“Inventaram um jeito de deixar um brasileiro triste com um gol do Brasil”

Nesta época de Copa do Mundo, casas de apostas online causam impactos psicológicos e socioeconômicos ainda maiores no país

apostas em aplicativos de jogos de azar crescem na época da Copa do Mundo
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Sofia Bolina 10 minutos de leitura

Há algo de podre no reino do futebol. Em plena Copa do Mundo, as casas de apostas online permeiam o país – o único pentacampeão –, a ponto de fazer com que uma pessoa torça para que o Brasil perca porque apostou contra a seleção e espera ganhar dinheiro com isso. 

É o que confirma o relato do antropólogo da informática David Nemer, professor e pesquisador no Departamento de Estudos de Mídia na Universidade da Virgínia. “Vi isso nos botecos durante a minha pesquisa de campo: homens torcendo pelo escanteio adversário contra o próprio time, porque o bilhete pagava. Como me disse um deles, a plataforma de bets sempre ganha a Copa. Ele sabia disso, e apostava mesmo assim", conta.

A presença das chamadas "bets" no esporte é grande e anterior ao campeonato; no ano passado, 18 dos 20 times da Série A do Brasileirão tinham como principal patrocinador alguma empresa de apostas.

Embora Danilo, lateral da seleção brasileira, tenha se posicionado contra esse tipo de jogo de azar, a lista de atletas que têm contratos publicitários milionários com casas de apostas conta com ídolos como Vini Jr. (Betnacional), Neymar (Blaze), e Ronaldo Fenômeno (Betfair). 

A Copa de 2026 – a maior da história, com 104 partidas no total – gera a intensificação das apostas, já que os confrontos entre equipes são televisionados todos os dias, acompanhados de inúmeras propagandas de jogos de azar. Tanto a Globo quanto o SBT e a CazéTV (os três canais que transmitem o torneio da FIFA no país) veiculam esse tipo de publicidade.

Some-se a isso o fanatismo nacional pelo futebol e pela seleção canarinho que leva mais brasileiros – inclusive aqueles que não acompanham campeonatos regionais – a colocar seu dinheiro em risco para prever acontecimentos no gramado durante a Copa.

“O futebol deixou de ser um espetáculo esportivo e se transformou num fluxo contínuo de oportunidades de aposta”, diz Ahmed El Khatib, doutor em finanças e em educação e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

A REVOLUÇÃO DAS BETS NA HISTÓRIA DAS APOSTAS

Se antes era preciso se deslocar fisicamente para as casas de apostas (clandestinas, no Brasil, visto que são proibidas desde 1946), ou ter dinheiro suficiente para viajar a Las Vegas, por exemplo, hoje os smartphones permitem que as apostas sejam feitas a partir de qualquer lugar. Basta ter acesso a um celular e à internet.

“O cassino agora mora no mesmo aparelho pelo qual a pessoa recebe salário, fala com a família e assiste ao futebol, acessível pelo Pix, com depósitos baixos e transferência instantânea", explica Nemer, sobre a dissolução do atrito. 

Esses aplicativos de jogos de azar, além de estarem disponíveis a qualquer hora, hiperfragmentam o tempo de modo a criar oportunidades infinitas. Trata-se do conceito de micromomento, cuja intensificação temporal frenética gera a microaposta. “Cada lance passa a ser um gatilho para uma nova aposta", alerta El Khatib.

o jogador Matheus Cunha comemora gol feito em partida da Copa do Mundo 2026
Matheus Cunha comemora gol na partida contra a Escócia (Crédito: FIFA)

O ganho não depende mais da espera pelo apito final do árbitro para definir o resultado e, em caso de perda, a microaposta promete que a próxima rodada consertará o dano econômico. O professor de finanças destaca que o efeito para o cérebro de quem joga, da perspectiva da psicologia, é o de recompensa imediata, o que faz com que o ciclo de apostas se perpetue. 

No futebol, cartões amarelos e vermelhos, escanteios, pênaltis e os momentos da partida em que cada evento acontece podem ser uma aposta diferente, feita em um minuto para expirar no próximo. “Uma falta já não é uma falta, é uma posição que paga ou não paga", diz Nemer.

"Vi um homem aplaudir o gol do Brasil sem entusiasmo porque o segundo gol quebrou a 'múltipla' dele. Alguém na mesa resumiu: os aplicativos inventaram um jeito de deixar um brasileiro triste com um gol do Brasil. A intensificação corrói o ritual mais coletivo que a cultura popular brasileira tem", afirma o antropólogo.

