Burnout não é só trabalhar demais

Liderança confusa, decisões lentas e trabalho desnecessário criam um ambiente mais propenso ao esgotamento do que a carga horária

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Jake Vygnan 4 minutos de leitura

Se você nunca enfrentou um burnout, provavelmente já viu alguém passar por isso. Quase sempre, a explicação é a mesma: a pessoa trabalhava demais e não conseguiu manter o famoso "equilíbrio entre vida pessoal e profissional".

Mas o que, afinal, significa esse equilíbrio? E será que ele existe da forma como costuma ser apresentado?

A expressão parte de uma premissa questionável: a de que o trabalho é o inimigo da vida, algo que precisa ser limitado e mantido de um lado de uma linha imaginária.

Na prática, porém, o trabalho faz parte da vida. Para a maioria das pessoas, é uma parte importante dela. O objetivo nunca deveria ser simplesmente trabalhar menos, mas trabalhar de um jeito que não esgote física e emocionalmente.

Dados da Gallup mostram que funcionários que se sentem tratados de forma injusta no trabalho têm 2,3 vezes mais chances de sofrer burnout do que os demais.

Quando as pessoas não conseguem conectar seu esforço aos resultados, quando o sucesso não está claramente definido ou quando as prioridades mudam o tempo todo, a carga horária deixa de ser o principal problema. Quarenta horas de trabalho mal direcionado podem ser mais desgastantes do que 60 horas dedicadas a um objetivo claro.

Ao longo de 14 anos liderando equipes de diferentes tamanhos e níveis de experiência, consegui identificar três causas centrais do burnout.

1. EXPECTATIVAS POUCO CLARAS

A principal causa do burnout é a falta de clareza sobre o que significa ter sucesso.

Quando ninguém define o que é um bom resultado, as pessoas tentam compensar a incerteza trabalhando mais. Afinal, esforço é a única variável sob seu controle. Ainda assim, terminam com a sensação de fracasso – não por falta de dedicação, mas porque nunca souberam exatamente qual era a meta.

Nas equipes das plataformas Hily e Taimi, por exemplo, cada gestor transforma os objetivos de longo prazo em metas de curto prazo da maneira que considera mais adequada. Eles têm autonomia tanto sobre o resultado quanto sobre o caminho para alcançá-lo.

Assim, as expectativas deixam de ser apenas claras e passam a ser também pessoais. É muito mais difícil entrar em burnout quando você ajuda a definir a missão que precisa cumprir.

2. DECISÕES LENTAS

Outro fator que causa burnout é a demora para tomar decisões. Quando um projeto fica parado esperando aprovação, ou retorna várias vezes porque o briefing era vago, ou perde prioridade depois de semanas de trabalho, o esforço deixa de produzir resultados.

Essa diferença entre o que se entrega e o que realmente avança é mais desmotivadora do que uma carga intensa de trabalho. As pessoas conseguem sustentar períodos de alta intensidade, mas dificilmente suportam a sensação de que seu trabalho não faz diferença.

3. TRABALHO INÚTIL

A terceira causa do burnout é o trabalho desnecessário: tarefas criadas por processos ruins, responsabilidades mal definidas ou falhas da organização.

Entram nessa categoria reuniões que poderiam ser resolvidas por mensagem, documentos produzidos apenas para demonstrar atividade e longas cadeias de aprovação que revelam falta de confiança em quem executa o trabalho.

A inteligência artificial ajuda a eliminar parte desse desperdício, automatizando tarefas repetitivas. Mas ela resolve apenas os sintomas. As causas continuam sendo responsabilidade da liderança.

Hoje, a prioridade da nossa empresa é usar IA para otimizar processos – não para substituir pessoas, mas para devolver tempo às equipes. A ideia é liberar espaço para atividades estratégicas, exploração de novas oportunidades e desenvolvimento de novos produtos, em vez de manter profissionais presos a tarefas repetitivas.

ELIMINANDO AS CAUSAS DO BURNOUT

Evitar o burnout não significa erguer uma barreira entre trabalho e vida pessoal. O desafio é construir uma vida profissional que caiba dentro de uma vida humana. Isso exige autonomia, objetivos claros, decisões rápidas e a eliminação de tarefas sem valor.

Se líderes querem equipes mais satisfeitas e produtivas, devem concentrar seus esforços em oferecer clareza e agilidade na tomada de decisões. São esses fatores que, quando ausentes, criam as condições para o burnout – muitas vezes mascaradas como simples excesso de trabalho.

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Quando o trabalho proporciona propósito e permite que as pessoas percebam o impacto de seus esforços, elas tendem a ser mais felizes, produtivas e bem-sucedidas.

No fim das contas, quando o trabalho deixa de ser uma fonte constante de frustração, não há mais necessidade de equilibrá-lo com o restante da vida. Ele deixa de ser um adversário e passa a ocupar, de forma saudável, o espaço que sempre deveria ter.


SOBRE O AUTOR

Jake Vygnan é cofundador e COO dos aplicativos de relacionamento Hily e Taimi. saiba mais