“Fearless girl”, a estátua de Manhattan, vira marca própria

A renda da venda dos produtos será destinada a instituições de caridade dedicadas a capacitar a próxima geração de líderes femininas

"Fearless girl", a estátua de Manhattan, vira marca própria e lança produtos
Crédito: State Street

Elizabeth Segran 5 minutos de leitura

Por muitos anos, a estátua do Touro de Wall Street (Charging Bull, no original em inglês) foi o ícone do distrito financeiro nova-iorquino, representando o poder de um mercado em alta. Mas, na última década, ela foi ofuscada por uma escultura bem diferente.

A Fearless Girl (“Menina Destemida”), que fica na Broad Street, em frente à Bolsa de Valores de Nova York, é uma menina pequena com as mãos apoiadas nos quadris, erguendo o queixo em sinal de desafio.

Para as milhões de pessoas que lhe prestam homenagem todos os anos, ela personifica o poder que as meninas têm de resistir ao patriarcado e, com coragem, conquistar espaços onde historicamente não eram bem-vindas, incluindo o setor financeiro.

Quase uma década depois de a menina ter surgido no distrito financeiro de Nova York, a State Street – a gigante financeira que a encomendou – quer transformar a Fearless Girl em mais do que apenas uma estátua.

A empresa está lançando uma iniciativa coordenada para transformá-la em uma marca e plataforma global, com uma nova identidade visual e um site em que pessoas de todo o mundo possam expressar o que a escultura significa para elas.

“Ela terá seu próprio canal nas redes sociais e outros espaços para que as pessoas possam interagir com ela”, afirma Yie-Hsin Hung, presidente e CEO da State Street Investment Management.

A estátua foi encomendada à artista Kristen Visbal para o Dia Internacional da Mulher de 2017, instalada em frente ao Touro de Wall Street. Ela fazia parte de uma campanha de marketing em torno de um fundo negociado em bolsa da State Street, que permitia aos clientes investir em empresas com uma alta proporção de mulheres em cargos de liderança sênior.

"Fearless girl", a estátua de Manhattan, vira marca própria
Crédito: State Street

Era para ser uma ação temporária. O plano era deixá-la por cerca de uma semana encarando o Touro de Wall Street, de Arturo Di Modica. Mas rapidamente a Fearless Girl se tornou um fenômeno. Turistas faziam fila para fotografá-la. Pais posavam com suas filhas ao lado dela.

Di Modica protestou, alegando que sua própria escultura havia sido transformada em vilã para vender um produto financeiro. Em 2018, a prefeitura transferiu a Fearless Girl para alguns quarteirões mais ao norte, para sua localização atual, de onde ela agora olha diretamente para a Bolsa de Valores.

RESSIGNIFICANDO O SÍMBOLO

O significado da estátua evoluiu à medida que a cultura foi mudando. No começo, ela tinha como objetivo celebrar o progresso que as mulheres haviam alcançado até aquele momento na conquista de posições de liderança no mundo corporativo dos EUA.

Mas, alguns anos depois, quando o movimento #MeToo se espalhou pelo país, a “Fearless Girl” tornou-se um ponto de peregrinação para mulheres que enfrentavam assédio e discriminação.

Hoje, ela se encontra em um cenário diferente, no qual os programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) estão sendo desmantelados sob pressão do governo Trump e de ativistas conservadores. “Há uma década, estávamos em um momento diferente”, diz Hung. “É claro que ela transcendeu aquela época.”

Era para ser uma ação temporária mas, rapidamente a Fearless Girl se tornou um fenômeno.

A State Street não ficou imune à redução de programas de DEI. No ano passado, a companhia deixou de exigir que as empresas incluídas em seus fundos de índice divulgassem a composição de gênero, raça e etnia de seus conselhos de administração e garantissem que todos tivessem pelo menos 30% de conselheiras.

Foi uma mudança notável para uma empresa que ajudou a criar um ícone do avanço das mulheres no setor financeiro.

Hoje, a State Street reinterpreta a Fearless Girl como símbolo de algo maior do que a representação feminina. “Valorizamos uma diversidade mais ampla”, diz Hung. “Quando você observa as pessoas que a visitam, não são apenas mulheres e meninas. São pais, irmãos e avôs. É a mesma visão que temos na State Street: valorizar uma ampla gama de perspectivas e origens.”

Mas, mesmo com a State Street tentando redefinir a Fearless Girl para que ela não seja mais vista exclusivamente como uma representação feminina – e sim como um símbolo de “força, resiliência e otimismo”, como diz Hung –, a estátua ainda parece ter maior repercussão entre mulheres e meninas.

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Hung se lembra de ter visitado o distrito financeiro há alguns meses, antes do início das negociações, quando avistou uma mãe com uma filha de cerca de seis anos. A criança estava em frente à estátua, imitando a pose.

A mãe contou a Hung que a filha vinha enfrentando problemas de ansiedade na escola. Agora, quando se sente preocupada, a menina finge ser a Fearless Girl.

IGUALDADE DE GÊNERO SOB ATAQUE

A State Street está oferecendo aos admiradores da estátua uma maneira mais organizada de compartilhar essas histórias. Até agora, essas manifestações de apoio estavam espalhadas pelas redes sociais; o novo site vai centralizá-las.

A empresa também está lançando uma coleção de produtos cuja renda será destinada a instituições de caridade dedicadas a capacitar a próxima geração de líderes, além de guias para excursões educacionais em sala de aula.

"Fearless girl", a estátua de Manhattan, vira marca própria
Crédito: State Street

O lançamento começa com uma festa de rua em frente à bolsa de valores nesta sexta-feira (24 de julho), dando início a um ano de programação que vai culminar no 10º aniversário da estátua, em março de 2027.

Visbal, a artista que criou a Fearless Girl, não estará presente nas comemorações. A State Street a processou por quebra de contrato e violação de marca registrada depois que ela começou a vender réplicas da estátua; as duas partes chegaram a um acordo no ano passado.

a autora da estátua Fearless Girl, Kristen Visbal
Kristen Visbal (Crédito: Divulgação)

“Temos um bom relacionamento com a artista”, diz Hung. “Nosso foco não está tanto na história da escultura, porque, quando se trata de arte, sempre há esse nível de debate. Estamos bem mais focados no futuro dela.”

O mundo mudou muito desde que a Fearless Girl pisou em Wall Street, e nem sempre de uma forma que tenha beneficiado mulheres e meninas.

O ideal da igualdade de gênero está sob ataque. Mas a garota de bronze permanece impassível, encarando uma instituição muito maior do que ela.

Ela sugere que o futuro ainda está por ser escrito, e que as meninas que se inspiram nela hoje ainda podem fazê-lo.


SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, Ph.D., é colunista na Fast Company. Ela mora em Cambridge, Massachusetts. saiba mais