Designer usa IA para criar roupas sem desperdício de tecido

A startup SXD redesenha moldes com inteligência artificial para reduzir quase a zero as sobras de tecido — sem mudar a rotina das fábricas ou dos consumidores.

Modelos usando roupas criadas pela SXD aparecem diante da plataforma de inteligência artificial que redesenha moldes para reduzir o desperdício de tecido.
Créditos: SXD

Elizabeth Segran 9 minutos de leitura

Ao entrar no setor de corte de praticamente qualquer fábrica de roupas do mundo, você verá pilhas de rolos e restos de tecido. Um técnico organiza os moldes sobre o material para recortar as partes que formarão a peça: mangas, bolsos e corpo.

O problema é que essas partes nunca se encaixam perfeitamente. Ao redor das curvas de uma manga, do recorte de uma gola ou do afunilamento de uma costura lateral, sempre sobram espaços .

O problema é que as peças nunca se encaixam perfeitamente. Ao redor das curvas de uma manga, do entalhe de uma gola e do estreitamento de uma costura lateral, sempre sobram espaços vazios — retalhos em forma de lascas ou crescentes que precisam ser contornados no corte e descartados. Esse resíduo é conhecido na indústria como desperdício de corte e costura. A maioria dos consumidores nunca pensa nisso, pois o processo ocorre muito antes de a roupa chegar à loja.

Esses retalhos são conhecidos na indústria como resíduos de corte e costura. Mas, somados, eles formam um dos maiores — e menos discutidos — problemas da indústria da moda. Segundo estimativas do setor, entre 10% e 15% do tecido é perdido durante o processo de corte.

Esse desperdício importa porque o tecido é o insumo mais caro de uma peça de roupa, representando até 70% de seu custo total de produção. E também tem um impacto ambiental, já que cada retalho descartado carrega consigo a água, a energia e as emissões de carbono utilizadas para produzi-lo.

SXD QUER REDUZIR O DESPERDÍCIO DE TECIDO COM IA

Desenhos técnicos mostram o molde, as alças e as instruções de montagem de um avental desenvolvido pela SXD.
O avental foi redesenhado para aproveitar melhor o tecido e reduzir as sobras durante o corte.

Shelly Xu quer reduzir esse desperdício a zero. Sua empresa, a SXD, é uma startup de 15 funcionários que desenvolve um software de ia capaz de reestruturar moldes de roupas, fazendo com que as peças se encaixem como em um quebra-cabeça, sem deixar sobras. Um ponto fundamental é que a solução não exige que as fábricas alterem seus processos; ela se integra perfeitamente ao sistema atual.

O mais importante é que a solução não exige que as fábricas mudem seus processos: ela se integra ao sistema que já existe.

“Isso não muda a maneira como as pessoas costuram o tecido”, afirma Xu. “Você apenas corta as partes em formatos diferentes, para que ocupem menos espaço sobre o material.”

A SXD acaba de fechar uma rodada pré-seed de US$ 4,5 milhões, liderada pela Initialized Capital, que recebeu mais interessados do que o previsto. Depois de quatro anos desenvolvendo a tecnologia, a empresa está pronta para ganhar escala.

A startup mantém parcerias com a H&M Foundation , com a Uniqlo e com as livrarias Coop, das universidades Harvard e MIT. Também acaba de assinar um contrato de vários anos com uma das maiores gravadoras do mundo para transformar produtos de turnês musicais em itens sem desperdício.

Além disso, prepara-se para lançar projetos com um grupo europeu de vestuário que atende clientes como Uniqlo e Ralph Lauren.

UMA INFÂNCIA MARCADA PELA ESCASSEZ

Shelly Xu, fundadora da SXD, veste uma peça vermelha com gola rosa volumosa.
Shelly Xu criou a SXD depois de estudar desenvolvimento sustentável, moda e programação. Foto: Joe Thomas/Sustain/courtesy SXD]

Xu associa a ideia por trás da empresa ao pequeno apartamento em que cresceu. Ela foi criada em Hefei, na província chinesa de Anhui, não muito distante de Nanjing.

