Humanos conseguem ler essa fonte, mas a IA não

Designer usa IA para criar fonte invisível para outras IAs e pode inspirar novas formas de proteger conteúdos da leitura automatizada

Designer usa IA para criar fonte invisível para outras IAs
Crédito: Mixfont

María José Gutierrez Chavez 3 minutos de leitura

Quando uma amiga próxima do engenheiro de software Eric Lu percebeu que sua avó estava perdendo as habilidades motoras, pediu que ela escrevesse seu nome em uma folha de papel como lembrança. Talvez, no futuro, pudesse até transformá-lo em uma tatuagem.

Mas, graças a Lu e à inteligência artificial, aquela caligrafia foi digitalizada e transformada em uma fonte que ela poderá usar sempre que quiser.

Para Lu, a relação entre tecnologia e tipografia – e os benefícios que ela pode trazer para pessoas como sua amiga – desperta interesse há muitos anos.

Foi por isso que, em 2016, ele lançou a Mixfont, que começou como uma ferramenta para combinar fontes tipográficas e evoluiu para um laboratório de pesquisa dedicado a explorar como a IA pode interagir com a tipografia.

"A tipografia é uma daquelas coisas que você só percebe quando passa a prestar atenção. Depois disso, começa a enxergá-la em todos os lugares", afirma Lu.

Ele vê a Mixfont como uma exploração contínua de como a tecnologia pode "desempenhar um papel maior na tipografia", oferecendo diferentes ferramentas, incluindo um gerador de fontes baseado em inteligência artificial. Mas seu projeto mais recente inverte essa lógica: usa IA para desafiar a própria IA.

Batizada de Ghost Font, a novidade propõe um uso para fontes que vai além do design tipográfico. Embora Lu a chame de fonte, ela funciona mais como uma ferramenta tipográfica dinâmica capaz de gerar vídeos em movimento.

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O trabalho foi inspirado na fonte ZXX, criada em 2013 pelo designer Sang Mun, que utilizava ruído visual para confundir sistemas de reconhecimento óptico de caracteres (OCR). A Ghost Font adapta essa ideia para a era da IA.

Em vez de recorrer apenas a padrões gráficos, ela utiliza movimento para esconder mensagens à vista de todos. Centenas de pequenos pontos formam palavras em animação que podem ser lidas facilmente por pessoas, mas aparecem apenas como ruído para modelos de IA e também em capturas de tela estáticas.

Lu testou a fonte em modelos de ponta, como Claude Fable e GPT Sol 5.6 Ultra. Ambos tiveram dificuldade para interpretar o conteúdo em um primeiro momento, embora usuários na internet depois tenham descoberto formas de orientar os chatbots para decifrar as mensagens.

"Mesmo que isso não consiga impedir completamente a leitura, só o fato de desacelerar o processo e oferecer uma camada inicial de proteção já é útil. E isso pode beneficiar muita gente", diz Lu.

Uma aplicação prática desse conceito seria a atualização dos sistemas CAPTCHA, já que a IA se tornou cada vez mais eficiente em reconhecer imagens estáticas. Segundo Lu, incorporar movimento ou vídeo torna muito mais difícil para robôs automatizados decifrarem os códigos, sem prejudicar a leitura por seres humanos.

Designer usa IA para criar fonte invisível para outras IAs
Crédito: Reprodução de tela/ Mixfont

Embora a Ghost Font adote uma postura mais adversária em relação à IA, as demais ferramentas da Mixfont, utilizadas por mais de 10 mil pessoas por dia, mostram o lado prático da tecnologia para designers e usuários comuns.

É possível, por exemplo, enviar uma imagem da própria caligrafia ou fotografias de fontes encontradas no mundo real e transformá-las em um arquivo TTF.

usuários na internet descobriram formas de orientar os chatbots para decifrar as mensagens.

Também é possível descrever, por meio de comandos em linguagem natural, o tipo de fonte desejado, com pedidos como: "crie uma fonte sem serifa moderna que possa ser usada em logotipos de startups".

Além de baixar o arquivo para utilizá-lo em projetos de design, os usuários também podem vender as fontes criadas, independentemente de utilizarem o plano gratuito ou pago da Mixfont. "O objetivo é só explorar como a IA pode ser aplicada a diferentes áreas e, especificamente, à tipografia", afirma.

Lu reconhece a ironia desse trabalho, que surge justamente em um momento de intenso debate sobre o papel da inteligência artificial no universo do design.

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"Minha relação com a IA é de amor e ódio", reconhece. "Existem muitas questões delicadas, como o impacto sobre outras pessoas. Mas, de forma geral, acredito que a IA pode ajudar as pessoas a serem mais criativas e tornar possíveis coisas que antes não eram."


SOBRE A AUTORA

María José Gutierrez Chavez é editora associada da Inc. e da Fast Company. Antes de ingressar na Mansueto Ventures, estagiou no The Bo... saiba mais