Por que os óculos de IA da Meta estão cercados de polêmicas

Desde proibições judiciais a recursos pagos e gambiarras com luzes LED, os óculos com câmera integrada continuam aparecendo nas notícias

Montagem mostra pessoas sendo identificadas por câmeras e uma mulher usando óculos inteligentes
Créditos: Meta / Lerone Pieters via Unsplash

Chris Morris 6 minutos de leitura

A Meta afirma que seus óculos de IA são um "assistente que entende o mundo sob a sua perspectiva". Os críticos dizem que eles são "ainda mais invasivos à privacidade do que você imagina". Uma coisa em que ambas as partes concordam, no entanto, é que esses óculos inteligentes são uma tecnologia que tem atraído todo tipo de controvérsia.

Desde o lançamento do Ray-Ban Meta em 2023, essas lentes inteligentes têm dividido opiniões. Os defensores elogiam a capacidade de tirar fotos e gravar vídeos sem precisar pegar o celular, além da assistência de navegação. 

Os opositores apontam o histórico nada impressionante da empresa em relação à privacidade e afirmam que os óculos abrem uma série de problemas relacionados ao rastreamento, consentimento e reconhecimento facial.

A disputa em torno dos óculos da Meta não está diminuindo; o capítulo mais recente mostra os tribunais do estado de Nova York banindo a tecnologia para impedir a gravação de processos judiciais. Abaixo, veja alguns dos maiores pontos de discórdia que a empresa tem enfrentado.

A luz indicadora dos óculos sinaliza quando a câmera está registrando imagens.

GRAVAÇÃO OCULTA

De longe, os aspectos mais controversos dos óculos da Meta giram em torno de sua câmera embutida, que pode ser usada para tirar fotos ou gravar vídeos de outras pessoas sem permissão. Dado que alguns usuários deixam a câmera ligada o tempo todo, a Electronic Frontier Foundation (EFF) alerta que ela poderia registrar alguém digitando sua senha no celular, no computador ou em um caixa eletrônico.

Os óculos possuem uma pequena luz indicadora que mostra quando estão gravando vídeo, mas há algum tempo existe um forte mercado paralelo de soluções alternativas para desativar esse recurso. 

A Meta respondeu em 7 de julho de 2026, atualizando as perguntas frequentes (FAQ) do produto para informar que a câmera dos óculos será desativada caso os usuários alterem ou destruam o LED de gravação. A empresa lançou uma atualização obrigatória para ativar essa função, e começou a remover anúncios, publicações e listagens do Marketplace que ofereciam serviços para burlar a luz de LED.

Em um comunicado, a porta-voz da Meta, Dina El-Kassaby, escreveu: “As pessoas que usam [os óculos da Meta] e as que estão ao seu redor precisam confiar neles. É por isso que construímos a privacidade em nossos óculos de IA desde o início. Por exemplo, cada par possui um LED de captura que pisca quando você tira uma foto ou grava um vídeo para salvar ou compartilhar; ele não pode ser desligado e, se alguém cobrir ou danificar o LED, a câmera será desativada. Continuaremos fortalecendo nossas proteções à medida que nossos óculos se tornarem ainda mais capazes.”

DADOS PRIVADOS, REVISÃO HUMANA

A Meta se deparou com uma ação coletiva em março devido a relatórios de que funcionários humanos revisam gravações feitas pelos óculos da Meta, incluindo conteúdos contendo nudez, pessoas fazendo sexo e usando o banheiro. Isso aparentemente contraria as campanhas de marketing que a Meta utilizava, que incluíam frases como “projetado para privacidade, controlado por você”.

Os termos de serviço da Meta para sua inteligência artificial, que englobam os óculos da Meta, incluem uma linha que reserva o direito de revisar as interações com as IAs e afirma que a empresa “pode fazê-lo por meio de revisão automatizada ou manual (ou seja, humana) e, em alguns casos, por meio de prestadores de serviços terceirizados”.

