Como a IA está colocando as Empresas B à prova

Certificadas por seus compromissos socioambientais, as Empresas B tentam adotar IA sem comprometer seus princípios nem sua reputação

símbolo de empresa com certificação B
Crédito: Adobe Stock

Andrew Seale 7 minutos de leitura

O Beneficial State Bank está diante de um dilema. Certificado como Empresa B, o banco comunitário sediado na Califórnia foi construído sobre princípios de justiça social, responsabilidade climática e sucesso financeiro sem financiar combustíveis fósseis ou prisões privadas.

A inteligência artificial poderia ajudá-lo a cumprir esses objetivos e tornar a concessão de crédito mais inclusiva. Mas adotar essa tecnologia exige um complexo exercício de equilíbrio ético.

Até recentemente, era fácil colocar a IA na categoria do "antiético", diz Terra Neilson, diretora de impacto do Beneficial State Bank. O impacto ambiental e os potenciais danos sociais da tecnologia estão sempre nas manchetes. Mas um projeto recente tornou essa visão mais complexa.

O banco decidiu ampliar um projeto piloto conduzido pela Beneficial State Foundation, sua acionista majoritária sem fins lucrativos. Ela utiliza a ferramenta de análise de crédito assistida por IA da Stratyfy para aumentar a eficiência e reduzir vieses sistêmicos na avaliação de crédito.

A BetterFi, instituição financeira comunitária do Tennessee que participa do piloto, já utilizou a ferramenta para aumentar em 21% a aprovação de empréstimos para comunidades negras, indígenas e outras populações racializadas.

Segundo Neilson, se o sistema financeiro conseguir usar a IA para identificar e corrigir esses pontos cegos, será possível reduzir práticas discriminatórias históricas, como o redlining – que restringe o acesso ao crédito em determinadas regiões e grupos sociais – e outros vieses que há décadas dificultam o acesso de populações marginalizadas ao capital.

Fazer isso, porém, significa ponderar cuidadosamente os benefícios da IA diante de seus custos.

símbolo de empresa com certificação B
Crédito: Sistema B

"Chega um momento em que você sofre com a fadiga das decisões", diz Neilson. "Estamos sendo muito intencionais ao perguntar: quais são os prejuízos e quais benefícios realmente justificam os custos que enxergamos?"

Ela afirma que ser uma Empresa B e uma organização orientada por propósito exige examinar com cuidado tanto as tecnologias adotadas quanto os fornecedores envolvidos, para garantir que estejam alinhados com a missão da instituição. "A IA está em uma categoria própria, por causa do potencial de esconder a relação entre uma decisão e seu impacto", afirma.

O banco faz parte de um grupo crescente de Empresas B que tentam conciliar o uso da IA com seus compromissos ambientais, sociais e de governança (ESG). À medida que cresce a reação ao elevado consumo de energia e às emissões associadas à IA, essas empresas enfrentam tanto um desafio de prestação de contas quanto um risco reputacional.

UM NOVO MUNDO EXIGE NOVOS PADRÕES

As Empresas B atendem a altos padrões de desempenho social e ambiental, transparência e responsabilidade, passaram por um processo de verificação com o B Lab e estão comprometidas com um processo de melhoria contínua de seu impacto.

A certificação Empresa B é uma das mais rigorosas e reconhecidas do mundo em sustentabilidade, impacto social e governança. Atualmente, reúne mais de 10 mil empresas de 160 setores em 105 países.

No ano passado, o B Lab, organização global sem fins lucrativos responsável pela certificação, lançou novos padrões de desempenho distribuídos em sete áreas de impacto, entre elas ação climática, direitos humanos, gestão ambiental, justiça, equidade, diversidade e inclusão.

ser uma Empresa B exige examinar com cuidado tanto as tecnologias adotadas quanto os fornecedores envolvidos.

As novas regras são bem mais rigorosas que as anteriores e levaram cerca de quatro anos para serem desenvolvidas – justamente durante o período em que a adoção da IA se acelerou em todo o mundo.

Para Clay Brown, diretor de padrões da B Lab, as novas diretrizes já contemplam os desafios trazidos pela tecnologia.

"O uso da IA é, basicamente, uma questão de governança voltada às partes interessadas", afirma. "Seja a IA ou a escolha de uma cadeia de fornecedores espalhada pelo mundo, a pergunta é: como essa decisão afeta todos os públicos com os quais a empresa se relaciona?"

Brown cita os data centers como exemplo. Uma Empresa B que incorpora IA em seus processos ou produtos deve considerar de onde vêm seus dados, onde estão hospedados os grandes modelos de linguagem que alimentam essas ferramentas e quais impactos ambientais esses sistemas provocam.

Leia mais: A IA está com sede e ninguém sabe quanta água ela realmente bebe

As novas normas também determinam que empresas que utilizam IA para gerar conteúdo desenvolvam diretrizes éticas específicas. Já organizações que tenham metas de redução de emissões devem incluir o uso de IA em seus cálculos de carbono.

"Não queremos dizer que as empresas podem ou não usar IA. Queremos que elas entendam os impactos dessa escolha e adotem medidas para mitigá-los", afirma Brown.

FALTA DE TRANSPARÊNCIA, UM PROBLEMA PARA AS EMPRESAS B

Apesar disso, ainda existem enormes lacunas nas informações disponíveis, diz Alex de Vries-Gao, pesquisador da Universidade Livre de Amsterdã, que há mais de uma década estuda a pegada de carbono de tecnologias emergentes.

Mais recentemente, ele passou a analisar o consumo de água e as emissões dos data centers utilizados por Microsoft, Apple, Google e Meta para operar modelos de IA.

símbolo de empresa com certificação B

"Os fornecedores simplesmente não são transparentes", afirma. "Como uma empresa pode ser realmente transparente e responsável se não recebe as informações de que precisa?"

Para as Empresas B, isso cria um dilema prático. Vale utilizar ferramentas como o Microsoft Copilot para produzir conteúdo, preparar apresentações e gerar ideias, mesmo sem conhecer exatamente seu custo ambiental? Ou seria melhor evitar a IA e correr o risco de ficar atrás dos concorrentes?

"No fim das contas, esse é o equilíbrio que cada empresa terá de fazer", afirma Vries-Gao.

PREPARANDO A REAÇÃO

Mark Lowe, sócio-fundador da consultoria de comunicação Third City, sediada em Londres e também certificada como Empresa B, acredita que boicotar a IA não é uma alternativa viável. Mas prevê um escrutínio cada vez maior sobre o impacto ambiental da tecnologia.

A própria Third City vem ajustando suas escolhas de IA e de fornecedores em tempo real. Há alguns meses, por exemplo, cancelou sua assinatura da OpenAI e passou a usar o Claude após discordar da posição da empresa sobre o uso de sua tecnologia pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

O uso da IA é, basicamente, uma questão de governança voltada às partes interessadas.

Mesmo assim, as decisões raramente são simples. No início do ano, a empresa lançou o GEOView, ferramenta de otimização para mecanismos generativos que ajuda equipes de marketing a entender como suas marcas aparecem em plataformas como ChatGPT, Gemini, Perplexity e Claude.

Segundo Lowe, a ferramenta precisa realizar múltiplas consultas em diferentes modelos de linguagem – que, por sua vez, já executam diversas buscas internamente. "Um volume enorme de consultas significa um impacto ambiental considerável", lembra o consultor.

Para reduzir esse efeito, a Third City também utiliza o Offset AI, da Ecolytics, ferramenta que monitora e calcula tanto a pegada de carbono quanto o consumo de água das principais plataformas de IA generativa e compra automaticamente créditos de compensação de carbono e de água.

COMO USAR IA DE FORMA RESPONSÁVEL

A agência de relações públicas Yulu, sediada em Vancouver e também certificada como Empresa B, escolheu um caminho diferente: reduzir seu impacto por meio de melhores comandos enviados à IA.

Segundo Melissa Orozco, CEO e diretora de impacto da empresa, as equipes utilizam o aplicativo Slack para desenvolver prompts maiores e mais complexos antes de enviá-los aos modelos de IA.

O agente interno da empresa chama-se Rosie (em referência ao desenho animado "Os Jetsons") e foi criado para estimular comandos livres de vieses e orientados pela equidade.

prédio de data center da Meta instalado no estado da Geórgia, nos EUA
Data center da Meta instalado no estado da Geórgia, nos EUA (Crédito: Peter Essick)

"Ele reúne toda a nossa base de conhecimento, políticas internas, diretrizes sobre IA e identidade da marca, para que não precisemos repetir essas informações a cada interação", explica.

Os funcionários não precisam decorar essas regras. Elas já estão incorporadas em um prompt ético universal, que aplica automaticamente uma perspectiva de equidade interseccional e uma verificação de linguagem a todos os mecanismos de IA personalizados utilizados pela agência para seus clientes.

Segundo Orozco, o cumprimento das diretrizes éticas acontece por padrão, embora ela reconheça que o sistema ainda esteja em evolução.

A Yulu pretende revisar essas diretrizes a cada seis meses, acompanhando a rápida transformação da tecnologia. Segundo a executiva, a equipe frequentemente manifesta preocupação com o consumo de energia e a pegada computacional das ferramentas de IA generativa.

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Talvez seja justamente isso que coloque as Empresas B em posição privilegiada para ajudar o restante do mercado a encontrar um equilíbrio entre os benefícios da inteligência artificial e seus custos ambientais.

"Não temos problema em fazer o trabalho difícil", afirma Orozco. "Não fomos programados para escolher o caminho mais fácil."


SOBRE O AUTOR

Andrew Seale é jornalista independente. saiba mais