O burnout de quem vive para agradar os outros

O esgotamento nem sempre é causado pelo excesso de trabalho, mas pelo hábito de sacrificar as próprias necessidades e valores para atender às expectativas de todo mundo

Homem de terno com o rosto borrado representa perda de identidade no trabalho
O autoabandono pode surgir quando profissionais ignoram as próprias necessidades e valores para atender às expectativas dos outros.Créditos: Jorge Alvarado via Unsplash

Samka Keranovic 7 minutos de leitura

Eu costumava achar que o burnout era um problema de organização da agenda.

Se eu conseguisse apenas reestruturar meu calendário, proteger minhas manhãs, dizer não a mais uma reunião — eu encontraria o caminho de volta. Eu fui vice-presidente e, depois, diretora de operações (COO). Eu sabia como otimizar processos. Eu era boa nisso. Então, quando comecei a me sentir vazia, apesar de atingir todas as métricas que deveriam significar sucesso, fiz o que pessoas de alto desempenho costumam fazer: trabalhei mais, reestruturei de forma mais inteligente e disse a mim mesma que só precisava chegar o próximo trimestre que ia melhorar.

Eu estava errada sobre quase tudo.

O burnout não veio da minha carga de trabalho. Veio de algo para o qual eu ainda não tinha nome: um padrão, que durou anos, de abandonar minhas próprias necessidades, meu julgamento e meus limites para manter todos ao meu redor confortáveis ​​e satisfeitos. O trabalho era quase um detalhe, o trabalho era apenas o veículo. O verdadeiro dano estava acontecendo em um nível mais profundo.

O MITO QUE IMPEDE O SUCESSO DE PESSOAS DE ALTO DESEMPENHO

Construímos toda uma indústria em torno da ideia de que o burnout é um problema de produtividade . Descanse mais. Delegue melhor. Estabeleça limites. Tire férias. 

Essas não são sugestões ruins. Mas elas tratam o burnout como um problema de gestão de tempo e recursos, quando na verdade, é um problema de identidade. 

Os profissionais de alto desempenho com quem trabalho como coach ( executivos, fundadores, profissionais de destaque em diversos setores)  não estão sofrendo de burnout porque trabalham muitas horas. Eles estão sofrendo de burnout porque passaram anos se tornando menores, mais silenciosos e mais palatáveis. Eles priorizaram o conforto de todos os outros em detrimento da própria clareza, dos seus limites e do seu senso de identidade. 

Isso não é excesso de trabalho. Isso é autoabandono. E a cura é bem diferente.

Isso não é excesso de trabalho. É autoabandono. E a solução é muito diferente.

COMO O AUTOABANDONO APARECE NO TRABALHO

Entre profissionais de alto desempenho, o autoabandono raramente parece fraqueza. Ele costuma parecer competência.

É a executiva que assume mais um relatório porque ninguém mais dará conta e diz sim antes mesmo de verificar se realmente quer fazer aquilo. É o fundador que suaviza toda mensagem difícil, dilui cada conversa delicada e nunca chega a dizer exatamente o que pensa — porque passou a vida inteira interpretando o ambiente e se ajustando a ele.

O burnout não um problema de gestão, é um problema de identidade. 

É a líder que toma todas as decisões calculando qual delas decepcionará menos pessoas, em vez de considerar o que realmente acredita ser certo.

Essas pessoas não são líderes ruins. Muitas vezes, são as melhores da sala. Mas, por trás do desempenho, existe um desgaste silencioso: da confiança no próprio julgamento, do contato com as próprias preferências e da capacidade de saber o que realmente querem, separadamente daquilo que todos ao redor precisam que elas queiram.

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Esse desgaste não permanece silencioso para sempre.

OS TRÊS SINAIS QUE A MAIORIA DAS PESSOAS NÃO PERCEBE

No meu trabalho, percebi que o autoabandono crônico se manifesta de três maneiras específicas antes que o burnout se instale por completo. E a maioria das pessoas de alto desempenho foi treinada para enxergar as três como virtudes.

1. Um cansaço de tomar decisões que não tem relação com falta de informação. 

Quando você está desconectado dos próprios valores e necessidades, toda decisão se transforma em um cálculo. Você não está apenas avaliando opções. Está tentando prever as reações dos outros. Isso é exaustivo de um modo que nenhum volume adicional de dados será capaz de resolver.