Nemer destaca ainda o que chama de "plataformização especulativa", que vê como a mudança mais decisiva trazida pelas casas de apostas online.

O futebol deixou de ser um espetáculo esportivo e se transformou num fluxo contínuo de oportunidades de aposta.

Antes, as apostas eram vinculadas à sorte, como no jogo do bicho. Mas as bets operam além do lazer, por serem “infraestruturas financeiras que capturam a liquidez doméstica dispersa, fabricam apego por recompensa intermitente e prova social e individualizam a perda como falha de disciplina pessoal”.

Os danos econômicos e psicológicos desse tipo de aposta são profundos na população de modo geral. Mas, em um país desigual como o Brasil, Nemer vê essas disparidades socioeconômicas como parte central da estrutura criada pelas apostas esportivas online, legalizadas desde o fim de 2023.

As projeções para 2025 (primeiro ano da vigência da regulamentação de bets no Brasil) posicionavam o país como o quinto maior mercado do mundo, segundo informações divulgadas pela BBC.

Nesse mesmo período, a receita bruta das casas de apostas online foi da ordem de R$ 37 bilhões, o que fez com que parte da população que aposta diminuísse os gastos com compras de supermercado e com peças de vestuário, por exemplo.

TODO MUNDO PERDE – MAS UNS PERDEM MAIS QUE OUTROS

El Khatib vê uma ligação direta entre a vulnerabilidade socioeconômica e a cultura do ganho imediato. É uma narrativa que substituiu o discurso anterior sobre ascensão econômica, que via estudo e trabalho como os caminhos para a prosperidade.

“Isso aparece em vários lugares: apostas, loterias, programa de auditório com prêmios, reality shows, empreendedorismo vendido como enriquecimento instantâneo. É um discurso para que a pessoa pare de trabalhar, que questiona para que se deve estudar", pontua.

É nesse contexto que a aposta vira promessa de mobilidade social, sobretudo quando aliada a publicidade feita por influenciadores que ostentam luxo.

Tanto El Khatib quanto Nemer ressaltam que, embora os mais pobres gastem menos em apostas do que os mais ricos, a parcela da renda destinada a isso é maior nas classes C, D e E. “Uma quantia pequena representa um sacrifício maior quando sai de quem tem menos", aponta Nemer.

Assim, a perda é privatizada. O caráter estrutural da escassez sai de cena e o fracasso vira questão de autocontrole individual. "Essa é a operação neoliberal central: converter desigualdade estrutural em narrativa de oportunidade individualizada", complementa. 

Mesmo que a desigualdade social seja essencial para o sucesso do modelo de negócio das bets, o discurso sobre apostas é focado no indivíduo. Isso transparece no incentivo à participação no jogo, mas especialmente quando a pessoa perde.

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O sociólogo Marcelo Pereira de Mello, professor na Universidade Federal Fluminense (UFF), compara a narrativa em torno dos jogos de azar à de outros vícios. “Você vai responsabilizando o indivíduo pela sua tragédia, depois que se garante um arcabouço institucional e que se justifica politicamente a exploração dos jogos", afirma.

"Quando isso começa a gerar problemas, eles são atribuídos ao indivíduo, o que não é bem novidade. Podemos falar do alcoolismo, por exemplo. Imputamos culpa à pessoa que desenvolve o vício, mas jamais à indústria de bebidas." 

"JOGUE COM RESPONSABILIDADE"

Na última semana, a discussão em torno da responsabilidade e do incentivo às bets ganhou um novo capítulo a partir de críticas feitas à CazéTV, único canal brasileiro que transmite todos os jogos da Copa do Mundo.

Além de veicular propaganda de casas de apostas esportivas online – como Globo e SBT também fazem – a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) investiga o canal por "publicidade enganosa ou abusiva".

O motivo principal são as falas de narradores que reiteram, ao vivo, a atratividade das apostas, além da divulgação de uma propaganda de bets durante uma pausa de hidratação na partida entre Inglaterra e Gana.

