McLaren leva IA para a pintura do carro, mas a corrida acontece nos bastidores
A pintura especial criada com o Google Gemini é apenas a parte visível de uma estratégia que leva inteligência artificial para decisões de corrida, análise de dados e interpretação do regulamento.

A Fórmula 1 sempre foi um esporte de velocidade, precisão e ganhos marginais. Por trás de cada piloto, existe uma operação complexa envolvendo engenheiros, estrategistas, designers e equipes de fábrica em busca de pequenas vantagens onde quer que possam encontrá-las. Isso tornou a F1 um campo de testes atraente para empresas de tecnologia, incluindo um número crescente de empresas de IA que agora trabalham com equipes de todo o grid.
A equipe McLaren Mastercard de Fórmula 1, a segunda mais antiga do esporte, é um exemplo disso. Antes do Grande Prêmio da Grã-Bretanha deste ano, a McLaren está revelando uma pintura especial — o design externo de seus carros — criada em parceria com o Google Gemini. O design inspira-se no primeiro carro de Fórmula 1 da McLaren, o McLaren M2B, e visa homenagear a história da equipe, ao mesmo tempo em que destaca seu atual investimento em ferramentas de desempenho assistidas por IA.
O M2B original. O primeiro carro de Fórmula 1 pilotado por Bruce McLaren em 1966 [Foto: McLaren]
"É uma parceria autêntica, e tudo o que estamos fazendo com o Google — particularmente com o Gemini — tem um objetivo claro: fazer o carro andar mais rápido e nos dar acesso a algumas das melhores tecnologias do mundo em um setor que evolui incrivelmente rápido", diz Dan Keyworth, diretor executivo de tecnologia de desempenho da McLaren.
Leia também: Estes carros de F-1 foram feitos com 400 mil peças de Lego – e correm de verdade
A pintura é a parte mais visível da parceria, mas o trabalho de maior impacto acontece nos bastidores. Como parte da parceria, a McLaren trabalhou com o Google Cloud para criar ferramentas personalizadas baseadas no Gemini, incluindo uma interface de dados em tempo real utilizada durante os fins de semana de corrida. O sistema coleta informações de várias fontes durante uma sessão e permite que os membros da equipe McLaren consultem esses dados usando linguagem natural.
"Se pegarmos uma sessão de classificação realizada no sábado, por exemplo, costumávamos levar muito tempo para comparar dados entre dois competidores", diz Keyworth. "E isso também exigia uma enorme quantidade de esforço humano. Agora, é possível comparar com outros pilotos e competidores e obter insights sobre como podemos melhorar."

A McLaren faz parte de uma mudança mais ampla na Fórmula 1, na qual as equipes tratam a IA como mais uma fonte de ganhos marginais. A Oracle Red Bull Racing está desenvolvendo um agente de estratégia baseado em IA, a Mercedes-AMG Petronas utiliza o Microsoft Azure para ampliar simulações e modelagens de corrida apoiadas por IA, e a Aston Martin Aramco firmou parcerias de IA com a Cohere e a Arm.

Em um esporte onde pequenos atrasos podem alterar o resultado de uma corrida, um acesso mais rápido à informação pode fazer toda a diferença. As ferramentas são utilizadas principalmente pelas equipes de engenharia que trabalham nos bastidores, mas a McLaren afirma que os efeitos podem se refletir na estratégia de corrida, nas decisões de acerto do carro e nas orientações passadas a partir do muro dos boxes. Oscar Piastri diz que grande parte de seu trabalho consiste em explicar o que precisa do carro, descrever como deseja que ele se comporte e ajudar os engenheiros a relacionar essas impressões aos dados que eles visualizam.
"Grande parte das informações sobre como tento realizar meu trabalho e como evoluo chega até mim por meio da equipe", diz Piastri. "Todas as análises [técnicas] que realizamos, os resumos de reuniões e briefings… recebo todas essas informações através da equipe. Agora, com a IA… a eficiência aumenta."
LEIA TAMBÉM: Vale investir na Fórmula 1? O que marcas ganham além da visibilidade
A McLaren também está utilizando o Gemini para ajudar sua equipe a consultar o regulamento da Fórmula 1. Seu bot de regulamentos foi projetado para auxiliar a equipe a pesquisar as novas normas da FIA e identificar rapidamente seções relevantes — uma tarefa que, de outra forma, exigiria uma análise minuciosa de documentos extensos e técnicos.

"Há muitas regras e regulamentos novos, e uma quantidade enorme de páginas", diz Piastri. "Acredito que a IA é uma ótima maneira de encontrar informações rapidamente, especialmente quando se trata de regras mais específicas ou daquelas com as quais não nos deparamos no dia a dia."
Essa agilidade não substitui o discernimento necessário durante um fim de semana de corrida, mas pode alterar a velocidade com que as equipes obtêm respostas úteis. No Grande Prêmio da Grã-Bretanha, em Silverstone — realizado de 3 a 5 de julho —, a pintura especial da McLaren servirá como um símbolo visível ao público de uma mudança mais silenciosa que já está em curso: a IA está se tornando parte da maneira como a equipe organiza informações, interpreta o desempenho e busca ganhos incrementais.
"Acredito que esse tipo de capacidade possa se expandir no futuro para diversas áreas, permitindo encontrar soluções rapidamente", diz Piastri. "Teremos de acompanhar a evolução dessa tecnologia."