ChatGPT já faz profissionais trabalharem fora da própria área
Análise de mais de 800 mil mensagens mostra como a inteligência artificial está tornando mais fluidas as fronteiras entre profissões

A inteligência artificial pode transformar o mercado de trabalho antes mesmo de eliminar vagas. Uma nova análise da OpenAI mostra que profissionais já recorrem ao ChatGPT para executar atividades normalmente associadas a outras áreas — como criar materiais de marketing, resolver problemas de software, fazer cálculos financeiros ou interpretar normas.
O levantamento, obtido com exclusividade pela Axios, analisou mais de 800 mil mensagens relacionadas ao trabalho enviadas por usuários empresariais do ChatGPT nos Estados Unidos.
Entre os pedidos ligados a uma profissão específica, 44% envolviam atividades mais comumente realizadas por profissionais de outra área. Solicitações genéricas, como escrever e-mails ou agendar reuniões, foram excluídas desse cálculo.
Na prática, o ChatGPT está permitindo que profissionais ultrapassem os limites tradicionais de seus cargos — ainda que isso não signifique que tenham adquirido o conhecimento ou a experiência de um especialista.
“É provável que as fronteiras entre os empregos já estejam se tornando mais flexíveis por causa da IA”, afirmou Ronnie Chatterji, economista-chefe da OpenAI, à Axios.
QUAIS PROFISSÕES MAIS USAM A IA PARA ATRAVESSAR FRONTEIRAS
O cruzamento entre funções apareceu com maior frequência entre profissionais de atendimento ao cliente, design e recursos humanos. Nessas áreas, cerca de três quartos dos pedidos relacionados a uma ocupação envolviam atividades mais associadas a outro campo profissional.
Os percentuais apresentados pela OpenAI foram:
- atendimento ao cliente: 77%;
- design: 75%;
- recursos humanos: 69%;
- jurídico: 56%;
- marketing: 53%;
- vendas: 40%;
- finanças: 40%;
- engenharia: 28%.
Isso não significa, por exemplo, que 75% de todo o trabalho feito por designers tenha migrado para outras áreas. O percentual considera apenas as solicitações ao ChatGPT classificadas como ligadas a uma ocupação específica, depois da exclusão de tarefas comuns a diferentes profissões.
Os exemplos citados no levantamento incluem profissionais pedindo ajuda para produzir campanhas, solucionar questões técnicas, analisar números financeiros e compreender regulamentações.
O movimento ajuda a explicar por que a IA pode mudar primeiro o conteúdo dos empregos — e somente depois aparecer nas estatísticas de contratações e demissões. Enquanto isso, a inteligência artificial já se tornou uma das principais preocupações dos profissionais.
PEQUENAS EMPRESAS USAM A IA PARA PREENCHER LACUNAS
A tendência foi um pouco mais forte nas empresas menores. Entre usuários típicos do ChatGPT, quase 19% das solicitações profissionais feitas em pequenos negócios ultrapassavam as fronteiras da ocupação de quem havia enviado o pedido. Nas empresas maiores, o índice ficou perto de 16%.
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Uma possível explicação é estrutural. Companhias menores nem sempre têm equipes especializadas em jurídico, tecnologia, marketing ou finanças. Nesses ambientes, a IA pode funcionar como uma primeira camada de orientação para problemas que, em uma organização maior, seriam encaminhados a outro departamento.
Essa leitura, porém, ainda é uma hipótese. O levantamento não demonstra que a ferramenta esteja substituindo especialistas ou que as empresas tenham deixado de contratar profissionais dessas áreas.
O ESTUDO NÃO MEDE QUALIDADE NEM PRODUTIVIDADE
Os próprios pesquisadores alertam que os dados não permitem saber se o ChatGPT está levando profissionais a assumir novas responsabilidades ou apenas ajudando-os a executar tarefas que já faziam parte de seus cargos.
A análise também não avaliou a qualidade das respostas, o ganho de produtividade ou os efeitos sobre decisões de contratação.
Essa é uma limitação especialmente importante em áreas como direito, finanças e tecnologia. Conseguir gerar uma explicação, um cálculo ou um trecho de código não garante que o resultado esteja correto — nem elimina a necessidade de revisão por alguém com conhecimento especializado.
Uma pesquisa anterior da OpenAI, publicada em 2025, já havia identificado que o uso profissional do ChatGPT se concentra principalmente em obtenção e interpretação de informações, tomada de decisões e resolução de problemas. O novo levantamento acrescenta outra dimensão: essas atividades nem sempre permanecem dentro dos limites formais do cargo de cada usuário.
Mais do que substituir profissões inteiras, a IA começa a redistribuir pequenas tarefas entre pessoas, ferramentas e departamentos. A mudança pode parecer discreta, mas altera o que se espera de cada profissional — e quais conhecimentos as empresas consideram indispensáveis dentro de suas equipes.