9 afrofuturistas latinas e caribenhas para você conhecer
Neste Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, fizemos uma lista com artistas e pensadoras do afrofuturismo para você acompanhar

Hoje é Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, data reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992. Neste dia 25 de julho, no Brasil, também é celebrado o Dia de Tereza de Benguela, em homenagem à líder e heroína do Quilombo do Quariterê (ou Quilombo do Piolho) entre os anos de 1750 e 1770, no atual estado de Mato Grosso.
Considerando a tensão entre passado e futuro, que faz parte de discussões decoloniais e afrofuturistas, a Fast Company Brasil preparou uma lista com artistas e pensadoras negras da América Latina e Caribe e que trabalham justamente nesta intersecção, mesclando tempos e possibilidades.
Numa entrevista à CBC Arts, a jamaicana Nalo Hopkinson disse: "Para a população negra, imaginar um futuro é um ato radical.” A escritora, que apresentamos nesta lista, transmite o ponto principal daquilo que move o afrofuturismo, termo que surgiu na crítica literária estadunidense nos anos 90 para representar as obras de artistas como Octavia Butler.
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Ao mesclar ancestralidades e tradições com tecnologias e especulações sobre o que pode ser o futuro de uma população até hoje oprimida, os afrofuturistas buscam narrativas de libertação numa realidade ainda marcada pelo legado da escravidão. Hoje, o movimento abrange também a música, o cinema (caso de Pantera Negra, filme da Marvel de 2018), teatro, e artes visuais.
NALO HOPKINSON

Antes de se instalar no Canadá, onde leciona escrita criativa na Universidade de British Columbia, a escritora passou seus primeiros 16 anos de vida na sua nativa Jamaica, na Guiana, e em Trinidad e Tobago. Ela escreve ficção científica, ficção especulativa, e fantasia. "Chame-os como quiser, meus romances e contos são repletos do irreal, do futurista, do improvável, do impossível", escreve em seu site. Em sua obra, traz a cultura, linguagem, e histórias caribenhas, como em Brown Girl in the Ring (1998), livro que se passa numa Toronto pós-apocalíptica em que a protagonista Ti-Jeanne descobre segredos sobre sua família. Quando lecionava na Universidade da Califórnia, Hopkinson fez parte do Speculative Futures Collective ("Coletivo de Futuros Especulativos", em português).
GÊ VIANA

Natural de Santa Luzia, no Maranhão, Gê Viana (@indiiloru) é artista visual, vencedora do Prêmio PIPA 2020. Usa fotografia e fotomontagem em sua prática artística, misturando imagens de arquivo, memória oral, e colagem. Tem obras na Pinacoteca de São Paulo e Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-Rio). “As imagens de arquivo que trago são imagens que ainda carregam um trauma histórico do nosso povo, então pensei num modo de apropriação para trazer outras narrativas, que trabalhem possibilidades mais felizes, pois sinto que nossa felicidade está em risco", disse ao Projeto Afro.
Viana é negra e indigena, e produz trabalhos decoloniais que questionam imagens já existentes; é o caso da série “Atualizações traumáticas de Debret", que apresenta personagens negros brasileiros presentes nas pinturas de Jean-Baptiste Debret. Se, nas gravuras do francês, as pessoas negras geralmente apareciam executando atividades relacionadas à escravidão, servindo aos portugueses no Rio de Janeiro do século XIX, Viana os coloca em posição de lazer, dançando, comendo, ou celebrando.
CLAIRE A. NELSON

Também jamaicana, Nelson trabalha de forma multidisciplinar: é futurista, engenheira de sustentabilidade, empreendedora social e contadora de histórias. Além de criar um gênero de performance narrativa chamado prospective memoir (em tradução livre, "narrativas prospectivas de memória”), é também uma das líderes do The Futures Forum, iniciativa de pesquisa e educação especializada em aplicar o poder da previsão estratégica e a disciplina da engenharia da sustentabilidade aos desafios enfrentados por organizações e comunidades. Nelson foi eleita pela Forbes, em 2020, uma das Top 50 Futuristas Mulheres, e é autora do monólogo Moon Runnings: The Life & Times of the First Jamaican on the Moon (“Moon Runnings: A Vida e a Trajetória do Primeiro Jamaicano na Lua", em tradução livre).
LU AIN-ZAILA

