O que acontece com o cérebro quando terceirizamos o pensamento para a IA

Especialistas explicam como usar a inteligência artificial para ampliar capacidades humanas sem abandonar criatividade, análise e tomada de decisão.

Ilustração de cérebro com cursor representando o impacto da inteligência artificial no pensamento crítico
Créditos: MARIOLA GROBELSKA via Unsplash, Magnific,

Isabella Lura 7 minutos de leitura

Capaz de resumir textos longos, organizar informações e facilitar a realização de tarefas complexas, a inteligência artificial passou a ocupar um espaço cada vez maior na forma como as pessoas pensam, estudam e resolvem problemas. Mais do que transformar o acesso ao conhecimento, a tecnologia também modifica a relação dos indivíduos com o próprio processo de aprendizagem. 

Especialistas escutados pela Fast Company Brasil entendem que o problema não é a tecnologia, mas a forma que é utilizada.

O RISCO DE DEIXAR DE EXERCITAR O PENSAMENTO

Em uma era marcada pela busca constante por desempenho e eficiência, a maior ameaça da inteligência artificial pode não estar na substituição do trabalho humano, mas na possibilidade de terceirizar parte do esforço mental que contribui para a construção da nossa própria humanidade

Raphael Granucci,  psicólogo e historiador com especialização em Psicologia Clínica, explica que as capacidades cognitivas humanas não surgem prontas: elas são desenvolvidas por meio da prática, da interação social e dos desafios enfrentados ao longo da vida. "O pensamento é o que nos faz mais humanos. Ele é o nosso diferencial enquanto seres humanos. Se não o exercitamos, ele atrofia", afirma.

Um exemplo são os  exercícios físicos. Assim como um músculo se fortalece quando é constantemente utilizado, funções como criatividade, memória, atenção, planejamento e resolução de problemas também precisam ser exercitadas para se desenvolver. Quando elas passam a ser constantemente delegadas à inteligência artificial, diminuem também as oportunidades de fortalecer essas habilidades.

Granucci ressalta que esse processo também está ligado à criatividade. Para ele, criar exige enfrentar dúvidas, organizar ideias e experimentar soluções antes de chegar a um resultado. Quando a inteligência artificial oferece respostas prontas logo no início de uma tarefa, parte desse percurso deixa de acontecer. Embora o resultado possa ser mais rápido, o processo de aprendizagem tende a ser menos profundo. Para o psicólogo, o aprendizado não acontece apenas quando encontramos uma resposta correta, mas durante o processo de buscá-la. É ao enfrentar dúvidas, organizar argumentos e experimentar diferentes caminhos que desenvolvem criatividade, autonomia e capacidade de resolver problemas. 

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A analogia feita por Granucci se estende ao uso do GPS. A ferramenta facilita a locomoção, mas quem depende dela em todos os trajetos deixa de construir referências espaciais próprias. Com a inteligência artificial, segundo ele, algo semelhante pode acontecer com a escrita, o raciocínio e a tomada de decisões.

Essa dependência pode aparecer de forma gradual. Quando uma pessoa recorre à IA antes mesmo de tentar formular uma resposta, sente insegurança para escrever ou resolver problemas sem auxílio da tecnologia e passa a aceitar automaticamente tudo o que recebe, sua autonomia intelectual começa a enfraquecer.

IA NA EDUCAÇÃO: ENSINAR A QUESTIONAR, NÃO PROIBIR

Nos espaços de aprendizagem, a IA desafia a neuroplasticidade do estudante ao oferecer o conforto do atalho cognitivo, tornando vital que o ambiente acadêmico seja o local de fortalecimento do "músculo" do pensamento crítico para evitar a atrofia da autonomia intelectual

Para Kenneth Corrêa, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em tecnologias emergentes, não faz sentido tentar impedir o uso da inteligência artificial nas escolas e universidades. O desafio está em ensinar estudantes a questionar as respostas produzidas pelas ferramentas e construir repertório próprio.

Essa proposta já faz parte da sua prática como professor. Em sala de aula, Corrêa utiliza a inteligência artificial com os alunos durante as atividades e propõe que eles comparem as respostas geradas pela ferramenta com outras fontes de informação, identifiquem falhas, analisem possíveis vieses e discutam como um mesmo comando pode produzir resultados diferentes. O objetivo não é que os estudantes copiem as respostas da IA, mas que aprendam a avaliá-las criticamente e a aprimorá-las a partir de seus próprios conhecimentos.

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A percepção da população brasileira vai na mesma direção. Pesquisa da Fundação Itaú em parceria com o Datafolha mostra que 90% dos entrevistados concordam que todos os estudantes deveriam aprender a interagir com tecnologias de inteligência artificial de forma consciente e responsável. Além disso, 87% acreditam que os professores deveriam receber formação para integrar a IA ao processo de ensino-aprendizagem.

