Há mais avós na academia do que na cadeira de balanço
A cadeira de balanço continua, mas, ao lado dela, estão avós que seguem descobrindo novas formas de viver a própria avosidade

“Hoje é mais fácil encontrar uma avó na academia do que na cadeira de balanço”. Essa reflexão da psicanalista e escritora Lidia Aratangy – em entrevista exclusiva para a pesquisa Tsunami Prateado, em 2018 – é ainda mais atual em 2026.
Constatar que os avós de hoje são diferentes dos de outras gerações não significa que a Dona Benta, personagem do Sítio do Picapau Amarelo, que há décadas habita o nosso imaginário, tenha desaparecido.
Na verdade, ela continua sendo bem celebrada, em um momento de efervescência cultural latino-americana, no qual artistas como Bad Bunny e Anitta recuperam e divulgam memórias familiares, tradições e símbolos de ancestralidade.
O que precisa ser atualizado é a ideia de que existe apenas um jeito de ser avó. Até porque a própria Dona Benta já se digitalizou. Está no grupo de WhatsApp da família, enviando mensagens de bom dia, compartilhando figurinhas de fé e aprendendo novas técnicas de artesanato pelo YouTube.
A avó que acabei de descrever é a minha. Ela se chama Maria Auxiliadora, tem 80 anos e se apresenta como Aux. Em muitas áreas da vida, foi e continua sendo muito mais moderna e inovadora do que eu, que tenho 35 anos.
Ao lado da Dona Aux, a extensão da vida abriu espaço para muitas outras formas de exercer a "avosidade". O data8, instituto de pesquisa especializado no comportamento dos brasileiros 50+, do qual sou uma das fundadoras, identificou seis perfis da maturidade:
- Exploradores: gostam de experimentar novidades e são compradores assíduos na Shopee e no Mercado Livre;
- Sábios: transformam repertório em conselho e não dispensam uma boa conversa (como o meu avô);
- Agregadores: mantêm a família conectada, perfil no qual Dona Aux se encaixa muito bem;
- Cuidadores: aqueles que ainda sustentam boa parte da rotina familiar;
- Em Pausa: levam uma vida mais tranquila e concentrada em casa;
- Autossuficientes: práticos e independentes, como a minha mãe, recém-chegada à avosidade.
Há, inclusive, It Avós, termo cunhado pela influenciadora 70+ Rosangela Marcondes para classificar as criadoras de conteúdo prateadas. A expressão é alusiva às it girls, jovens mulheres que ditam tendências e que são cheias de personalidade.
Você, avó ou avô, se reconheceu em algum desses perfis ou logo pensou em alguém? Para aprofundarmos essa conversa, vale acrescentar alguns números a essa história e compreender por que falar sobre maturidade não deveria se limitar ao Dia dos Avós, celebrado neste domingo (26 de julho).
A MATURIDADE QUE CHEGOU NÃO ESTAVA NO PLANO
O Tsunami Prateado, essa grande transformação provocada pela transição demográfica, é impulsionado por três motores combinados: a escala (62 milhões de brasileiros já passaram dos 50 anos); a mudança de comportamento dessa população – foco deste artigo –; e o impacto econômico que ela gera sobre as famílias, o mercado e o país.
Os novos dados do Tsunami Prateado 2026 – tracking pioneiro no Brasil, que mapeou os hábitos de comportamento e consumo dessa população em 2018, 2021 e 2026 – ajudam a dimensionar o segundo pilar dessa transformação: o comportamental.
O uso cotidiano da internet, por exemplo, já alcança 87% dos brasileiros 50+, ante 70% em 2021. E não se trata apenas de entrar no WhatsApp para conversar com os filhos.

