Esta loja online deixa você comprar tudo – sem gastar nada
Site que imita a Temu tenta combater o vício em compras, mas pode ter o efeito oposto

Calçados da ThreadTheory. Salgadinhos da CrunchCove. Gadgets da SkyScribe. Tudo isso está à venda no FakeHaul.com, um novo concorrente de marketplaces online como Temu e Shopee.
O site oferece a mesma variedade enorme de produtos e preços baixíssimos. A única diferença? Nenhuma das marcas, dos produtos ou dos preços do FakeHaul é real – e isso é totalmente intencional.
O FakeHaul pretende substituir sites como Temu não ao oferecer produtos melhores ou preços mais baixos, mas não oferecendo produto algum.
Em vez disso, busca reproduzir a experiência do varejo online, na expectativa de satisfazer a mesma vontade de fazer compras sem que os usuários precisem gastar um centavo.
A ASCENSÃO DOS SITES DE DOPAMINA
O FakeHaul é a mais nova plataforma da categoria dos “sites de dopamina”, um gênero emergente de aplicativos de entretenimento que tentam proporcionar aos usuários a mesma descarga de dopamina das compras online, mas sem a fatura do cartão de crédito no fim do mês.
É possível encher o carrinho, personalizar produtos, procurar ofertas e até finalizar o pedido – tudo isso sem comprar nada de verdade nem fornecer informações pessoais, como endereço de entrega ou forma de pagamento.
O site foi criado por Jack Yang, desenvolvedor de software que trabalha com inteligência artificial na Microsoft. O FakeHaul nasceu como um projeto pessoal de Yang, inspirado por alguém próximo que enfrenta dificuldades com compras por impulso.
“Percebi que a satisfação ocorria principalmente antes da compra: ao navegar, comparar, adicionar itens ao carrinho e esperar pela entrega”, diz Yang. “Eu queria descobrir se seria possível separar esse ritual de suas consequências financeiras.”
Mais adiante no desenvolvimento, ele se inspirou no FoodNeverComes, outro dos chamados sites de dopamina, que imita aplicativos de entrega de comida como o DoorDash.
Há também o Dopamine Shop, uma imitação descarada da Amazon, e o No Smoke Zone, um simulador de cigarro que busca reduzir o desejo por nicotina, em vez da vontade de fazer compras online.

“Os sites de dopamina me ajudaram a perceber que esse era um comportamento mais amplo e me deram uma forma de descrevê-lo, mas comecei o site para uso pessoal primeiro”, explica Yang. “O FoodNeverComes faz isso com uma única entrega falsa; o FakeHaul reproduz todo o ciclo de compras.”
Yang chegou a testar a exibição de produtos reais de marcas como Gucci e Louis Vuitton no site, mas os substituiu por versões geradas por IA para evitar problemas jurídicos quando o FakeHaul foi lançado.
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Nos dois primeiros dias no ar, o site registrou 550 visualizações de página feitas por 100 visitantes – um grupo pequeno, mas que demonstrou interesse genuíno e explorou os recursos da plataforma até o fim.
“Uma boa parcela dos usuários avançou bastante pelo funil, no lugar de simplesmente abandonar o site depois de entender a piada. Era esse o comportamento que eu esperava”, afirma.
UMA SOLUÇÃO OU UM NOVO PROBLEMA?
Embora tenha sido criado para substituir sites de compras viciantes como Temu e Shein, o FakeHaul também tem recursos capazes de criar hábitos.
Há uma roleta que pode ser girada uma vez por dia para liberar um cupom. Depois que o usuário finaliza um pedido falso, um recibo compartilhável mostra quanto dinheiro ele economizou ao comprar no FakeHaul em vez de recorrer a uma loja online de verdade.
Yang admite que ficou dividido quanto à inclusão desses recursos. Na visão dele, o sistema de recibos “pretende inverter a recompensa habitual” das compras online, permitindo que os usuários demonstrem orgulho pelo valor que deixaram de gastar.
Esses sites tentam proporcionar a mesma descarga de dopamina das compras, mas sem a conta do cartão no fim do mês.
“Torná-lo compartilhável foi uma tentativa de fazer com que o autocontrole parecesse algo digno de ser exibido”, acrescenta.
A roleta de cupons é “a parte mais complicada do ponto de vista ético”, diz Yang. “Ela foi criada para fazer as pessoas voltarem, mas o ideal é que seja aquilo que elas abram quando sentirem vontade de entrar na Temu ou na Shein".
Segundo ele, limitar o uso a uma vez por dia foi uma medida de proteção, para que o substituto não se transforme em mais um ciclo interminável. “É tênue a linha entre fazer uma paródia de um ciclo de engajamento e só colocar esse ciclo em prática, e não tenho certeza de que lado estou.”
Yang já recebeu opiniões divergentes sobre a eficácia do FakeHaul. A usuária que ele tinha em mente ao criar o site afirma que a plataforma a ajuda. “Ela sente vontade, navega e ‘compra’ no FakeHaul, e o impulso passa sem que haja uma compra real.” Mas outras pessoas que têm a compulsão de comprar online sentem o oposto.
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Quando Yang procurou o moderador de um subreddit voltado a pessoas viciadas em compras e perguntou se poderia divulgar o FakeHaul entre os usuários, recebeu uma resposta negativa.
O moderador explicou que “ensaiar o ritual de compra pode reforçar o ciclo que as pessoas em recuperação tentam romper, e uma dose falsa talvez não seja um substituto inofensivo”, podendo levá-las novamente ao ciclo do vício em compras.
“É por isso que continuo dizendo que este é um produto de entretenimento que traz consigo uma questão em aberto, e não um tratamento. Ainda não tenho usuários suficientes para dizer qual das duas visões é respaldada pelas evidências”, afirma Yang.
“Se um número esmagador de pessoas disser que ele funciona mais como um aquecimento do que como um ritual de recuperação, tenho um mecanismo para tirar o site do ar, porque essa não era minha intenção original.”