A preocupação ganha ainda mais relevância quando se observa que a inteligência artificial já faz parte da rotina da maioria da população. O levantamento mostra que 93% dos brasileiros utilizam alguma ferramenta baseada em IA, embora 46% afirmam não compreender exatamente o que é essa tecnologia. Para o professor, esse cenário reforça a necessidade de ensinar não apenas a utilizar essas ferramentas, mas também a compreender seu funcionamento, reconhecer suas limitações e desenvolver senso crítico diante das respostas produzidas por elas.

Essa preparação também está ligada às transformações no mercado de trabalho. Para Corrêa, os profissionais do futuro deixarão de executar sozinhos todas as etapas de uma tarefa para coordenar diferentes ferramentas de inteligência artificial, definindo objetivos, avaliando resultados e tomando as decisões finais. Nesse contexto, mais importante do que dominar uma plataforma será desenvolver competências essencialmente humanas, como pensamento crítico, criatividade, comunicação e capacidade de julgamento. Aprender a supervisionar a tecnologia, conclui, será tão importante quanto aprender a utilizá-la.

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO MERCADO DE TRABALHO

Um estudo recente da Microsoft, realizado com 319 trabalhadores do conhecimento que relataram 936 situações reais de uso da inteligência artificial no trabalho, mostrou que pessoas que depositam maior confiança nos sistemas de IA tendem a realizar menos verificações e análises críticas das informações recebidas. Em contrapartida, aqueles que confiam mais em suas próprias capacidades e em sua habilidade de avaliar as respostas da tecnologia demonstram maior propensão a revisar, questionar e complementar os conteúdos gerados pela ferramenta.

A pesquisa também indicou que o uso da inteligência artificial nem sempre é acompanhado pelo desenvolvimento de pensamento crítico. Nos casos analisados, os participantes relataram exercer essa habilidade em apenas 59,3% das situações. Além disso, os resultados mostraram que a IA reduz o esforço necessário para diferentes atividades cognitivas: 79% dos participantes afirmaram precisar de menos esforço para compreender e organizar ideias, enquanto 72% perceberam uma redução no esforço para recordar conhecimentos e analisar conteúdos. Outro dado relevante é que pouco mais da metade dos participantes utilizou a ferramenta para avaliar e revisar a qualidade das informações, indicando que o uso da IA nem sempre envolve uma análise cuidadosa dos resultados gerados.

Para Corrêa, a inteligência artificial modifica a maneira como exercemos o pensamento crítico. Em vez de produzir todas as respostas, o ser humano passa a ocupar um papel de supervisor, responsável por avaliar se as informações fornecidas pela tecnologia são corretas, relevantes e confiáveis. "Você pode terceirizar o seu pensamento, mas não pode terceirizar o seu entendimento."

Segundo Corrêa, a inteligência artificial deve ser usada para realizar tarefas repetitivas e liberar tempo para atividades que exigem criatividade, interpretação e decisões. Para explicar essa diferença, ele compara dois exemplos. No primeiro, um contador usa a IA para organizar dados e agilizar tarefas, mas continua responsável por analisar os resultados e tomar decisões importantes. Nesse caso, a tecnologia ajuda o profissional a ser mais produtivo. Já no segundo exemplo, um agente de viagens deixa a IA criar todo o roteiro e fica apenas responsável por fazer reservas. Para Corrêa, esse é o problema: quando a máquina passa a fazer a parte criativa e o ser humano fica apenas com tarefas automáticas.

"A IA deve fazer aquilo que não agrega valor ao ser humano, para que possamos concentrar nossos esforços no que realmente exige compreensão e julgamento", defende o professor. 

USAR A IA DE FORMA CONSCIENTE

Apesar dos riscos, nenhum dos especialistas acredita que a inteligência artificial representa um empobrecimento inevitável do pensamento humano. Pelo contrário. Ambos defendem que, quando utilizada de maneira consciente, ela pode ampliar significativamente as capacidades das pessoas.

Corrêa acredita que essa é a principal oportunidade da inteligência artificial: permitir que as pessoas concentrem seus esforços naquilo que nenhuma máquina consegue substituir completamente. Fazer boas perguntas, interpretar informações, conectar diferentes perspectivas e tomar decisões continuam sendo responsabilidades humanas.

Granucci compartilha dessa visão otimista, mas faz um alerta. Para ele, a tecnologia pode organizar informações, sugerir caminhos e ampliar o acesso ao conhecimento, desde que não substitua a construção de sentido realizada pelas próprias pessoas.

Nesse novo cenário, competências como pensamento crítico, criatividade, curiosidade, consciência ética e capacidade de interpretar diferentes contextos tornam-se ainda mais valiosas. É possível terceirizar o pensamento, mas nunca o entendimento.


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais