Por que insistimos em mostrar o calor extremo como um dia de praia?
Imagens de praias lotadas ou de pessoas nadando em piscinas fazem com que as condições climáticas extremas pareçam menos perigosas

Em toda a Europa, uma onda de calor sem precedentes provocou “alertas vermelhos meteorológicos”, o fechamento de milhares de escolas e várias mortes.
Mas, considerando a cobertura jornalística sobre o clima extremo, alguns artigos têm sido ilustrados com fotografias de praias lotadas e pessoas se divertindo em fontes ou relaxando em parques.
Essas imagens não conseguem transmitir o perigo causado pelas ondas de calor, afirmam especialistas em clima, e podem até fazer com que as pessoas não levem as temperaturas extremas a sério.
Vários países europeus estão sob alerta de onda de calor, da Inglaterra à Alemanha e a Portugal. As temperaturas podem chegar a 40º em algumas regiões da França, Espanha e do Reino Unido.
Esses picos não são apenas pontuais, alertam os especialistas; as temperaturas podem continuar altas por vários dias seguidos.
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Espera-se também que a umidade seja intensa, o que “poderia resultar em alguns dos índices de calor mais perigosamente altos já registrados por vários países”, afirma Bob Henson, meteorologista que escreve para o Yale Climate Connections.
A umidade do ar faz com que não haja muito alívio após o anoitecer. O Serviço Meteorológico do Reino Unido (Met Office) emitiu um alerta sobre noites “tropicais”, nas quais a temperatura nunca desce abaixo de 20º. Em toda a Europa, a maioria das casas ainda não conta com ar-condicionado, o que faz do calor noturno um risco à saúde.
Essa onda de calor implacável ameaça causar “efeitos adversos à saúde de toda a população”, de acordo com o alerta vermelho declarado pelas autoridades britânicas até ontem, quinta-feira, 25 de junho — incluindo “doenças graves ou risco de vida”.
RISCOS DO CALOR EXTREMO
Já ocorreram várias mortes durante esta onda de calor de junho. Treze pessoas se afogaram em toda a França no fim de semana passado, o que levou o governo a alertar a população para que não nade em áreas sem supervisão na tentativa de se refrescar.
Duas crianças foram encontradas mortas dentro do carro de sua família no sudeste da França, em um incidente que, segundo o promotor local, “provavelmente está relacionado à onda de calor”, conforme informou a BBC. Pelo menos três pessoas com mais de 80 anos também morreram no sudoeste da França devido às temperaturas altíssimas.
Consequências como essas não são incomuns. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou recentemente que mais de 200 mil pessoas em toda a Europa morreram devido ao calor somente nos últimos quatro anos.

A maioria dessas mortes poderia ter sido evitada, afirmou Hans Henri P. Kluge, diretor regional da OMS para o continente, em um comunicado. Elas são “apenas a ponta do iceberg”, acrescentou ele, “com milhões de outras pessoas sendo afetadas física e mentalmente”.
O calor extremo também está associado a um aumento nas hospitalizações por doenças cardiovasculares, renais e respiratórias; exaustão e insolação; e o que alguns especialistas chamam de doenças relacionadas ao calor, como desidratação, pulso acelerado, tontura ou desmaio.
CALOR DO CÃO, SEM DIVERSÃO
São esses efeitos perigosos de temperaturas extremas que fazem com que as fotos de um dia na praia pareçam tão inadequadas aos olhos dos peritos em clima.
Na internet, vários especialistas criticaram certos veículos de comunicação por publicarem essas imagens “divertidas” e sem grande relevância ao lado de matérias sobre a onda de calor, que bateu recordes.
No Bluesky, acima de uma matéria do jornal "The Independent" que mostrava uma praia lotada, o cientista climático Ian Hall escreveu: “alerta vermelho raro. Risco de vida. Fique longe do sol. Evite exposição desnecessária. Editor de imagens: ‘Contraponto: publicamos as fotos de gente se divertindo na praia?’”