“Quando a análise esportiva é acompanhada por comentários sobre probabilidades de aposta, parte da audiência pode interpretar como uma recomendação ou validação, especialmente quando há relação de confiança entre o comunicador e o público", comenta El Khatib, que é autor de um estudo sobre bets e universitários brasileiros a partir da Teoria do Comportamento Planejado.

apostadores assistem partida da Copa do Mundo pelo celular
Créditos: blackCAT/ Getty Images/ Valentin Kremer/ Unsplash

Da perspectiva da psicologia financeira, a menção das odds (probabilidades) em tempo real, como feito na CazéTV até semana passada, intensifica o estímulo imediatista para o espectador, dando a ele poucos segundos para decidir apostar ou não. “Isso favorece as decisões impulsivas, porque o cérebro passa a responder ao senso de urgência", explica El Khatib.

A credibilidade é essencial a essa indústria, aponta Nemer, que está preparando um livro sobre o assunto. Em suas pesquisas, ele descobriu que os apostadores chegam às plataformas por uma pessoa: um primo, uma tia, um influenciador que seguem, um rosto conhecido.

"A CazéTV opera nessa mesma lógica, só que em escala nacional: um estilo de transmissão íntimo, de amigo que fala com você e que converte a confiança na pessoa em disposição a apostar. Quando a odd entra na fala do narrador ao vivo, o link herda uma legitimidade que a plataforma não fez nada para conquistar”, detalha Nemer. 

a desigualdade social é essencial para o modelo de negócio das bets, mas o discurso sobre apostas é focado no indivíduo.

Considerando os três canais que transmitem jogos da Copa deste ano, Marcelo de Mello, da UFF, lembra ainda o fato de que entre os espectadores estão crianças e adolescentes. Num país em que o sonho de muitos jovens é um dia ser jogador de futebol, a presença de seus ídolos na publicidade de bets entre as partidas pode ter um impacto negativo.

“Qual o efeito disso na cabeça de um adolescente, que muito dificilmente será um jogador da seleção, mas com muita facilidade poderá se transformar num apostador?", questiona.

Os dados relativos aos menores de idade preocupam: no ano passado, o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, destacou adolescentes como os mais vulneráveis às apostas. Mais da metade (55,2%) dos jovens entre 14 e 17 anos que apostaram estavam na zona de risco ou transtorno relacionado ao vício em jogos.

A SOLUÇÃO PARA ALÉM DO FUTEBOL

Considerando os contextos e problemas gerados pelas casas de apostas online, El Khatib, acredita que “o grande desafio não é só regulatório – se o governo impede ou não a pessoa de apostar. É também educacional e comportamental.” 

Parte da discussão sobre soluções foca na necessidade de educação financeira da população. El Khatib diz que isso é importante, mas, sozinha, a educação seria não seria suficiente. “A decisão financeira é também emocional, e é aí que entra a psicologia econômica, que deveria ser levada à sala de aula junto com a educação financeira."

árbitros da Copa do Mundo 2026 usam câmeras corporais

Essa área estuda como emoções, crenças, impulsos e vieses cognitivos, e até mesmo contexto familiar, influenciam essas decisões financeiras. Em outras palavras, ela tenta responder como pessoas fazem escolhas contra seus interesses econômicos.

Autor do livro "Criminalização dos jogos de azar – a história social dos jogos de azar no Rio de Janeiro (1808-1946)", Pereira de Mello aponta a responsabilidade do Congresso Nacional no atual cenário.

Ele lembra que, embora o Congresso seja composto, em sua maioria, por bancadas conservadoras, foram os deputados e senadores que aprovaram a legislação permissiva por meio da qual as casas de apostas online operam.

“A sociedade tem de pressionar o Legislativo para que ele coloque limites à exploração do jogo de azar. Não é ficar nesse processo cíclico no qual o Brasil às vezes entra, de proibir ou liberar tudo. Entre esses dois polos há, seguramente, a possibilidade de um equilíbrio. Não podemos deixar do jeito que está", argumenta.

Leia mais: O impacto das bets: uma crise que crianças e adolescentes estão pagando

Autor de "Tecnologia do Oprimido" (que explora a desigualdade e o digital a partir das teorias do educador Paulo Freire), David Nemer acredita que não se pode apostar em uma esperança banal como a prometida pelas bets.

“O tecno-otimismo que o Brasil pode ter não é a fé em uma plataforma melhor. É a capacidade coletiva de nomear o arranjo como arranjo, recusar sua apresentação como destino e começar, contra probabilidades muito desfavoráveis, o trabalho de fazê-lo de outro modo.”


SOBRE A AUTORA

Sofia Bolina é jornalista, formada em Estudos Culturais pela Universidade Humboldt de Berlim e mestre em escrita de não-ficção pela Un... saiba mais