Economia circular ganha força no Brasil, mas enfrenta o desafio de chegar na população 

Pesquisa mostra que quatro em cada dez pessoas nunca ouviram falar sobre o conceito, mesmo com o crescimento da agenda no país.

Mão segura pote de vidro diante de símbolo de reciclagem, representando a economia circular
A economia circular propõe manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível.

Beatriz Felizardo 4 minutos de leitura

A economia circular tem ganhado força no Brasil, propondo uma nova forma de produzir, consumir e descartar produtos e materiais. No entanto, ainda permanece distante do conhecimento da população,quatro em cada dez brasileiros nunca ouviram falar sobre o assunto. Levantamento do Movimento Plástico Transforma, realizado em parceria com a QualiBest, mostrou que, dos 57% que afirmam conhecer o tema, 45% têm apenas um entendimento superficial sobre o assunto. 

Durante a pesquisa, realizada no primeiro semestre de 2026, 74% dos brasileiros afirmaram estar dispostos a mudar de hábitos de consumo para gerar menos resíduos. Na prática, porém 14% devolvem produtos aos fabricantes com frequência após o fim do ciclo de vida. 

A economia circular é um modelo de produção e consumo que busca manter produtos, materiais e recursos em uso pelo maior tempo possível, reduzindo a extração de matérias-primas e a geração de resíduos. 

O conceito se contrapõe ao modelo econômico linear, baseado na lógica de extrair, produzir, consumir e descartar,  considerado um dos principais fatores de pressão sobre os recursos naturais e do agravamento das crises socioambientais.

A ECONOMIA CIRCULAR NA PRÁTICA 

Para Vinicius Saraceni, idealizador do Movimento Circular, a economia é “uma estratégia de sustentabilidade que busca garantir que os recursos extraídos sejam utilizados no seu mais alto valor pelo maior tempo possível.”

Nesse contexto, a economia circular surge como uma alternativa para redesenhar os sistemas produtivos, priorizando a reutilização, o reparo, a remanufatura e a reciclagem de materiais. Um exemplo prático desse tipo de economia é comprar roupas em brechós, prolongar a vida útil de produtos, consertar objetos,comprar, reformar e repassar móveis usados, e repassar entre amigos e familiares. 

Muitas pessoas  já adotaram as práticas mesmo sem conhecer o conceito. Redes como a Cresci e Perdi demonstram que quando há oferta e conveniência, o consumidor vai incorporar o modelo de consumo. 

O conceito também desempenha um papel importante no enfrentamento das mudanças climáticas. Saraceni exemplifica que 55% do desafio climático está relacionado à transição energética e 45%  ao nosso estilo de vida, ou seja, a forma como extraímos, produzimos e consumimos. Nesse ponto a economia circular responde por quase metade da solução da crise climática. 

Segundo a organização internacional de sustentabilidade Global Footprint Network, o Dia da Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day) de 2026 será em 30 de julho. A partir dessa data, a humanidade passa a consumir mais recursos naturais do que o planeta é capaz de regenerar em um ano, o chamado "cheque especial" ecológico. Nesse contexto, a economia circular surge como uma estratégia para reduzir a pressão sobre os recursos naturais, prolongando o uso de materiais e diminuindo a necessidade de novas extrações. 

O BRASIL E A IMPORTÂNCIA DA CIRCULARIDADE

No Brasil, um dos principais marcos da economia circular foi a criação da Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC), em 2024, que estabeleceu as primeiras diretrizes nacionais para orientar políticas públicas voltadas ao tema. Além disso, o Ministério da Fazenda incluiu a economia circular no Eixo 5 do Plano de Transformação Ecológica, reforçando sua inserção na agenda econômica do país. 

Na visão de Saraceni, houve um grande amadurecimento da agenda desde 2023.  Entre os exemplos está a incorporação do tema à agenda de desenvolvimento industrial do governo federal, por meio da Nova Indústria Brasil (NIB). 

O DESAFIO CONTINUA 

Os avanços, no entanto, não significam que a implementação da economia circular esteja consolidada. Segundo Saraceni, o modelo ainda depende do fortalecimento de incentivos fiscais, da ampliação de linhas de financiamento de longo prazo e da construção de um marco legal mais robusto para ganhar escala no país.

Os dados do Movimento Plástico Transforma evidenciam que um dos principais desafios para ampliar a economia circular no Brasil ainda é o desconhecimento sobre o tema.  Para Saraceni, porém a responsabilidade não pode cair no consumidor,  "O desafio ainda está no andar de cima: grandes organizações, governos e prefeituras. Eles viram o ponteiro do sistema", afirma. 

JÁ DEIXOU DE SER SÓ SUSTENTABILIDADE 

Hoje a economia circular é tratada como uma estratégia econômica e de inovação, que vai além de uma agenda ambiental ou práticas de ESG (meio ambiente, social e governança, na sigla em inglês). Para Saraceni, esse movimento pode ser observado em iniciativas como a produção de biometano a partir de resíduos. 

Segundo ele, o estado de São Paulo tem potencial para substituir até 40% do diesel consumido por caminhões com biometano produzido em aterros sanitários. O aterro de Caieiras é um exemplo dessa lógica: o gás gerado pelos resíduos abastece os próprios caminhões de coleta, fechando o ciclo dos materiais na prática. 


SOBRE A AUTORA

Beatriz Felizardo é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, apaixonada por direitos humanos e curiosa sobre as transformaç... saiba mais