O que significa ser designer na era das IAs?

Em tempos de inteligência artificial, o papel do designer é traduzir problemas em soluções humanas, funcionais e com sentido

o que significa ser designer na era da inteligência artificial
Créditos: yaruta/ Getty Images/Diya Pokharel/ Unsplash

Victor Vasques 2 minutos de leitura

Ninguém compra design. Pelo menos não no sentido superficial da palavra.

O cliente não acorda numa bela manhã e pensa “hoje preciso de uma tipografia elegante". Isso pode até fazer parte da entrega, mas raramente é o verdadeiro motivo da busca. Por isso o design é algo que vai muito além da estética; é um processo de tradução de conceitos.

Mas, para entender o design, precisamos entender a origem do termo. Gosto da perspectiva que o design é projetar uma solução. É por isso que reduzir design a estética é tão limitador. A estética importa, mas ela é consequência de uma decisão mais profunda.

Antes de escolher uma cor, existe uma pergunta sobre posicionamento. Antes de desenhar uma marca, existe uma pergunta sobre identidade. Antes de criar uma interface, existe a pergunta sobre quem vai usá-la. Antes de fazer “ficar bonito”, existe o trabalho de fazer sentido.

E sentido é uma palavra importante no contexto atual. Vale lembrar que o termo “inteligência”, no contexto das IAs, é apenas uma metáfora.

Segundo o cientista da computação Lawrence Tesler (pai do Ctrl+C Ctrl+V), “inteligência é tudo aquilo que ainda não foi feito”. Ou seja, olhar para o produto final criado por uma IA é olhar para o resultado de uma tecnologia.

A IA já cria imagens (ou “arte"), desde os anos 60. O quadro "Gaussian-Quadratic", de 1963, criado por A. Michael Noll, no Bell Labs, é um bom exemplo de onde tudo começou neste cenário generativo.

O quadro Gaussian-Quadratic, de 1963, criado pelo Dr. A. Michael Noll, no Bell Labs
"Gaussian-Quadratic" (1963) Crédito: A. Michael Noll/ Bell Labs

Por isso, olhar para o design como sinônimo de projeto ajuda a entender melhor o que todo designer faz: um projeto gráfico, um projeto digital, um projeto estratégico.

O designer, nesse contexto, não é alguém que embeleza coisas. É alguém que escuta, interpreta, organiza e dá forma. É uma espécie de tradutor entre mundos.

Ainda lembro quando fui convidado para ser editor de fotografia de uma revista de grande circulação no país e o briefing da vaga era: traduzir os textos dos jornalistas de forma visual.

O designer suíço Yver Béhar, fundador da Fuseproject e um dos profissionais contemporâneos mais influentes da área, afirma que o design resolve um problema humano. E veja só, esta afirmação faz parte dos “10 princípios do design na era da inteligência artificial”, feito por Béhar ainda em 2017.

Talvez seja assustador, principalmente para jovens designers, ver uma revolução tecnológica acontecendo diante dos olhos. Mas já passamos pelo advento da computação, a chegada do Photoshop, mais recentemente a democratização da profissão pelo Canva e, finalmente, nos últimos anos, a IA generativa – agora adotada na maioria das plataformas já existentes.

Leia mais: A desconstrução do design

Portanto, ser designer no cenário atual não é um convite ao fim da profissão, mas um convite a retornar ao seu cerne: ser um projetista de soluções criativas e inovadoras.

Ferramentas mudam, épocas passam, mas a busca por significado – e a capacidade de projetar soluções que o materializam – é o que define o verdadeiro papel do designer.


SOBRE O AUTOR

Victor Vasques é designer focado em branding, inovação e future thinking, mentor pela ESPM-SP e fundador da Com limão & Co. saiba mais