Óculos inteligentes Meta Fury com câmeras integradas nas laterais da armação
Os óculos inteligentes da Meta possuem câmeras embutidas capazes de registrar fotos e vídeos. Crédito: Meta

RECONHECIMENTO FACIAL

Há pouco mais de um mês, descobriu-se que a Meta havia incorporado discretamente um software de reconhecimento facial no aplicativo Meta AI, que é usado em conjunto com os óculos. Isso ocorreu apenas dois meses após a empresa afirmar que não implementaria o reconhecimento facial sem adotar “uma abordagem muito cuidadosa”. O código ainda não foi ativado pela empresa.

A reação negativa dos defensores da privacidade foi intensa. O CTO da Meta, Andrew Bosworth, disse em uma entrevista recente que o reconhecimento facial seria usado para identificar pessoas conhecidas do usuário, e não um sistema que busca dados em um banco de dados centralizado.

No entanto, assim como ocorre com a luz de LED, existem maneiras não oficiais de ativar o reconhecimento facial, mesmo que a Meta decida remover o código. Em março, um especialista em segurança cibernética conectou os óculos a uma plataforma de reconhecimento facial disponível comercialmente e conseguiu identificar pessoas e extrair detalhes pessoais delas em tempo real.

A EFF alertou que a ideia de adicionar uma funcionalidade de reconhecimento facial aos óculos “é uma ideia monumentalmente ruim que deve ser abandonada pela Meta e por qualquer um de seus concorrentes que esteja considerando um recurso semelhante. Mas, independentemente de lançarem ou não esse recurso, é uma indicação bastante clara de para onde a Meta quer levar esse tipo de dispositivo.”

BANIDOS DOS TRIBUNAIS

Como resultado das preocupações de privacidade em relação à câmera integrada, o estado de Nova York começará a proibir os óculos da Meta (e todas as formas de óculos inteligentes) nos tribunais a partir de 20 de julho. Este não é o primeiro estado a fazer isso. 

Pensilvânia, Havaí e Wisconsin já os baniram em alguns sistemas judiciais, mas a nova política de Nova York é a primeira a abranger todas as salas de audiência de um estado inteiro. “O motivo desta proibição é garantir que as pessoas não gravem clandestinamente os atos processuais, violando a Lei de Direitos Civis do Estado de Nova York e as normas judiciais aplicáveis”, dizia um memorando interno do Sistema Judicial Unificado do Estado de Nova York.

RECURSOS DO DISPOSITIVO SOB COBRANÇA (PAYWALL)

No início deste mês, a Meta começou a restringir o recurso Conversation Focus (Foco na Conversa) em seus óculos inteligentes, que amplifica as vozes próximas em ambientes barulhentos. Anteriormente, essa função estava incluída nos óculos, mas agora os usuários recebem apenas três horas de uso mensal gratuito. Além disso (e até o limite de 15 horas), o recurso custará US$ 20 por mês, como parte do programa de assinatura Meta One Premium.

Essa mudança frustra as expectativas dos consumidores e é o exemplo mais recente de empresas de tecnologia tentando monetizar recursos que antes eram gratuitos. A reação negativa em redes sociais, como o Reddit, foi rápida e furiosa.

LEIS DE CONSENTIMENTO

Até o final do ano passado, 12 estados americanos (incluindo Califórnia, Flórida, Illinois, Maryland, Massachusetts, Connecticut, Montana, New Hampshire, Pensilvânia e Washington) exigiam que todas as partes envolvidas em uma conversa consintam com a gravação de áudio de comunicações privadas.

Como os óculos da Meta podem capturar áudio de forma passiva, isso levanta questões jurídicas sobre a responsabilidade de quem os usa, o que poderia resultar em penalidades criminais, incluindo potencial pena de prisão.

Entre outras questões pendentes: as pessoas ao redor consentem de forma significativa em serem gravadas? E as empresas podem proibir o uso desses dispositivos em seus estabelecimentos?

“O fato de muitos óculos de IA não possuírem indicadores de gravação evidentes (ou apresentarem apenas luzes de LED minúsculas que passam facilmente despercebidas) agrava o risco”, escreveu Joseph J. Lazzarotti, advogado da JacksonLewis. “Transcrições geradas por IA, feitas sem consentimento ou sequer conhecimento, levantam uma infinidade de problemas.”


SOBRE O AUTOR

Chris Morris é jornalista, escritor, editor e apresentador especializado em tecnologia, games e eletrônicos. saiba mais