desconhecido, mais importante ainda era saber se aquilo era uma emergência de verdade… ou de mentira. 

O disparo do aviso, que aludia à ideia de aversão ao convívio social ou à humanidade, era falso e está sob investigação. Contudo, o episódio representa bem a incerteza generalizada, sintoma da crise de confiança que se espalha pelo Brasil e pelo mundo, e que é tema de dois relatórios publicados recentemente. 

O Digital News Report do Instituto Reuters, aponta para o declínio da crença no jornalismo, que caiu três pontos percentuais no último ano, chegando a apenas 37% em âmbito global. No Brasil, a queda foi de seis pontos percentuais.

Já o Edelman Trust Barometer de 2026, indica que a falta de confiança cresceu em relação a instituições de modo geral, dos grandes veículos de imprensa aos governantes e líderes empresariais, enquanto nossos vizinhos, amigos, colegas de trabalho e chefes são vistos como mais confiáveis. 

Considerando ambos os levantamentos, e o contexto de que este é um ano de eleições no Brasil, o cenário não só aponta para divisões cada vez maiores como põe em questão se, do jeito que estamos, é possível superá-las.

DA POLARIZAÇÃO À INSULARIDADE

Hoje, “a capacidade de gerar dúvida é maior que a capacidade de gerar confiança,” diz Marcio Borges, pesquisador do Laboratório de Estudos da Internet e Redes Sociais (Netlab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e colunista da Fast Company Brasil.

Isso pode ser entendido como resultado de um processo acelerado nos últimos anos, no qual o aumento do custo de vida, da discriminação, da desinformação e de tensões geopolíticas geraram a polarização, descrita pelo Edelman Trust Barometer como o enraizamento de nossas diferenças. 

Essa polarização, de acordo com o relatório, leva a um sentimento de indignação quanto ao que percebemos como injustiças, que por sua vez faz com que fiquemos mais relutantes em valorizar as perspectivas e acreditar em quem é diferente.

O resultado: a desconfiança no Brasil é tamanha que sete em cada 10 pessoas apresentam mentalidade insular, estatística que se repete em escala global.

Ficamos com “o pé atrás” em relação a quem tem valores, experiências, e visões de mundo que não são iguais às nossas e nos voltamos a quem está na nossa "bolha", tanto no ambiente digital quanto no físico. De certa forma, é uma situação de misantropia, estendida a quem não é nosso semelhante.

A desinformação, ressalta Borges, cumpriu e cumpre um papel importante nesse cenário. “Existe uma campanha permanente de desinformação contra a imprensa, contra o jornalista profissional. É uma campanha orquestrada, coordenada, e tem como objetivo desestabilizar a confiança naquilo que você confiava. E, automaticamente, transferir essa confiança para um novo lugar.” 

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É dessa maneira que a diluição do tecido social ocorre. "Se o indivíduo duvida de tudo, ele não confia em nada e, portanto, as opiniões passam a valer mais que o resto", diz Borges.

Basta pensar na última década, marcada pelo crescimento do uso de redes sociais e pela disseminação em massa de fake news, golpes digitais em promoções de passagens aéreas baratas demais para ser verdade, deepfakes geradas pelo Grok (o chatbot de IA da xAI, de Elon Musk) e vídeos falsos de cangurus embarcando em voos comerciais. O que, nesse ambiente, pode ser real?

O PARADOXO DA (DES)CONFIANÇA

Os dois relatórios apontam grandes incoerências. Há ansiedade, cinismo, maior incerteza, mas também maior abertura a novos formatos.

As redes sociais e plataformas de vídeo são hoje mais usadas para acessar notícias, em comparação a aplicativos e sites de veículos de mídia; o uso de chatbots de IA para se informar também cresceu. Ao mesmo tempo, as pessoas têm se preocupado mais quanto à desinformação e ao impacto dessas plataformas.

pesquisas apontam aumento da falta de confiança do público no jornalismo
Créditos Irina/ solidcolours/ iStock

“A conveniência [das redes sociais] parece superar a preocupação", aponta o relatório do Instituto Reuters. Enquanto isso, no Brasil, 65% temem que agentes estrangeiros espalhem desinformação na mídia para aumentar a divisão interna do país. 

Borges aponta um segundo paradoxo: os veículos de imprensa tradicionais, que têm maior audiência, são vistos como menos confiáveis. “Temos que achar a explicação do que faz as pessoas consumirem mais aquilo que elas apontam que menos confiam”, diz o pesquisador.

FALTAM TRANSPARÊNCIA E RESPONSABILIZAÇÃO

Existem perspectivas diferentes quanto ao que nos aguarda e sobre o que podemos fazer neste momento de crise de confiança. 

Como o Edelman Trust Barometer relata o deslocamento da confiança institucional para a esfera local, os agentes que aparecem como melhor posicionados para diminuir a insularidade atual são os empregadores, chefes, CEOs e empresas, em vez de autoridades nacionais e da mídia.

Esses líderes, em contato mais próximo com seus funcionários, devem entender aquilo que há em comum entre pessoas diferentes e traduzir “suas necessidades, metas e realidades umas para as outras.”

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O Instituto Reuters menciona a regulação de plataformas no Brasil, citando o já vigente ECA Digital, que tem como objetivo proteger menores de idade no ecossistema online.

Além disso, o documento se refere a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) no último ano, reiterando a necessidade de remoção de conteúdo referente a atos antidemocráticos, terroristas e racistas, por exemplo. 

Para Borges, a solução deve ser sistêmica, já que a desconfiança existe no Brasil e no mundo de forma multissetorial, e não individual. É preciso melhorar a observação para que se chegue a um melhor diagnóstico das questões que enfrentamos, especialmente no que diz respeito às redes sociais.

Hoje, a capacidade de gerar dúvida é maior que a capacidade de gerar confiança.

“Embora a gente possa estabelecer regras e responsabilidades para essas plataformas, a minha pergunta é: quem tem a capacidade de observar? Se não há transparência definida e específica, não há a capacidade de fiscalizar se aquelas regras, aquelas responsabilidades, estão sendo assumidas.”

Segundo ele, é preciso revisitar o modelo de negócio dessas plataformas e instituir, por exemplo, uma biblioteca de anúncios pesquisável nas redes, que dê acesso a dados sobre esse conteúdo e seus anunciantes.

O pesquisador do Netlab também faz um alerta, a partir de dados do relatório Edelman: se jornalistas e autoridades governamentais apresentam as menores porcentagens de confiança para a população do país (52% e 42%, respectivamente), professores (76%) e cientistas (75%) aparecem como os dois grupos mais confiáveis.

Mas, considerando que a campanha permanente de descredibilização faz com que, de tempos em tempos, ocorra a migração do foco para novos alvos, esse resultado pode indicar que a academia e a ciência serão os próximos. Esse fenômeno tem sido observado em outras partes do mundo, como nos Estados Unidos.

“Será que isso também não vai minar a confiança futura?”, questiona Borges.


SOBRE A AUTORA

Sofia Bolina é jornalista, formada em Estudos Culturais pela Universidade Humboldt de Berlim e mestre em escrita de não-ficção pela Un... saiba mais