Micronovelas estão chegando em Hollywood
Formato criado na China ganha força nos EUA com baixo custo, produção rápida e milhões de espectadores no celular

Enquanto boa parte de Hollywood estava mergulhada nas guerras do streaming, Issa Rae observava um fenômeno do outro lado do mundo: as micronovelas.
Acostumada a criar séries de sucesso para a internet, a atriz e produtora indicada ao Emmy se interessou pelo mercado chinês de novelas curtas feitas para celulares. Ela enxergou no formato uma oportunidade para formar audiência e desenvolver novas propriedades intelectuais.
Em maio, sua produtora Hoorae Media lançou "Screen Time", um suspense que se tornou uma das primeiras micronovelas com padrão de qualidade de estúdio produzidos por uma empresa consolidada de Hollywood. A série, distribuída com apoio do TikTok, alcançou quase 75 milhões de visualizações na primeira semana.
Para Rae, o formato oferece vantagens que a televisão e o cinema tradicionais dificilmente conseguem igualar.
"Como o custo é menor do que o da TV e do cinema, existe espaço para correr mais riscos", afirma. "Além disso, o tempo de produção é muito mais curto, o que nos permite criar histórias mais atuais e relevantes."
Além da rapidez e do custo reduzido, Rae acredita que as micronovelas proporcionam uma experiência mais interativa entre criadores e espectadores.
"A experiência coletiva também é incrível", diz Rae, cuja websérie "As Desventuras de uma Garota Negra Desajeitada" ajudou a impulsionar sua carreira. "Você consegue ver o que os outros espectadores estão pensando e interagir com os comentários deles em tempo real."
MICRONOVELAS DESPERTAM O INTERESSE DOS ESTÚDIOS
À primeira vista, a fórmula parece simples: miniepisódios feitos para smartphones, ideais para maratonar, recheados de histórias de romance, traição e redenção, com títulos como "A Vida Dupla do Meu Marido Bilionário". Os primeiros episódios costumam ser gratuitos, enquanto os seguintes são desbloqueados mediante pagamento.
O modelo, que surgiu na China durante a pandemia, explodiu em popularidade. Segundo a consultoria de mídia e tecnologia Omdia, a receita global das micronovelas deverá atingir US$ 14 bilhões até o fim de 2026.
O Peacock lançou recentemente uma seção dedicada ao formato. A Fox Entertainment investiu na produtora Holywater e se comprometeu a produzir centenas de títulos em formato vertical, enquanto a TelevisaUnivision desenvolve séries dramáticas de curta duração para o ViX.

Kevin Hart expandiu a atuação de sua produtora HartBeat para comédias em formato vertical. Kim Kardashian apoia conteúdos roteirizados voltados para celulares por meio de seu investimento na plataforma ReelShort.
Já Taye Diggs protagonizou séries verticais voltadas ao crescente público que acompanha histórias seriadas pelo smartphone, enquanto o cineasta Deon Taylor desenvolve "I Am Hoop", uma série vertical sobre esportes.
Durante a edição deste ano do mercado internacional de televisão MIP Londres, executivos revelaram que algumas das maiores plataformas de micronovelas destinam até 90% de seus orçamentos ao marketing, à medida que a disputa por audiência se intensifica.
O CELULAR APROXIMA CRIADORES E PÚBLICO
A Hoorae Media passou mais de dois anos estudando o formato antes de lançar "Screen Time". A empresa concluiu que as micronovelas eram muito mais do que uma moda passageira ao analisar a forma como o público consome entretenimento pelo celular.
"O elo entre tudo isso é o celular e o tempo que as pessoas já passam nele", afirma Dzifa Yador, diretora de conteúdo digital da Hoorae Media. "Estamos encontrando o público exatamente onde ele está."
Na avaliação de Yador, o formato oferece aos criadores algo cada vez mais raro em Hollywood: em vez de esperar anos por uma decisão de um estúdio, eles podem testar ideias rapidamente, construir uma audiência e manter a propriedade de suas criações.

De fato, muito antes de Hollywood voltar sua atenção para esse mercado, criadores independentes já demonstravam que havia público disposto a passar horas acompanhando histórias seriadas online.
Um dos casos de maior sucesso é o de Kountry Wayne. O humorista deixou os esquetes de comédia para criar um universo de dramas interligados sobre relacionamentos ao perceber que esse tipo de conteúdo tinha uma vida útil muito mais longa. Ele afirma publicar atualmente 50 episódios por dia.
Recentemente, Wayne informou que seu conteúdo gerou cerca de 1,4 bilhão de visualizações no Facebook e outras 100 milhões no YouTube apenas no mês anterior. A Meta e o YouTube, porém, afirmaram que não verificaram esses números de forma independente.
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Para Rae, as micronovelas estão apenas começando a revelar seu potencial. "Sabíamos que o público valorizaria conteúdo premium, gratuito e de fácil acesso. Se a história for envolvente, a atuação for boa e as pessoas sentirem que aquele conteúdo foi feito pensando nelas, elas vão se engajar", acredita.
Para Wayne, o futuro do formato continua ligado ao mesmo dispositivo que permitiu construir sua audiência. Ele conta que seus vídeos são gravados com celulares, quase sem edição tradicional, o que permite que a equipe trabalhe rapidamente e entregue histórias com boa qualidade visual.
"Os olhos do público estão no celular. Ainda vamos ao cinema. Ainda assistimos à TV. Mas estamos neste aparelhinho", resume.