Machosfera: quem são os ‘incels’ e por que eles preocupam ONU e Unicef?
As organizações alertam para sinais de envolvimento com comunidades online que disseminam misoginia e discursos de ódio

A crescente influência de comunidades conhecidas como "incels" tem chamado a atenção de organizações internacionais. Em um guia lançado pela ONU Mulheres e pelo Unicef, o grupo é apontado como uma das portas de entrada para discursos de ódio contra mulheres e meninas, especialmente entre adolescentes e jovens.
Segundo as entidades, compreender o significado desse termo e reconhecer mudanças de comportamento pode ajudar famílias e responsáveis a identificar sinais de alerta antes que ideias extremistas se consolidem.
O QUE SÃO OS INCELS?
A palavra "incel" é a abreviação de involuntary celibate ("celibatário involuntário", em tradução livre). O termo passou a ser usado por comunidades online formadas, principalmente, por homens que acreditam ser incapazes de estabelecer relacionamentos afetivos ou sexuais e atribuem essa situação às mulheres ou à sociedade.
De acordo com a ONU Mulheres e o Unicef, parte desses grupos compartilha narrativas marcadas por ressentimento, misoginia e rejeição à igualdade de gênero. Em casos mais extremos, esses espaços incentivam a desumanização das mulheres e reforçam discursos que normalizam violência, assédio e discriminação.
As organizações ressaltam que nem toda pessoa que enfrenta dificuldades em relacionamentos faz parte desse movimento. A preocupação está na adesão a comunidades que promovem ideias extremistas e alimentam o ódio contra mulheres e meninas.
SINAIS DE ALERTA QUE MERECEM ATENÇÃO
O guia da ONU Mulheres e do Unicef destaca que alguns comportamentos podem indicar aproximação com comunidades misóginas na internet. Isoladamente, esses sinais não confirmam envolvimento com grupos extremistas, mas merecem atenção quando aparecem em conjunto ou se intensificam ao longo do tempo.
Retraimento social
- passa a participar pouco de conversas nas quais antes compartilhava opiniões e experiências;
- demonstra isolamento crescente no convívio social.
Maior envolvimento com comunidades online
- passa mais tempo na internet;
- começa a defender ideias rígidas ou recém-adotadas sobre as mulheres, diferentes das compartilhadas pelas pessoas ao seu redor;
- mantém sigilo sobre suas atividades online.
Afastamento de amigos e familiares
- perde o interesse por relacionamentos presenciais;
- passa a depender principalmente de comunidades virtuais que compartilham as mesmas visões;
- afasta-se de colegas e familiares.
Mudanças de atitude
- demonstra desconfiança ou hostilidade em relação às mulheres;
- passa a fazer comentários frequentes sobre "masculinidade", força ou necessidade de dominar outras pessoas.
Comportamento desdenhoso com mulheres e meninas
- menospreza opiniões, contribuições ou a autoridade de mulheres, incluindo professoras e figuras públicas;
- utiliza piadas ou comentários que desumanizam mulheres sob o argumento de ser apenas "humor";
- reduz mulheres à aparência física ou compartilha mensagens, memes, vídeos e comentários de cunho sexual ou ofensivo.
POR QUE O TEMA PREOCUPA?
Segundo a ONU Mulheres e o Unicef, a exposição contínua a conteúdos da machosfera pode reforçar estereótipos de gênero, incentivar discursos de ódio e dificultar a construção de relações baseadas no respeito e na igualdade.
Por isso, o guia recomenda que pais, responsáveis e educadores mantenham um diálogo aberto com crianças e adolescentes sobre o conteúdo consumido na internet, incentivando o pensamento crítico e conversas sobre respeito, convivência e igualdade de gênero.