Da cantada à DR: a IA entrou na vida amorosa

Usuários de apps de namoro recorrem à IA para criar perfis, escrever mensagens e buscar parceiros, mas questionam se a tecnologia substitui a "química"

inteligência artificial ajuda usuários de aplicativos de namoro
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Kaitlyn Huamani 4 minutos de leitura

Marie Lansley começou recentemente um novo emprego em uma nova cidade enquanto buscava um novo relacionamento. Na tentativa de encontrar um parceiro, ela diz que está “tentando de tudo” — inclusive recorrendo à IA. Hoje, chatbots de IA estão se consolidando como verdadeiros coaches de namoro e especialistas em relacionamentos.

Lansley consulta chatbots para obter ajuda na hora de iniciar conversas, algo que considera difícil nos aplicativos de namoro, embora não tenha esse problema nas interações presenciais. Apesar do entusiasmo com as possibilidades, ela reconhece a contradição entre a arte do romance e a precisão da tecnologia.

"Estou aberta à ideia de a IA encontrar o amor da minha vida, mas ainda não estou totalmente convencida de que ela consiga", afirma. "A IA é ótima para tornar os encontros mais eficientes. Mas a 'química' – essa sempre vai continuar sendo analógica."

Os usuários vêm adotando a tecnologia de diferentes maneiras para encontrar o amor. Alguns recorrem a serviços de matchmaking (conexão) baseados em IA. Outros usam ferramentas de IA para criar ou aprimorar seus perfis em aplicativos de namoro. Mas o uso mais comum é pedir que escrevam mensagens para possíveis pretendentes ou interpretem as mensagens recebidas.

Os aplicativos de namoro e as empresas de IA estão abraçando essa tendência. ChatGPT e Gemini publicaram conteúdos no TikTok mostrando seus chatbots oferecendo conselhos personalizados sobre relacionamentos, com respostas adaptadas à personalidade de cada usuário.

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"Claude é o novo Cyrano", diz Carey Gaynes, coach de relacionamentos, em referência à peça francesa do século 19 "Cyrano de Bergerac", cujo protagonista escreve as declarações românticas de outro homem. "Você está usando uma voz que não é a sua."

Gaynes afirma que ouviu relatos de pessoas de todas as idades recorrendo à tecnologia, tanto entre seus clientes quanto entre os seguidores de seu canal no YouTube, Coffee with Carey. Ela reconhece que a IA pode ser útil nos relacionamentos, mas, como muitas outras pessoas, se preocupa com o excesso de dependência.

IA ESCREVE MENSAGENS, ACONSELHA E FAZ CONEXÕES

Lansley conta que ficou surpresa com a forma como os chatbots parecem demonstrar inteligência emocional. Na conversa inicial com o assistente de IA do aplicativo de namoro Known, ela diz que as perguntas feitas pelo bot foram "um ou dois níveis mais profundas" do que as tradicionais perguntas de apps de relacionamento e pareciam buscar empatia.

Mas isso não significa necessariamente melhores resultados: seu primeiro match não foi exatamente compatível.

Assim como os chatbots ajudam a iniciar conversas, também podem ajudar a encerrá-las. Dani Cohen, empresária de 27 anos, afirma que preferiria receber uma mensagem de despedida escrita por IA de alguém com quem saiu algumas vezes a simplesmente ser vítima de ghosting (quando a outra pessoa desaparece sem dar qualquer explicação).

Celular com balão de coração saindo dele em fundo cinza
Crédito: Freepik

Várias pessoas ouvidas pela reportagem, incluindo usuários que recorreram à IA para conseguir ajuda nos relacionamentos, demonstraram reservas quanto ao uso da tecnologia em aspectos tão pessoais da vida.

Muitos disseram enxergar um limite claro entre o que consideram aceitável e o que seria inadequado ao usar IA para fins românticos. Outros sequer cogitam recorrer a um chatbot para lidar com sua vida amorosa.

Estudante de 22 anos, Clara Sullivan diz que não responderia a um possível parceiro se soubesse que as mensagens haviam sido escritas por IA. "Acho assustador o quanto as pessoas ficaram dependentes. Isso praticamente eliminou a capacidade de pensar de forma criativa e por conta própria", afirma.

Assim como os chatbots ajudam a iniciar conversas, também podem ajudar a finalizá-las.

Muita gente compartilha dessa percepção. Uma pesquisa realizada em 2025 pelo Pew Research Center revelou que 53% dos adultos nos Estados Unidos acreditam que a IA vai prejudicar a capacidade das pessoas de pensar criativamente.

Metade dos entrevistados também afirmou acreditar que a tecnologia vai dificultar a formação de relacionamentos significativos. Ainda assim, a união entre inteligência artificial e a lucrativa indústria dos aplicativos de namoro parecia inevitável. Muitas dessas plataformas vêm incorporando recursos de IA há anos.

O Tinder conta com um recurso chamado Chemistry, que usa IA para sugerir perfis alinhados aos interesses do usuário. Já o Hinge oferece sugestões de abertura de conversa e ferramentas baseadas em IA para aprimorar perfis e tornar as interações mais naturais.

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A fundadora do Bumble, Wolfe Herd, afirmou recentemente que o aplicativo vai abandonar, em breve, o tradicional sistema de deslizar perfis e passar a apostar em um modelo de conexão orientado por inteligência artificial.

Após enfrentar críticas pela decisão, Herd, declarou que o que a empresa está construindo "parte de uma crença simples: a tecnologia deve fazer com que o amor e as conexões pareçam mais humanas, e não menos".


SOBRE A AUTORA

Kaitlyn Huamani é repórter de tecnologia da Associated Press. saiba mais