O celular, que já era a ferramenta preferida para realizar transações, consolidou esse protagonismo: o uso de aplicativos bancários cresceu 31%, a compra de passagens aéreas pelo celular avançou 50% e os aplicativos de delivery registraram um salto de 82%.
São aqueles avós que mandam Pix, pesquisam destinos, pedem comida, acompanham a família pelas redes sociais e resolvem a própria vida pelo celular. E eles se sentem bem: sete em cada 10 brasileiros maduros afirmam estar em condições melhores do que imaginavam que estariam nessa idade.
Talvez essa seja uma das principais diferenças entre os avós de hoje e os de outras gerações. Muitas pessoas chegaram à maturidade esperando encontrar uma espécie de sala de espera da vida, com um roteiro já definido: aposentadoria, desaceleração, recolhimento.
O que precisa ser atualizado é a ideia de que existe apenas um jeito de ser avó.
No lugar disso, encontram tempo. Tempo para projetos, desejos, boletos, conflitos e para a busca da própria autonomia. Tempo também para olhar o que foi construído na primeira metade da vida e decidir o que ainda desejam fazer – ou com quem desejam se relacionar – na segunda metade.
A maturidade que havia sido prometida a essa geração não chegou. Em seu lugar, veio um porvir desconhecido, cheio de frio na barriga.
O médico e especialista em longevidade Alexandre Kalache chama essa fase de “gerontolescência”: uma transição entre a vida adulta e a velhice que, assim como a adolescência, ainda não tem papéis, comportamentos e fronteiras completamente definidos.
A CASA DE VÓ TAMBÉM MUDOU
Durante muito tempo, a “casa da vó” foi quase uma instituição brasileira. Era o endereço certo do almoço de todo domingo, das férias escolares, do bolinho de chuva, do docinho a qualquer hora e da sensação de que sempre havia uma avó ou um avô disponível para os netos. Mas isso vem mudando.
Dados do Tsunami Prateado mostram que, entre 2021 e 2026, a proporção de brasileiros 50+ que moram com os filhos caiu de 44% para 31% e a presença de netos ou bisnetos no domicílio recuou de 14% para apenas 4%.
Menos famílias sob o mesmo teto não é sinônimo de menos vínculo e afeto. A casa da avó virou um conceito ampliado, não somente físico, mas também digital: pode ser um grupo agitado no WhatsApp, uma chamada de vídeo, um almoço marcado com antecedência ou até uma viagem de aventura.
O uso cotidiano da internet já alcança 87% dos brasileiros 50+.
O que parece estar diminuindo é a expectativa de uma avó exclusivamente dedicada aos netos, o tal "netocentrismo". E aqui surge uma tensão contemporânea sobre a qual tenho refletido, principalmente a partir das minhas conversas com amigos e amigas millennials que se tornaram pais.
Os pais millennials vivem uma espécie de pequeno luto pela avó e pelo avô que seus filhos não terão. Embora sejam pais diferentes dos próprios pais, imaginavam reproduzir a própria infância: a avó sempre pronta, com comida na mesa, tempo disponível e disposição para assumir o cuidado com as crianças quando fosse necessário.
Em vez disso, encontraram avós que trabalham, fazem academia, viajam, estão em apps de relacionamento, têm hobbies e, muitas vezes, outros familiares para cuidar. Avós que amam os netos, mas que também têm uma vida própria, ativa, e uma rotina agitada.

Há, inclusive, avós que se preparam para uma nova profissão. Um exemplo é o curso livre Repórter 60+, idealizado pela jornalista Lilian Liang, que prepara os maduros para se tornarem jornalistas e produtores de conteúdo. Ou seja, profissionais que escrevem a nova história da maturidade no Brasil.
Ao mesmo tempo, há quem esteja se atualizando e se preparando para esse novo papel. Descobri com minha tia – que está prestes a se tornar avó – que já existem cursos para futuros avós.
São oficinas que discutem desde o lugar que eles ocuparão na família até as novas técnicas sobre amamentação, sono, alimentação e as recomendações mais atuais para os cuidados com o bebê.
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Ser avó deixou de ser um papel recebido pronto e transmitido apenas pela tradição e passou a envolver conversas e negociações entre gerações. Esse também é um dos efeitos da transição demográfica: viver mais transforma a todos, — filhos, pais, avós e netos.
A atualização do papel dos avós vem aparecendo em outras partes do mundo. No Zimbábue, o psiquiatra Dixon Chibanda criou o Friendship Bench, um modelo que capacita avós da comunidade para oferecer escuta e apoio a pessoas com ansiedade e depressão.
A iniciativa é inovadora porque rompe com um estereótipo: em vez de enxergar as pessoas mais velhas apenas como destinatárias de cuidado, dependentes ou problemas a serem resolvidos, reconhece que elas carregam experiências e conhecimentos que as tornam parte importante da solução.
AVÓS DE GENTE E DE PETS TAMBÉM
O próprio significado de ser avó ou avô também está se ampliando. Há avós biológicos, escolhidos e bichológicos. Avós que exercem a avosidade em novos arranjos familiares e redes de amizade. E há também quem se apresente, com muito orgulho, como avó ou avô de pets.
A longevidade também está permitindo algo historicamente extraordinário: mais gerações vivas e convivendo juntas. Com novos perfis de avós, surgem também os novos bisavós e, cada vez mais, tataravós capazes de acompanhar o crescimento, a formação e talvez até a vida adulta de seus descendentes.
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A árvore genealógica está ganhando mais camadas vivas, enquanto os papéis dentro dela se tornam menos rígidos. A cadeira de balanço, aquela do começo da nossa conversa, continua existindo. Mas, ao lado dela, estão avós que, com os anos a mais, seguem se transformando e descobrindo novas formas de viver a própria avosidade.