O imóvel que dividia com os pais tinha poucas dezenas de metros quadrados. Fazer a vida caber naquele espaço era um quebra-cabeça diário. A família dormia em colchões que precisavam ser dobrados e guardados pela manhã e comprava apenas alimentos suficientes para uma ou duas refeições.

Xu também testemunhou áreas verdes próximas à sua casa se transformarem em depósitos de lixo. Vi pessoalmente o quão prejudicial o desperdício pode ser", diz ela.

Essas experiências a ensinaram a enxergar as limitações como um desafio de design. Ela costuma citar a ideia atribuída a Picasso de que são as restrições que libertam a criatividade. Para Xu, ter recursos limitados não é um obstáculo ao bom design.

“Designs realmente bons podem surgir da compreensão de que vivemos em um planeta com recursos limitados”, diz.

Para explorar essas ideias, Xu estudou desenvolvimento sustentável na Universidade Columbia, onde pesquisou maneiras de tornar a indústria da moda mais ecológica.

Também aprendeu sozinha a desenhar roupas e a programar. Em seguida, começou a desenvolver uma plataforma que permitiria a designers criar moldes de roupas sem desperdício.

SXD A IA SEM DESPERDÍCIOS

Para testar a tecnologia, ela criou uma pequena coleção, costurou 200 peças à mão e abriu uma conta no Instagram para apresentá-las. A Shelly Xu Design rapidamente acumulou 20 mil seguidores. Compradores pagaram milhares de dólares por suas peças, e a coleção se esgotou.

Xu decidiu não destacar o aspecto sustentável do processo de produção. Queria mostrar que era possível criar roupas bonitas que, por acaso, também não geravam desperdício.

“Mesmo sem saber que é sustentável, as pessoas precisam conseguir perceber que é um bom design”, afirma. A resposta positiva convenceu Xu de que havia um negócio por trás da tecnologia.

Embora empresas de software como Lectra e Dassault Systèmes já desenvolvam soluções para reduzir o desperdício nas áreas de corte das fábricas, nenhuma delas havia conseguido criar designs totalmente livres de resíduos.

Estudante carrega uma sacola azul da Harvard University criada pela SXD com técnicas de produção sem desperdício.
A sacola da Harvard Coop utiliza 30% menos material que um modelo convencional e não gera resíduos no corte.A sacola da Harvard Coop utiliza 30% menos material que um modelo convencional e não gera resíduos no corte. Crédito: SXD

Xu, então, ingressou na Harvard Business School para entender como transformar sua ideia em um negócio lucrativo. “Pessoas como eu, que adoram criar bons produtos, podem ser péssimas nos negócios, porque não estão pensando em como construir uma empresa capaz de se sustentar”, diz.

Quando se formou, em 2021, a recém-criada SXD venceu a New Venture Competition de Harvard, conquistando tanto o prêmio principal quanto o voto popular. Entre os vencedores de edições anteriores da competição está a Grab, considerada a “Uber do Sudeste Asiático”.

QUANDO O DESPERDÍCIO VIRA UM PROBLEMA MATEMÁTICO

Graças ao prêmio, professores de Harvard apresentaram Xu a especialistas que poderiam ajudá-la a desenvolver a empresa.O reitor da faculdade de engenharia a conectou a Takeo Igarashi, professor de inteligência artificial da Universidade de Tóquio, que a ajudou a estruturar o software. Mais tarde, Xu contratou uma aluna de Igarashi, a engenheira de pesquisa Maria Larsson.

A empresa desenvolveu um sistema que usa IA para transformar qualquer peça de roupa em um design sem desperdício.

Interface da plataforma da SXD mostra uma roupa verde ao lado das partes de seu molde reorganizadas para aproveitar melhor o tecido.
O sistema calcula o tecido disponível e reorganiza as partes do molde para reduzir as áreas descartadas. Crédito: SXD

De muitas maneiras, o processo de corte e costura de uma roupa continua bastante antiquado.

