Escolas de IA estão se espalhando. Mas a promessa ainda não convence a ciência
Estudos mostram que inteligência artificial melhora o aprendizado quando apoia professores, mas não há evidências de que supere professores humanos

Nos últimos 10 anos, a Alpha School, uma escola privada com fins lucrativos focada em inteligência artificial, expandiu sua atuação de um único campus em Austin, no Texas, para mais de 15 unidades nos Estados Unidos, incluindo cidades como Nova York e São Francisco.
A Alpha School faz parte de um grupo cada vez maior de escolas particulares de educação básica centradas em IA, como a Unbound Academy e a Khan Lab School. Os pais podem escolher essas instituições para seus filhos pagando anuidades que, em alguns casos, variam entre US$ 40 mil e US$ 75 mil.
MacKenzie Price, uma das fundadoras da Alpha School, costuma criticar o modelo tradicional de ensino, que considera "tamanho único": todos os alunos estudam o mesmo conteúdo, embora aprendam em ritmos diferentes.
Sal Khan, fundador da plataforma educacional Khan Academy, também defende que a inteligência artificial pode oferecer a cada estudante um tutor personalizado, capaz de responder às suas necessidades específicas.
A ideia de uma educação mais personalizada pode fazer sentido em muitos casos. O problema é que ela pode criar uma falsa dicotomia, na qual todos os programas de IA são vistos como motivadores e adaptáveis, enquanto toda aula tradicional é reduzida a exposições monótonas. A realidade é bem mais complexa que isso.
A PROMESSA DOS TUTORES DE IA
Na Alpha School, o ensino presencial tradicional para alunos da educação básica foi substituído por tutores de IA personalizados. Leitura, matemática e outras disciplinas são condensadas em um bloco diário de duas horas de estudo.
Esse período é complementado por oficinas presenciais e pelo acompanhamento de profissionais chamados pela escola de "coaches" ou "guides", que nem sempre possuem formação ou licença para atuar como professores.
Esses encontros abordam habilidades não acadêmicas, como oratória e empreendedorismo, além de artes e educação física.

Quando se trata da parte conduzida pela IA, há evidências claras de que o ensino personalizado traz benefícios. Uma ampla revisão publicada pelo National Bureau of Economic Research em 2020 mostrou que diferentes modalidades de tutoria realizada por humanos produziram ganhos consistentes de aprendizagem em diversas disciplinas e faixas etárias.
Já um estudo da Brookings Institution, publicado em 2026, concluiu que a IA melhora os sistemas de tutoria assistida por computador ao permitir que os estudantes conversem com o programa usando linguagem natural. A IA generativa também consegue adaptar as atividades de acordo com o progresso e as dificuldades de cada aluno.
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Até agora, porém, não existem evidências sólidas de que tutores baseados em IA ou outros sistemas computadorizados sejam superiores aos tutores humanos, embora muitas vezes possam representar uma alternativa mais barata.
Em vez de substituir professores por inteligência artificial, uma estratégia mais promissora é ajudá-los a utilizar essas ferramentas para aprimorar sua prática pedagógica.
A IA PODE SUBSTITUIR O PROFESSOR?
Sistemas de ensino assistido por computador e plataformas de tutoria inteligente existem desde a década de 1970.
Essas tecnologias foram desenvolvidas para adaptar o conteúdo ao desempenho dos estudantes à medida que eles resolvem exercícios, problemas e questionários. Diversos estudos mostram que elas aumentam o desempenho acadêmico quando utilizadas como complemento às aulas presenciais.
No entanto, uma ampla análise de pesquisas concluiu que, embora esses sistemas melhorem os resultados dos alunos em comparação com o ensino baseado apenas em livros didáticos ou com algumas formas de instrução em sala de aula, eles não apresentam vantagens significativas quando comparados diretamente à tutoria realizada por pessoas.
uma estratégia mais promissora é ajudar os professores a utilizar a tecnologia para aprimorar sua prática pedagógica.
Mais recentemente, um estudo publicado em 2025 encontrou efeitos positivos importantes da tutoria baseada em IA sobre o desempenho dos estudantes em diferentes disciplinas e níveis escolares.
Outro estudo bastante citado, também de 2025, comparou os efeitos do aprendizado ativo em sala de aula com um tutor de IA desenvolvido especialmente para uma disciplina introdutória de física em Harvard.
Os alunos que utilizaram o tutor de IA afirmaram ter aprendido o conteúdo mais rapidamente e se sentido mais motivados do que aqueles que receberam ensino presencial especializado.
Ainda assim, esse experimento apresentava limitações importantes: os participantes já eram estudantes altamente motivados, com bons hábitos de estudo, e o tutor de IA havia sido desenvolvido pelos próprios professores responsáveis pela disciplina.
IA COMO INSTRUMENTO DE APOIO AO ENSINO
As afirmações de que a tutoria por IA supera o ensino em sala de aula consideram apenas parte das evidências disponíveis.
A inteligência artificial pode, de fato, ser extremamente útil quando utilizada para apoiar o trabalho dos professores. Um estudo de 2024 mostrou melhora no desempenho de estudantes de escolas de ensino fundamental localizadas em regiões de baixa renda quando professores tiveram acesso ao suporte de ferramentas de IA.
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Outra pesquisa, publicada em 2026, revelou que professores mais experientes costumam fazer revisões críticas dos planos de aula produzidos por IA, adaptando-os para que se integrem melhor ao currículo.
Em vez de imaginar um futuro em que escolas de IA substituam os professores, talvez o desafio mais importante seja descobrir quais formas de apoio e desenvolvimento profissional permitirão que os educadores utilizem, da melhor maneira possível, essas novas e complexas ferramentas.
Este artigo foi republicado do site The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.