As melhores fotos da Copa do Mundo foram tiradas da televisão
Sem credenciamento para a Copa do Mundo de 2026, a fotógrafa francesa Florence Pernet transformou a televisão em seu campo de criação.

Na fotografia, nem sempre o maior obstáculo é a falta de uma boa câmera. Às vezes, é a falta de acesso. Foi exatamente isso que aconteceu com a fotógrafa francesa Florence Pernet. Após ter o pedido de credenciamento para cobrir a Copa do Mundo de 2026 negado, ela poderia simplesmente acompanhar os jogos como qualquer outro torcedor. Em vez disso, decidiu fazer o que sabe melhor: fotografar.
Sem acesso aos estádios durante a Copa do Mundo de 2026, Florence voltou sua câmera para a televisão. A partir das transmissões oficiais, registrou closes dos jogadores, comemorações e momentos decisivos das partidas. As imagens, publicadas no instagram oficial da fotógrafa, chamaram a atenção por transformar um hábito comum de assistir a um jogo pela TV em um exercício de linguagem fotográfica.
"Não tenho credenciamento, mas tenho a minha TV e a minha própria visão", escreveu a fotógrafa em uma publicação no seu Instagram oficial. No mesmo post, fez questão de creditar as equipes de transmissão e os diretores responsáveis pelas imagens ao vivo, reconhecendo que, sem eles, aquelas fotografias não existiriam.
O OLHAR QUE TRANSFORMA LIMITAÇÕES EM FOTOGRAFIA
As fotografias produzidas por Florence a partir da televisão carregam uma estética própria, marcada por borrões de movimento, granulação, linhas da tela e enquadramentos extremamente fechados. Rostos distorcidos pela velocidade, camisas que surgem como manchas de cor, números de jogadores isolados no enquadramento e expressões captadas em frações de segundo criam imagens únicas.
A nitidez tradicional da fotografia esportiva não é o objetivo de Florence. Seu interesse está em transformar as limitações do meio em linguagem visual. O resultado é uma narrativa visual intensa e emocional, na qual o futebol deixa de ser apenas um registro documental para se tornar uma interpretação artística do espetáculo.
O conteúdo da fotógrafa ficou tão bem visto que até mesmo a seleção de Portugal usou as imagens para ilustrar uma postagem oficial.
COMO FLORENCE PERNET CONSTRUIU SEU ESTILO
Ainda criança, ela sonhava em entrar no Parc des Princes, estádio do Paris Saint-Germain, não apenas como torcedora. Foi na fotografia que encontrou uma forma de expressão e aproximação com esse universo. Era uma maneira de se aproximar daquilo que amava sem necessariamente se expor, observando e capturando esse universo através do filtro do seu próprio olhar.
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Mantendo-se fiel a uma visão profundamente pessoal, hoje amplamente reconhecida, Florence conquistou um espaço singular na fotografia esportiva. Suas imagens transcendem a velocidade do presente e exploram a dimensão épica e atemporal dos maiores eventos esportivos do mundo.
Em entrevista à Athleta Magazine, a fotógrafa explicou que, ao iniciar na fotografia esportiva, vivia com o receio de perder o “momento decisivo”. Com o tempo, passou a questionar o próprio conceito de “momento”, entendendo que, sem conhecer o jogo, é difícil distinguir uma celebração, uma tensão ou uma jogada crucial. Essa percepção a levou a uma abordagem mais livre, aceitando até a ideia de não capturar o instante mais óbvio, já que outros fotógrafos fariam isso, o que abriu espaço para explorar imagens menos didáticas e mais focadas na sensação e na leitura pessoal do acontecimento.
A atitude de Florence levanta uma reflexão sobre o que realmente faz uma fotografia. O acesso privilegiado certamente facilita o trabalho, mas não substitui o olhar. Enquanto muitos enxergavam apenas uma tela, ela viu possibilidades de enquadramento, luz, emoção e narrativa. Sua história reforça que a fotografia não depende apenas do lugar onde o fotógrafo está, mas, sobretudo, da maneira como escolhe enxergar o mundo.