Comprar não significa mais possuir: o que muda com o fim da mídia física

Decisão da Sony amplia dúvidas sobre propriedade digital em meio a remoções de filmes, jogos e conteúdos já pagos pelos consumidores

Créditos: Patrick T. Fallon/ Bloomberg/ Getty Images/ Magnific

Chris Stokel-Walker 3 minutos de leitura

A espera foi longa. As edições físicas de jogos para consoles vêm perdendo espaço de forma constante para as versões digitais, e mais de um em cada quatro consoles PlayStation 5 vendidos nos Estados Unidos desde o lançamento já são modelos exclusivamente digitais – um avanço em relação aos 18% registrados em outubro de 2024.

A Sony percebeu para onde o mercado está caminhando. A partir de janeiro de 2028, a empresa venderá apenas versões digitais de seus jogos, tanto em varejistas quanto na PlayStation Store.

Segundo a Sony, a decisão reflete a mudança no comportamento dos consumidores, que cada vez mais preferem fazer download dos jogos em vez de comprar caixas nas lojas.

Trata-se de uma "evolução natural", afirmou Sid Shuman, diretor de comunicação de conteúdo da Sony Interactive Entertainment, em uma publicação no blog da empresa.

Isso pode ser verdade. Baixar um jogo diretamente no console é mais rápido e conveniente do que ir a uma loja ou esperar uma entrega. Mas essa praticidade também reduz o controle dos consumidores sobre aquilo que compram. É justamente isso que torna o anúncio da Sony tão importante – e tão preocupante.

Um jogo em mídia física pode circular fora da loja da Sony. Ele pode ser revendido por um varejista independente, encontrado em um brechó, emprestado a um irmão ou ficar guardado em uma estante muito tempo depois de uma loja digital alterar seus termos de uso.

No ambiente digital, esse controle é muito menos garantido. Jogos podem desaparecer das lojas virtuais. Arquivos podem ser removidos dos dispositivos. O acesso pode depender de contratos de licenciamento que os consumidores nunca viram e sobre os quais não têm qualquer poder de negociação.

Essa preocupação não é hipotética. Ela já está acontecendo – e justamente na empresa que agora empurra o PlayStation para um futuro totalmente digital.

A Sony informou aos usuários que, a partir de setembro, eles deixarão de ter acesso a filmes e programas de TV da StudioCanal comprados anteriormente, devido a acordos de licenciamento.

cena do filme O Exterminador do Futuro 2
"O Exterminador do Futuro 2" (Crédito: TriStar Pictures)

A lista inclui 551 títulos, entre eles "Apocalypse Now: O Corte Final", "O Exterminador do Futuro 2", "O Diário de Bridget Jones" e "O Espião que Sabia Demais". Segundo a empresa, esse conteúdo será removido das bibliotecas de vídeo dos usuários "devido aos nossos acordos de licenciamento de conteúdo".

A decisão representa uma mudança considerável em relação a 2021, quando a Sony afirmou que os clientes continuariam podendo acessar os conteúdos comprados sob demanda mesmo após a interrupção da venda e do aluguel de filmes e séries na PlayStation Store.

Somado ao desaparecimento gradual dos DVDs e à fragmentação dos serviços de streaming – nos quais filmes e séries entram e saem dos catálogos constantemente –, o cenário dá a impressão de que o significado de palavras como "comprar" e "adquirir" está mudando para pior.

SERÁ O FIM DA MÍDIA FÍSICA?

A oposição ao modelo de aluguel ou licenciamento, que se tornou cada vez mais comum na cultura pop, nos games e no streaming, também cresce. Na Califórnia, uma lei que entrou em vigor em 2025 obriga lojas digitais a deixar mais claro quando o consumidor está adquirindo uma licença revogável, e não a propriedade plena de um conteúdo.

Já na Europa, há apenas duas semanas, a Comissão Europeia respondeu a uma petição com 1,3 milhão de assinaturas da campanha "Stop Destroying Videogames" ("Parem de destruir os videogames"), que questiona especificamente o destino dos jogos quando fabricantes de consoles e editoras deixam de oferecer suporte a eles.

O órgão executivo da União Europeia reconheceu que as leis de propriedade intelectual e direitos autorais limitam sua capacidade de agir, mas afirmou que vai trabalhar com representantes da indústria e de grupos de defesa do consumidor na elaboração de um código de conduta para o fim da vida útil dos jogos.

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Mais transparência é urgente. Por décadas, a lógica por trás da compra de jogos, fitas VHS, DVDs e outras mídias era simples: você pagava e, em troca, recebia o jogo, o filme ou a série para guardar.

Esse acordo está se desfazendo. O recibo na caixa de entrada do seu e-mail comprova que você pagou. Mas isso já não significa que você seja dono de alguma coisa.


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais