O que significa o “adeus ao físico” da Sony
Com até 85% das vendas de jogos já concentradas no formato digital, a Sony encerrará a produção de discos físicos para novos títulos em janeiro de 2028

A Sony anunciou uma mudança histórica para o ecossistema PlayStation: a produção de discos físicos para todos os novos jogos lançados nos consoles da marca será encerrada a partir de janeiro de 2028.
Com a decisão, todos os títulos inéditos lançados após essa data estarão disponíveis exclusivamente em formato digital, tanto na PlayStation Store quanto em lojas físicas, que passarão a vender apenas códigos para resgate dos jogos.
Para Gustavo Giglio, especialista em marketing e criador da comunidade Bifrost, a digitalização é praticamente irreversível, impulsionada tanto pela estratégia das empresas quanto pela mudança de hábitos dos consumidores. O formato digital reduz custos de produção e distribuição, dificulta a pirataria e oferece maior controle sobre as vendas.
OS PASSOS DA SONY RUMO AO DIGITAL
Embora o anúncio tenha chamado atenção, a estratégia da Sony em direção ao mercado digital vem sendo construída há alguns anos. Em 2020, a empresa lançou o PlayStation 5 em duas versões: uma com leitor de discos Blu-ray Ultra HD e outra totalmente digital, sem suporte a mídias físicas.
Em 2023, com a chegada do PS5 Slim, o leitor deixou de fazer parte do console e passou a ser vendido separadamente como um acessório destacável para a versão digital.
Além das mudanças no hardware, a Sony também vem fortalecendo seu ecossistema digital por meio da PlayStation Store, incentivando a compra de jogos, expansões e conteúdos adicionais diretamente pela plataforma.
A empresa também ampliou seus serviços por assinatura, como o PlayStation Plus, que oferece acesso a um catálogo de jogos por meio de download ou streaming, reduzindo ainda mais a dependência de mídias físicas.
De acordo com Giglio, o avanço do digital não significa necessariamente o desaparecimento simbólico da mídia física. Para ele, quando um produto deixa de ser o padrão, passa a adquirir um novo significado.
Assim como aconteceu com discos de vinil e tênis de edição limitada, jogos físicos podem ganhar valor como itens de coleção, ligados à memória, identidade e pertencimento.
O VALOR DA MÍDIA FÍSICA PARA OS JOGADORES
Esse aspecto emocional é justamente um dos maiores desafios dessa transformação. "Existe uma perda importante. Coleções contam histórias, ocupam espaço na casa, geram conversa, criam lembranças e funcionam como uma extensão da identidade das pessoas. Uma biblioteca digital é extremamente prática, mas é invisível”, afirma Giglio.

Na visão do especialista, a Sony dificilmente perderá a maior parte dos consumidores por causa dessa decisão, já que a maioria já compra jogos em formato digital. Segundo dados divulgados pela própria Sony, em 2025 cerca de 80% a 85% dos jogos completos vendidos para PlayStation já foram adquiridos por download na PlayStation Store.
No entanto, ele alerta que o grupo mais impactado é justamente um dos mais influentes dentro da comunidade gamer. Colecionadores, criadores de conteúdo e fãs que frequentam eventos ajudam a construir a cultura dos videogames e exercem forte influência sobre a percepção da marca.
FIM DA MÍDIA FÍSICA: PROPRIEDADE LÍQUIDA
Outro ponto levantado por Giglio é a preservação dos jogos. Diferente de um disco físico, que continua funcionando independentemente da fabricante, um jogo digital depende de servidores e licenças.
“Quando um servidor é desligado ou uma licença expira, parte dessa história pode simplesmente desaparecer. É diferente de um livro ou de um DVD físico, que continuam existindo independentemente da empresa. A preservação digital ainda é um desafio que precisa envolver fabricantes, desenvolvedores e instituições culturais", afirma Giglio .
Uma biblioteca digital é extremamente prática, mas é invisível.
A mudança também reacende dúvidas sobre propriedade. Muitos consumidores acreditam que estão comprando um produto, quando, na prática, adquirem apenas uma licença de uso. O acesso ao conteúdo fica condicionado às regras da plataforma – uma realidade já comum em serviços de filmes, músicas e softwares.
Diante desse cenário, Giglio acredita que as empresas precisarão encontrar novas formas de fortalecer o vínculo com os jogadores. Se antes o objeto ocupava espaço na estante e reforçava o sentimento de pertencimento, agora esse papel deverá ser exercido por comunidades, programas de recompensas, eventos, experiências exclusivas e colecionáveis digitais.
Um mercado totalmente digital beneficia principalmente os fabricantes e as plataformas, que passam a controlar toda a cadeia de distribuição e relacionamento com o consumidor. Em contrapartida, varejistas, o mercado de jogos usados e os próprios jogadores perdem direitos importantes, como a possibilidade de revenda.

Giglio acredita ainda que essa discussão deve ultrapassar o universo dos games. Com o crescimento do mercado digital, órgãos de defesa do consumidor e parlamentares já começam a questionar quais direitos os compradores possuem sobre os jogos online.
Embora a tendência seja de que empresas como a Sony mantenham uma estratégia global, o especialista avalia que a pressão regulatória deve aumentar nos próximos anos, exigindo mais transparência sobre o que realmente significa "comprar" um jogo em formato digital.
Mais do que uma mudança de formato, o fim da mídia física transforma a relação dos consumidores com os videogames. Se antes possuir um jogo significava guardar uma caixa na estante, emprestá-la, revendê-la ou preservá-la por décadas, o futuro aponta para um modelo baseado em acesso, licenças e serviços digitais.
Resta saber se a indústria conseguirá equilibrar conveniência e direitos do consumidor em uma era na qual a propriedade se torna cada vez mais virtual.