2. Um ressentimento sem origem aparente. 

Pessoas de alto desempenho que abandonam a si mesmas costumam ser generosas, competentes e extremamente confiáveis. Mas também sentem uma raiva silenciosa: das pessoas que continuam exigindo coisas delas, dos sistemas que recompensam sua submissão e de si mesmas por não conseguirem simplesmente sentir gratidão. O ressentimento é o sinal. É o próprio eu tentando chamar sua atenção.

3. Um sucesso que não provoca sentimento algum. 

É isso que leva a maioria dos meus clientes ao coaching. Eles alcançam a meta. Conseguem a promoção, fecham o negócio, constroem a equipe. E não sentem nada — ou, pior, têm a vaga sensação de terem sido enganados. Esse vazio não é ingratidão. É um retorno importante. Significa que aquela meta talvez nunca tenha sido realmente deles.

O QUE A RECUPERAÇÃO DE FATO EXIGE

É aqui que a discussão convencional sobre burnout se engana: recuperação não é apenas descanso.

Descansar é necessário. Mas passar uma semana em Sedona e depois retornar aos mesmos padrões de identidade significa apenas voltar com mais energia para repetir o mesmo problema.

A verdadeira recuperação do autoabandono exige reconstruir a relação interna que foi negligenciada: a relação consigo mesmo. Mais especificamente, exige três coisas que a maioria das pessoas de alto desempenho nunca foi ensinada a fazer de forma explícita.

Primeiro, reconectar-se com às próprias prioridades antes de tentar atender às dos outros. Parece simples, mas não é. Muitos dos meus clientes realmente não sabem o que querem em uma situação antes de já terem mapeado o que todas as outras pessoas desejam. Aprender a olhar para dentro primeiro, mesmo nas pequenas decisões, é uma prática — e precisa ser reconstruída deliberadamente.

Segundo, suportar o desconforto de decepcionar outras pessoas. Pessoas que tentam agradar a todos e que se doam de forma excessiva não evitam conflitos porque são fracas. 

Elas fazem isso porque, em algum momento da vida, aprenderam que suas necessidades criavam problemas para os outros. Desaprender isso exige conviver com o desconforto de ver alguém decepcionado e descobrir que você sobrevive a isso e que, muitas vezes, a relação também sobrevive.

Terceiro, tomar decisões com base em valores, e não na imagem que será transmitida. Pessoas de alto desempenho são excelentes em teoria dos jogos. Sabem como uma decisão será recebida, quem ficará satisfeito e o que ela sinalizará. O que muitas vezes praticam menos é tomar uma decisão simplesmente porque ela corresponde a quem são e àquilo em que acreditam — independentemente da forma como será interpretada.

O ARGUMENTO DO DESEMPENHO

Caso o argumento relacionado à identidade não seja suficiente, considere o impacto no desempenho.

Uma líder que não sabe o que realmente quer transmite sinais pouco confiáveis à equipe. Um fundador que molda todas as mensagens para administrar as reações do público não está construindo uma cultura empresarial clara — está criando um reflexo das expectativas de todos. Uma executiva incapaz de tolerar a decepção dos outros não conseguirá tomar as decisões difíceis que qualquer estratégia acaba exigindo.

Isso não é um conceito de bem-estar. É infraestrutura de liderança.

O autoabandono não tem apenas um alto custo pessoal. Ele também custa caro para as organizações. Os líderes que conseguem sustentar um alto desempenho ao longo do tempo são aqueles que continuam reconhecíveis para si mesmos — que possuem um ponto de referência interno estável, que não muda a cada novo stakeholder, nova pressão ou novo trimestre.

POR ONDE COMEÇAR

Caso alguma dessas ideias faça sentido para você, este é um primeiro passo honesto: durante uma semana, antes de concordar com qualquer coisa — um pedido, um projeto ou uma obrigação —, faça uma pausa e formule uma pergunta antes de calcular o que os outros desejam: O que eu realmente quero nesta situação?

Você não precisa agir de acordo com a resposta. Precisa apenas conhecê-la. É no espaço entre aquilo que você quer e aquilo que faz que o autoabandono se instala. Dar nome a essa distância é o começo de algo diferente.

O objetivo não é deixar de se importar com os outros. É parar de desaparecer completamente da equação. Seu melhor trabalho sempre exigiu a sua presença nele, por inteiro, não apenas de forma funcional.


SOBRE A AUTORA

Samka Keranovic é cofundadora da Desert Roots Wellness e coach certificada em transformação, neurociência, recuperação de traumas e pr... saiba mais