O que as pessoas entenderam errado sobre o diagnóstico de Bryan Johnson
Especialistas afirmam que não há evidências de que dieta vegana cause gastrite autoimune, condição sem cura conhecida

Na semana passada, o biohacker Bryan Johnson movimentou a internet ao revelar que foi diagnosticado com gastrite autoimune (AIG, na sigla em inglês).
"Meu estômago está atacando a si mesmo", escreveu Johnson no início de uma longa publicação nas redes sociais. Segundo ele, a condição está relacionada ao hipertireoidismo, diagnosticado quando tinha pouco mais de 20 anos. Como a doença costuma evoluir sem sintomas evidentes, porém, a gastrite autoimune permaneceu oculta por mais de duas décadas, até ser identificada em maio deste ano, aos 48 anos.
Johnson e sua equipe médica chegaram ao diagnóstico após detectarem níveis baixos de ferritina — proteína responsável pelo armazenamento de ferro —, apesar de ele não apresentar anemia. Depois de uma endoscopia e três biópsias, veio a confirmação da doença autoimune, que afeta cerca de 2% da população e, atualmente, não tem cura conhecida.
"Você também pode ter um problema de saúde oculto, ainda não diagnosticado, que pode se agravar por escolhas pouco saudáveis sem que você perceba", alertou Johnson. "A ausência de sintomas não significa presença de saúde."
Há uma ironia inevitável no fato de Johnson — conhecido pela obsessão com longevidade e por métodos pouco convencionais de combate ao envelhecimento, incluindo controversas transfusões de plasma do próprio filho — admitir publicamente que sua saúde está longe de ser perfeita.
Críticos nas redes sociais foram rápidos em explorar essa contradição, sugerindo que sua doença seria consequência direta de seus hábitos de saúde.
"O cara rico tentando viver para sempre sendo traído pelo próprio corpo é uma tragicomédia digna da Grécia Antiga", escreveu um usuário. "Cuidado com quem você segue em busca de conselhos médicos", comentou outro.
A publicação ultrapassou 9,3 milhões de visualizações e desencadeou um intenso debate. Mas, segundo especialistas, muitos comentários ignoram aspectos fundamentais sobre a doença.
É o caso da gastroenterologista Sheila Rustgi, da Universidade Columbia e coautora de um estudo publicado em 2021 sobre gastrite autoimune. Em entrevista à Fast Company, ela explicou por que é equivocado atribuir o diagnóstico de Johnson à alimentação ou ao seu estilo de vida.
"A verdade é que, como acontece com tantas doenças autoimunes, ainda não compreendemos totalmente a patogênese, ou seja, como a gastrite autoimune se desenvolve", afirma Rustgi. "Provavelmente ela resulta de uma combinação de fatores genéticos e exposições ambientais. Há estudos que identificam genes compartilhados entre pacientes com gastrite autoimune, indicando que a genética desempenha um papel importante."
"Coma um bife": as críticas à dieta vegana
Nas redes sociais, uma das críticas mais frequentes foi direcionada à dieta vegana de Johnson. Muitos usuários afirmaram que seus baixos níveis de ferro — e até mesmo a gastrite autoimune — seriam consequência da ausência de carne na alimentação.
"Seu estômago está atacando a si mesmo porque você não está dando a ele o que ele quer", escreveu um usuário. "Pelo amor de Deus, coma um bife, Bryan."
Outro comentou: "Você não tem uma doença autoimune. Seu intestino está se revoltando contra uma dieta cheia de toxinas vegetais."
Um terceiro afirmou que incluir carne "melhoraria significativamente os níveis de ferritina e o estado nutricional geral" de Johnson.
Rustgi, porém, alerta que não há evidências científicas para responsabilizar a dieta pelo desenvolvimento da gastrite autoimune.
"A alimentação é extremamente difícil de estudar em pesquisas de grande escala, especialmente quando falamos de uma doença crônica relativamente rara como essa", explica. "Não existem estudos que demonstrem que uma dieta vegana — ou qualquer outro padrão alimentar — aumente o risco de desenvolver gastrite autoimune."
Ela acrescenta que níveis baixos de vitamina B12, um sintoma comum da doença, também podem ocorrer em pessoas veganas, mas isso não significa que exista uma relação causal entre as duas condições.
Em uma publicação posterior, o próprio Johnson respondeu às críticas.
"As pessoas que dizem que comer carne resolveria meu problema não entenderam minha condição", escreveu. "Minha baixa ferritina é uma consequência da gastrite autoimune, não a causa dela."
O desafio do diagnóstico precoce
Como seria de se esperar, Johnson afirma que não pretende aceitar passivamente o diagnóstico, apesar de não existir uma cura reconhecida para a doença.
Ele disse que sua equipe pretende "tentar resolver" a gastrite autoimune utilizando novas biópsias, análises de células T e outras abordagens de pesquisa.
"Na era da IA, da multiômica e do desenvolvimento personalizado de DNA, proteínas e células, nenhuma doença deveria ser considerada incurável apenas porque ninguém ainda tentou tratá-la com as tecnologias disponíveis hoje", escreveu.
Para Rustgi, o maior legado da divulgação do caso pode ser justamente ampliar o conhecimento sobre uma doença que frequentemente passa despercebida por muitos anos.
Segundo ela, pesquisadores da Universidade Columbia conduzem estudos importantes com células-tronco do trato gastrointestinal, enquanto colaborações internacionais lideradas por cientistas americanos e italianos buscam compreender melhor a doença e abrir caminho para futuras terapias.
Independentemente dos esforços de Johnson para prolongar a vida, seu caso reforça uma realidade incontornável: doenças crônicas podem atingir qualquer pessoa, mesmo aquelas que dedicam enorme atenção à própria saúde.
"Essa é uma condição que começou a se desenvolver no meu corpo há mais de 20 anos", respondeu Johnson a um seguidor. "Se eu não tivesse cuidado tão bem da minha saúde nos últimos anos, ela provavelmente estaria muito pior. Problemas de saúde sempre surgirão, por mais saudável que alguém seja. O mais importante é receber o diagnóstico cedo."