A maioria das fábricas utiliza moldes padronizados para cortar as peças no tecido, que depois são costuradas por trabalhadores usando máquinas. Os técnicos tentam aproveitar o máximo possível do material, mas, mesmo com ferramentas digitais, é comum desperdiçar 10% ou mais do tecido. Xu encara a questão como um problema matemático.

“Algumas fábricas usam moldes de roupas que literalmente não mudam há séculos”, afirma.

O software calcula exatamente quanto tecido está disponível e organiza as partes do molde em configurações pouco convencionais, reduzindo o desperdício para 1% ou menos. Desde então, a equipe passou a enfrentar desafios ainda mais complexos, como a variação de tamanhos.

Um mesmo modelo pode precisar existir em uma dezena de numerações, desde roupas infantis até tamanhos plus size. Até agora, segundo Xu, “era necessário redesenhar manualmente cada molde para cada tamanho. Nossa plataforma faz isso em segundos, com o apertar de um botão”.

No início, a SXD trabalhava apenas com formatos geométricos, mais fáceis de adaptar a designs sem desperdício. Agora, a equipe desenvolve ferramentas que permitirão criar roupas com curvas, como mangas afuniladas e pernas de calças.

“A ideia era que os designs sem desperdício precisavam ser sempre formados por retângulos”, afirma Xu. “Estamos questionando essa ideia.”

DE SACOLAS A BANCOS DE CARRO

Uma das primeiras parcerias da SXD foi com a Harvard Coop, a livraria da universidade, cujos produtos com a marca da instituição são populares entre estudantes e turistas. Xu começou com uma sacola vertical, com bolsos internos e alças reforçadas feitas a partir de retalhos que normalmente seriam descartados.

“Quando você produz uma sacola, os cantos geralmente são cortados e desperdiçados”, afirma. “Então decidimos usar esses cantos para reforçar as alças.”

A bolsa utiliza 30% menos material do que uma sacola convencional, não gera resíduos e é produzida com tecidos de estoque antigo, que poderiam acabar em aterros sanitários.

As sacolas se esgotaram rapidamente. A Coop, então, pediu a Xu que criasse camisetas e aventais com a marca da universidade.Esses produtos também se esgotaram em poucas semanas, e a SXD agora tenta repor os estoques.

Três pessoas usam camiseta, avental e sacola desenvolvidos pela SXD para a Harvard Coop.
A SXD criou camisetas, aventais e sacolas para a Harvard Coop com técnicas que reduzem o desperdício de tecido. Crédito: SXD

Em setembro, o MIT contratou a empresa para desenvolver produtos para seu principal evento, o MIT Solve.

As coleções de Harvard e do MIT funcionaram como campos de teste — uma forma de experimentar o design sem desperdício e colocar a empresa em operação.

Agora, as ambições da SXD são muito maiores.

A empresa trabalha com o Busana Group, da Indonésia, um dos maiores fabricantes de roupas do mundo, que produz quase dois milhões de camisas masculinas por mês.

Transformar esse volume em uma produção sem desperdício permitiria economizar quantidades imensas de tecido.

Xu também está entrando na indústria automotiva. Os tecidos utilizados em veículos são tão caros que os fornecedores disputam cada pequeno ganho de eficiência e comemoram até as menores economias.

“Para alguns clientes, a meta é economizar 1%”, afirma. “Mas mostramos que conseguimos economizar mais de 20%, o que representa uma enorme redução de custos.”

Há anos, ativistas ambientais pedem que os consumidores comprem menos roupas e usem as peças por mais tempo.

A mensagem alcançou algumas pessoas, mas mudar o comportamento do consumidor em larga escala tem se mostrado extremamente difícil.

A vantagem dessa tecnologia sem desperdício é que ela não exige nada dos compradores.

A camisa tem a mesma aparência, o mesmo caimento e o mesmo preço. Ainda assim, chega ao mercado com uma pegada ambiental muito menor.

Como resume Xu: “Você consegue criar algo tão desejável quanto — ou até mais — usando metade do material.”


SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, Ph.D., é colunista na Fast Company. Ela mora em Cambridge, Massachusetts. saiba mais