Rare red warning. Risk to life. Stay out of the sun. Avoid unnecessary exposure.Picture editor: "Counterpoint: Run the fun-on-the-beach shots?"We won't improve heat coverage until we stop illustrating public health emergencies with beach photos.www.independent.co.uk/weather/heat...
— Ian Hall (@ianhall.bsky.social) 22 de junho de 2026 às 07:47
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“Não vamos melhorar a cobertura jornalística sobre as ondas de calor até que deixemos de ilustrar emergências de saúde pública com fotos praianas”, acrescentou ele.
Já a agência de notícias France Presse, publicou uma imagem de uma mulher molhando o cabelo em uma fonte, acompanhada de uma matéria sobre eventos esportivos cancelados na Espanha e na Alemanha e a notícia de que a França restringiu o consumo público de álcool em áreas sob alerta vermelho.
France bans alcohol in red-alert areas, Spain and Germany cancel sports events and Britain warns of "tropical nights" as Europe swelters through a heatwave threatening to break June temperature records. u.afp.com/Sz2A
— AFP News Agency (@en.afp.com) 21 de junho de 2026 às 14:30
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Essa não é, porém, a imagem adequada para ilustrar uma onda de calor, escreveu Gernot Wagner, economista climático da Columbia Business School, no Bluesky. O ideal seria, por exemplo, a de “uma jovem em uma maca, lutando pela vida após uma insolação.”
A Fast Company entrou em contato com os dois veículos para que comentassem sobre as postagens.
A IMPORTÂNCIA DA COBERTURA DA MÍDIA
As fotos que acompanham as notícias sobre o calor extremo podem parecer sem importância, mas são relevantes. Um estudo do Programa de Comunicação sobre Mudanças Climáticas da Universidade de Yale, publicado em fevereiro, constatou que imagens positivas de ondas de calor reduzem a preocupação das pessoas com as temperaturas altas.
Quando as mensagens sobre o calor extremo eram acompanhadas de imagens “negativas ou neutras”, como alguém apresentando sinais de exaustão por calor ou sentado à sombra, as pessoas “ficavam muito mais preocupadas e mais convencidas de que as mudanças climáticas estão aumentando a probabilidade de ocorrência desses fenômenos” , escreveram os autores.
Mas, quando essas mensagens eram acompanhadas de imagens positivas, como pessoas na praia ou na piscina, esses efeitos não se verificavam, segundo o estudo.
efeitos perigosos de temperaturas extremas fazem com que as fotos de um dia na praia pareçam inadequadas.
Transmitir os graves impactos dos fenômenos climáticos extremos faz parte da responsabilidade dessas matérias jornalísticas, afirma Wagner, da Columbia Business School.
“O calor mata – pessoas, produtividade, o que você quiser. Expressar isso por meio de palavras – e, sim, também com imagens, que, sem querer ofender, é como a maioria das pessoas consome notícias – é uma das funções mais básicas do jornalismo”, aponta. “A maioria não vê as ondas de calor como um dia na praia, elas as vivenciam como um calor sufocante."
As imagens também contrastam diretamente com as recomendações dos especialistas. Embora as reportagens mostrassem homens sem camisa nas praias ou à beira-mar, o Met Office alerta para que as pessoas “evitem a exposição ao sol” ou, caso estejam ao ar livre, fiquem na sombra.
É difícil demonstrar os impactos de temperaturas extremas. Ao contrário de enchentes ou furacões, as ondas de calor nem sempre causam danos visíveis. No entanto, o calor tem outros impactos.
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Além dos efeitos sobre a saúde, Wagner reflete sobre as consequências econômicas. Ele sabe que é um desafio demonstrar que “um dia a mais com temperatura acima de 32 °C reduz a folha de pagamento anual em 0,04%, o que equivale a 2,1% do salário médio semanal”.
Mas acrescenta: “eu sei que uma foto de jovens se divertindo na praia não é a melhor forma de comunicar isso.”