O que é a machosfera? Entenda por que ONU e Unicef fizeram um alerta

A publicação ajuda famílias a entender como esse universo se espalha no ambiente digital

Machosfera
O fenômeno reúne diferentes grupos e costuma alcançar jovens de forma gradual. (Foto: Freepik)

Lilian Campos 2 minutos de leitura

Vídeos sobre academia, relacionamentos, dinheiro, jogos ou desenvolvimento pessoal podem parecer inofensivos. No entanto, alguns deles funcionam como porta de entrada para comunidades digitais que difundem misoginia e ideias rígidas sobre o que significa ser homem.

Esse ambiente é conhecido como machosfera. Para ajudar famílias a entender como ele funciona, a ONU Mulheres e o Unicef lançaram o guia No Mesmo Time – Guia de Conversas para Pais e Responsáveis.

A publicação mostra que o contato com esses discursos nem sempre começa por mensagens abertamente ofensivas. Em muitos casos, a aproximação acontece aos poucos, por meio de conteúdos cotidianos e recomendações feitas pelas próprias plataformas.

O QUE ESTÁ POR TRÁS DA MACHOSFERA?

De acordo com o guia, a machosfera reúne comunidades, influenciadores e espaços digitais voltados a discussões sobre masculinidade, mulheres, relacionamentos e papéis de gênero.

Esses grupos não são todos iguais, mas muitos compartilham discursos que culpam mulheres por frustrações pessoais, apresentam a igualdade de gênero como uma ameaça e reforçam comportamentos baseados em controle, hostilidade ou superioridade masculina.

O material também destaca que essas mensagens podem ser apresentadas como conselhos, entretenimento ou explicações supostamente simples para inseguranças e dificuldades comuns.

POR QUE ESSE CONTEÚDO NEM SEMPRE É FÁCIL DE IDENTIFICAR?

Um dos principais alertas do guia é que a machosfera não aparece apenas em fóruns ou páginas assumidamente misóginas.

Seus discursos podem estar misturados a conteúdos sobre exercícios físicos, sucesso financeiro, autoestima, humor, jogos e técnicas de relacionamento. Essa combinação torna mais difícil perceber quando uma recomendação aparentemente comum começa a reforçar preconceitos.

Além disso, expressões próprias, piadas e referências internas ajudam a normalizar essas ideias entre os participantes.

COMO OS ALGORITMOS PODEM AMPLIAR A EXPOSIÇÃO?

Segundo o guia, o contato com a machosfera costuma ocorrer de forma gradual. Ao assistir ou interagir com determinado tipo de vídeo, o usuário pode receber sugestões cada vez mais próximas daquele conteúdo.

Assim, um jovem que inicialmente procura dicas sobre academia, namoro ou autoconfiança pode passar a receber publicações com mensagens mais radicais sobre mulheres e masculinidade.

A repetição aumenta a familiaridade com essas ideias e pode fazer com que discursos prejudiciais pareçam normais ou amplamente aceitos.

ONU MULHERES E UNICEF FAZEM ALERTA

A preocupação está no impacto que a exposição contínua pode causar. De acordo com o guia, esses discursos podem contribuir para a normalização da misoginia, prejudicar relacionamentos e reforçar comportamentos de desrespeito, intolerância e violência.

Por isso, a publicação busca preparar pais e responsáveis para reconhecer o fenômeno e conversar com crianças e adolescentes sem começar pelo confronto ou pela punição.

A orientação é criar espaço para o diálogo, conhecer melhor a vida digital dos jovens e ajudá-los a analisar criticamente os conteúdos que consomem.


SOBRE A AUTORA

Lilian Campos é jornalista colaboradora da Fast Company Brasil. saiba mais