O que o estresse financeiro faz com o cérebro

Pesquisa relaciona dificuldades financeiras persistentes a pior desempenho cognitivo e maior atrofia cerebral

O que o estresse financeiro faz com o cérebro
Créditos: kaboompics/ Pexels/ Julius Drost/ Michael Walter/ Unsplash

Jennifer Mattson 2 minutos de leitura

Como se já não houvesse motivos suficientes para se preocupar, agora pesquisadores descobriram que o estresse financeiro pode deixar efeitos de longo prazo no cérebro.

Um novo estudo publicado na revista "Innovation in Aging" analisou dados de 2.759 pessoas por mais de sete décadas. Os participantes fazem parte do grupo de resultados da pesquisa britânica de nascimentos de 1946, acompanhada pelo Instituto Nacional de Saúde Pública do Reino Unido por meio de questionários e visitas domiciliares e clínicas.

A origem do levantamento remonta às preocupações econômicas da década de 1930. Naquele período, a crise financeira global e a Grande Depressão nos Estados Unidos levaram muitas pessoas a questionar até mesmo o custo de ter filhos. A pesquisa inicial registrou o nascimento de 5.362 bebês.

DIFICULDADES PERSISTENTES PESAM MAIS SOBRE O CÉREBRO

O novo estudo analisou os participantes que ainda estavam vivos aos 69 anos e tinham avaliações cognitivas disponíveis. Aqueles que continuam vivos completaram 80 anos em março de 2026.

A principal descoberta foi que dificuldades financeiras persistentes estavam associadas ao envelhecimento mais acelerado do cérebro.

Jacques Wels, pesquisador da Unidade de Saúde e Envelhecimento ao Longo da Vida da University College London, explica que a maior parte das pesquisas sobre envelhecimento cognitivo considera a situação financeira em apenas um momento específico.

“Nosso estudo, baseado em várias décadas de dados, permite observar que é o acúmulo de dificuldades ao longo de muitos anos que está associado aos piores desfechos de saúde cognitiva, e não episódios ocasionais de adversidade”, explica Wels.

OS EFEITOS APARECEM AINDA NA MEIA-IDADE

Os pesquisadores constataram que pessoas que enfrentaram problemas financeiros constantes ou tiveram baixa renda no início e no meio da vida adulta apresentaram desempenho inferior em testes cognitivos realizados aos 53 anos.

Os testes avaliaram a memória verbal e a velocidade de processamento. Além disso, exames de imagem mostraram que participantes com histórico persistente de baixa renda apresentavam pior saúde cerebral entre os 69 e os 71 anos, incluindo sinais mais acentuados de atrofia.

As análises levaram em consideração fatores que também poderiam influenciar os resultados, como capacidade cognitiva na infância, escolaridade e condições socioeconômicas desfavoráveis durante os primeiros anos de vida.

desenvolvimento do cérebro
Crédito: Jolygon/ Getty Images

Os efeitos foram mais acentuados entre homens, pessoas que tiveram infâncias desfavorecidas e indivíduos portadores da variante genética APOE-ε4, associada a um risco maior de desenvolver Alzheimer.

O estudo é observacional, portanto, os resultados identificam uma associação entre dificuldades financeiras persistentes e pior saúde cerebral, mas não comprovam uma relação direta de causa e efeito.

“As adversidades financeiras persistentes afetam o desempenho cognitivo na meia-idade e estão associadas à atrofia cerebral em fases posteriores da vida, com efeitos mais acentuados entre homens, pessoas que tiveram infâncias desfavorecidas e indivíduos com maior risco genético”, concluíram os pesquisadores.

Segundo os autores, oferecer apoio a adultos em idade ativa que enfrentam vulnerabilidade financeira pode contribuir para a prevenção do declínio cognitivo e da demência em uma população que está envelhecendo.


SOBRE A AUTORA

Jennifer Mattson é colaboradora da Fast Company e escreve sobre trabalho, negócios, tecnologia e finanças. saiba mais