Natural de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, é pedagoga e escritora. Luan Ain-Zaila autora da duologia "Brasil 2408", formada por "(In)Verdades” (2016) e “(R)Evolução" (2017), na qual Ena, uma jovem negra, descobre segredos do pai que foi morto num atentado quando era pequena. O cenário é um Brasil distópico, que virou um país tecnológico depois de um apocalipse climático. A artista também trabalha em subgêneros como o solarpunk, movimento que pensa o futuro a partir da sustentabilidade, e publicou, em 2019, a novela cyberfunk “Ìségùn”, que acompanha Zuhri, detetive do Núcleo de Combate a Crimes de Ordem Ambiental Humana, em sua jornada para resolver um assassinato.
XÊNIA FRANÇA
É cantora e compositora, vencedora do Grammy Latino de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa em 2023. Nasceu no interior da Bahia e é radicada em São Paulo. Em seu primeiro álbum solo, lançado em outubro de 2017 e intitulado “XENIA”, a artista mistura jazz, samba-reggae, música eletrônica e R&B. Dentre as faixas do álbum está "Nave", que conta com um videoclipe de estética afrofuturista.
O clipe abre com imagens do espaço, onde a astronauta solitária Xaniqua anda por um planeta pedregoso. No meio do vídeo, um cristal lilás funciona como fone bluetooth, que a conecta com imagens e sons de um passado representado por cortes de "Espaço Sagrado" filme de 1975 sobre um terreiro de candomblé em Cachoeira (BA), dirigido por Geraldo Sarno.
Numa análise sobre o videoclipe, Rafael de Queiroz, Doutor em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), aponta: “Nave (2019), ao trazer uma narrativa de ficção científica, de viagens espaciais, está refletindo o estranhamento e a sensação de deslocamento comuns às subjetividades afrodiaspóricas".
YOLANDA ARROYO PIZARRO

Natural de Guaynabo, Porto Rico, Yolanda é romancista e ensaísta. Escreve com frequência sobre vivências e direitos da comunidade LGBTQIA+, e, em 2015, ela e a esposa se tornaram o primeiro casal homoafetivo a oficialmente se casar em Porto Rico. Ano passado, reeditou seu livro de 2012, Las Negras (“As Negras", em tradução livre), que traz contos inspirados em histórias reais de mulheres escravizadas caribenhas.
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Na nova versão, há três contos afrofuturistas que se passam em 2229, durante um julgamento no Tribunal de Investigações sobre Genocídios e Documentos Relacionados. Respondendo a uma pergunta do El País sobre essa adição e à tentativa de trazer dignidade aos afrodescendentes, disse: “Nas minhas oficinas de criação literária com crianças, faço um exercício: nos vestimos como personagens futuristas, com trajes de astronauta, óculos escuros e coroas. Imaginamos um futuro de reis e rainhas. Então, conto a eles que, no passado, também já fomos essas pessoas, porque na África, antes da escravidão, existiram impérios. Fazemos isso para explicar que, no passado, fomos esse futuro.”
SANDRA MENEZES

Jornalista e escritora carioca, Sandra Menezes é autora de “O Céu Entre Mundos” (2021), finalista do Prêmio Jabuti em 2022 e vencedor do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica do mesmo ano. A história se passa em 2273, no planeta Wangari, e acompanha a protagonista Karima. A personagem é uma engenheira ambiental preta, que chega à Terra como refugiada. O livro mescla conflitos sociais, tecnologia, e identidade africana, e fez parte de um projeto escolar de literatura afrofuturista em Campinas, dedicado a ajudar alunos negros a se empoderarem. Além desse título, Menezes publicou “A Outra Face, contos afrofantásticos", em 2025.
FABIOLA JEAN-LOUIS

Moradora do Brooklyn nova-iorquino, Fabiola Jean-Louis nasceu em Port Au Prince, capital do Haiti. É ativista e artista visual, e trabalha misturando fotografia, escultura, e papel. Foi a primeira mulher haitiana a exibir uma obra no Metropolitan Museum, em 2021, na exposição Before Yesterday We Could Fly: An Afrofuturist Period Room (“Antes de Ontem, Nós Podíamos Voar: Um Salão de Época Afrofuturista", em tradução livre), que rejeitava a perspectiva de um período histórico único, trazendo a interconexão entre passado, presente, e futuro.
A escultura feita por Jean-Louis para o projeto remete a um corset do século XIX, que traz em um broche um retrato de Ezili Dantor, espírito Loá do vodu haitiano e que é ligada aos soldados que lutaram pela Revolução Haitiana de 1804. Sobre a escultura, Jean-Louis disse: “A imaginação negra e a manifestação da liberdade eram, na verdade, o que eu buscava. E minha sensação de que as raízes e a magia estão, de fato, no centro da nossa força e identidade, e são algo que sempre nos ajudou a seguir em direção ao futuro e nos deu força no presente.”
PÉROLA E ISA SOUZA (@afrofuturas)

As irmãs são escritoras, pesquisadoras, e fomentadoras da literatura. Por isso, têm diversos projetos de incentivo aos livros, como o @leiarepresentatividade. São fãs de ficção científica e especulativa e não só tratam do gênero em suas redes sociais, explorando a intersecção de gênero, raça, e classe, como publicaram as antologias Vozes Negras e Raízes do amanhã: 8 contos afrofuturistas. O último título conta com textos da cearense G.G. Diniz e do capixaba Stefano Volp.