“Ghost downsizing”: empresas reduzem equipes sem anunciar demissões

Pesquisa mostra que empresas menores deixam vagas abertas sem reposição e redistribuem tarefas entre funcionários e ferramentas de IA

Créditos: Leonardo Iribe/ Igor Omilaev/ Unsplash

Bruce Crumley 5 minutos de leitura

Os funcionários costumam prender a respiração sempre que uma grande empresa anuncia demissões atribuídas à capacidade da inteligência artificial (IA) de automatizar o trabalho. Mas novos dados sugerem que há outra ameaça, mais silenciosa, ao emprego: o chamado "ghost downsizing" ("enxugamento fantasma"), prática adotada por empresas menores que deixam de preencher vagas abertas e redistribuem as tarefas desses cargos entre os funcionários remanescentes e aplicativos baseados em IA.

É claro que gestores pedirem aos sobreviventes de uma rodada de demissões que assumam parte do trabalho dos colegas dispensados não é novidade. No passado, porém, o alívio costumava chegar quando as pressões financeiras diminuíam e as contratações eram retomadas. Agora, esse ciclo pode estar chegando ao fim.

Uma nova pesquisa da empresa polonesa de tecnologia Omni Calculator revelou que quase um terço dos funcionários percebe um aumento do "ghost downsizing", frequentemente em empresas que usam IA para automatizar parte das atividades dos cargos vagos. O trabalho que não pode ser realizado pelos aplicativos é redistribuído entre os funcionários restantes, permitindo que os gestores "mantenham ou aumentem a produtividade sem ampliar proporcionalmente o quadro de funcionários", afirma o relatório.

A DISTÂNCIA ENTRE A PERCEPÇÃO DE FUNCIONÁRIOS E EXECUTIVOS

Ao contrário das grandes empresas que anunciam demissões em massa associadas ao uso de IA, os líderes de negócios que promovem reduções graduais e discretas de pessoal raramente admitem que estejam fazendo isso. Já uma parcela significativa dos funcionários entrevistados afirma que essa prática está acontecendo.

"Uma das principais conclusões da pesquisa é a existência de uma diferença entre a percepção de funcionários e executivos sobre a compressão da força de trabalho", diz o relatório. "Entre os funcionários entrevistados, 30% disseram que suas equipes encolheram enquanto a carga de trabalho aumentou ou permaneceu a mesma. Entre os executivos, apenas 10% relataram esse mesmo cenário."

Identificar e quantificar essa divergência era um dos principais objetivos do levantamento. Além de registrar a percepção dos trabalhadores de que o "ghost downsizing" está em curso, a pesquisa também relaciona esse fenômeno a efeitos da adoção da IA que nem sempre são visíveis.

"Esses resultados sugerem que algumas mudanças na força de trabalho relacionadas à IA podem estar ocorrendo por meio da suspensão de contratações, do não preenchimento de vagas e da redistribuição de tarefas, em vez de anúncios amplamente divulgados de demissões", afirma o relatório.

Enquanto as demissões em massa motivadas pela IA nas grandes corporações geram manchetes e análises, as mudanças graduais provocadas pela tecnologia em empresas menores passam quase despercebidas. Segundo o estudo, a pesquisa busca ajudar empregadores, funcionários, analistas e o público em geral a entender como a adoção da IA está transformando as organizações antes que isso apareça oficialmente nos dados sobre redução de pessoal.

Entender esse fenômeno é importante porque a própria natureza do "ghost downsizing" dificulta sua identificação. Muitas vezes, leva tempo até que os funcionários percebam que essa dinâmica passou a fazer parte do ambiente de trabalho.

Além das diferenças de percepção entre funcionários e gestores sobre a existência dessa redução silenciosa de pessoal, também há divergências sobre como, por que e quando a IA está sendo adotada nas pequenas empresas — e quais são seus impactos.

Um dado chama atenção: 43% dos funcionários e 53% dos executivos afirmaram que a IA não influenciou em nada as contratações ou o tamanho das equipes de suas empresas, apesar de outras evidências apontarem o contrário. Essa percepção pode refletir a forma como a tecnologia vem sendo introduzida de maneira gradual e pouco estruturada em muitos locais de trabalho.

Apenas 23% dos líderes empresariais disseram que suas empresas possuem um programa formal de preparação para a IA, com orçamento específico. Outros 40% descreveram a transição para a IA como um processo improvisado, e não planejado.

CONSENSO SOBRE OS EMPREGOS MAIS RESISTENTES À IA

Apesar das divergências sobre a existência do "ghost downsizing" e sobre o papel da IA nesse processo, funcionários e gestores concordam em vários aspectos relacionados ao avanço da tecnologia.

Quase 60% de ambos os grupos afirmaram que trabalhos físicos ou manuais apresentam menor risco de serem automatizados. A maioria também apontou que habilidades de comunicação interpessoal são uma importante proteção contra a substituição por aplicativos de IA.

Da mesma forma, 38% dos empregadores e 27% dos trabalhadores disseram que criatividade e pensamento estratégico são competências que a IA ainda terá dificuldade para reproduzir.

Em contrapartida, o trabalho remoto foi visto como especialmente vulnerável à substituição por IA. Nada menos que 75% dos funcionários que trabalham remotamente disseram temer perder seus empregos para aplicativos capazes de executar suas funções. Essa percepção é reforçada por uma pesquisa recente da Gallup, segundo a qual trabalhadores remotos representam uma parcela desproporcional dos desempregados nos Estados Unidos.

Outro fator que influencia o medo de perder o emprego para a IA é a renda.

"Trabalhadores que ganham menos de US$ 60 mil por ano tinham quase três vezes mais probabilidade de afirmar que estavam planejando deixar suas carreiras por causa da automação do que aqueles que recebem mais de US$ 100 mil anuais", afirma o relatório. "A pesquisa constatou que trabalhadores de maior renda tendem a enxergar a IA como uma ferramenta de produtividade, enquanto aqueles com menor renda a veem como uma ameaça direta ao emprego."

Os resultados sugerem que, enquanto trabalhadores de menor renda enfrentam dificuldades para viver com salários relativamente baixos, eles também convivem cada vez mais com o receio de que o "ghost downsizing" impulsionado pela IA elimine seus postos de trabalho.

Este artigo foi publicado originalmente na Inc., publicação parceira da Fast Company. Leia o artigo original.


SOBRE O AUTOR

Bruce Crumley é ex-correspondente e chefe da sucursal da revista "Time'" em Paris, tendo também trabalhado para "Fortune", "Sports Ill... saiba mais