Festival Pacto das Pretas: um palco para construir oportunidades
Na quinta edição, o evento reforça a estratégia do Pacto de Promoção da Equidade Racial de conectar empresas, lideranças e mulheres negras para transformar o debate sobre equidade em ações concretas.

Desde a chegada, o ambiente da 5a edição do Pacto das Pretas, em São Paulo, transmitiu acolhimento e conforto. Um espaço em que mulheres negras ocupavam diferentes lugares, da liderança até a produção, dos bastidores ao público. Ao olhar para os lados, era possível perceber o protagonismo em cada detalhe do evento, a potência estava em cada número.
Após passar por Salvador e Rio de Janeiro, o festival passou por São Paulo, levando 110 palestrantes e mais de 1,5 mil lideranças e executivas negras na semana que culminou no Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Realizado pelo Pacto de Promoção da Equidade Racial,uma iniciativa privada sem fins lucrativos, o Pacto das Pretas reuniu mulheres para compartilhar experiências e discutir temas como mercado de trabalho, empregabilidade, economia e políticas públicas.
“São projetos de nação que estão sendo discutidos aqui”, afirma Wânia Sant’Anna, pesquisadora e presidente do Conselho Deliberativo da Associação Pacto de Promoção da Equidade Racial.
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Sant’Anna não chegou à liderança por acaso. Aos 64 anos, ela carrega um vasto portfólio de mais de quatro décadas dedicadas à pesquisa de relações raciais, de gênero e ao ativismo. Historiadora de formação, Wânia construiu sua carreira estudando indicadores sociais e diz que o Brasil não enfrenta apenas uma desigualdade social comum, mas uma desigualdade étnico-racial profunda.
“Sempre tive uma trajetória muito ligada à compreensão de indicadores de desigualdade social. Nós não temos, no caso brasileiro, apenas uma desigualdade social. Nós temos uma desigualdade étnico-social que resulta numa desigualdade social imensa”, afirma Wania.
A INTENÇÃO COMO ESTRATÉGIA
Um dos pilares do festival é mostrar que a equidade racial não pertence apenas ao campo social. Para o Pacto de Promoção da Equidade Racial, temas como economia, inovação, cultura e desenvolvimento precisam integrar essa agenda, aproximando o debate das decisões tomadas dentro das empresas.
O cenário encontrado no mercado de trabalho reforça essa visão. De acordo com a pesquisa inédita do Instituto Social Espaço Negro (GEN), 537 mil mulheres negras ocupam cargos de liderança formal no Brasil, mas a ascensão profissional continua sendo o principal obstáculo. Elas representam 49,3% das posições de liderança de menor remuneração, enquanto ocupam apenas 7,4% dos postos de liderança mais remunerados.
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Para Wania, ampliar a presença de pessoas negras nas empresas depende de uma atuação intencional das organizações Segundo ela, “O nosso diálogo com as empresas é esse: a intenção expande as oportunidades para pessoas negras, mulheres negras, jovens negros. O que não dá para dizer é que não tem gente habilitada, capacitada... isso não é justo."
Diante desse realidade que o Pacto busca fortalecer o diálogos do Pacto com o setor privado, incentivando empresas a assumirem compromissos concretos com a igualdade de oportunidade e não discriminação. Um exemplo dado por Wania foi um programa que oferece MBA de 14 meses, ministrado pela FGV, para 30 mulheres negras de todo Brasil. A iniciativa recebeu cerca de 800 candidaturas, evidenciando que o desafio não está na falta de profissionais qualificadas.
O DEBATE EM AÇÃO
O Pacto das Pretas nasceu em 2022, a partir do I Fórum Pacto das Pretas, com o tema “Enegrecendo a sustentabilidade nas empresas”. A proposta também era criar narrativas protagonizadas por mulheres negras e levar a discussão sobre equidade racial para o centro das estratégias empresariais.
Desde então, se consolidou como um espaço de encontro entre arte, cultura, empreendedorismo, liderança e política. Neste ano, falaram no palco Grazi Mendes, Monique dos Santos e Morena Monalisa, entre outras personalidades.
Para Wania, o futuro do Pacto está na manutenção de um diálogo permanente com o setor privado, capaz de criar oportunidades para a população negra sem abrir mão da defesa de seus direitos. “O nosso futuro é a manutenção desse diálogo respeitoso... entendendo quais são as necessidades das empresas, mas sem abrir mão do que a gente avisa sendo uma necessidade nossa e também um direito.”
Além de fortalecer essa relação com as empresas, Wania acredita que o futuro do festival também depende de ampliar os espaços de fala para uma nova geração de lideranças negras. "Há muitas outras novas vindas e elas precisam ter lugar para falar", afirma.
Para a historiadora, esse movimento não significa substituir as vozes que já abriram caminhos, mas garantir que cada vez mais mulheres negras ocupem espaços e participem da inovação.
Além dos debates, o que se sentiu nesta edição foi um clima acolhedor, que passava a impressão de que conexões já existiam há anos. O networking acontecia de forma espontânea, sendo impulsionada entre os paíneis, durante as apresentações artísticas e nos corredores. O sentimento era de estar em casa. Como define a própria Wania:
“Não são as nossas histórias de sucesso, mas são as histórias que fazem de nossa vida uma vida diferencial que a gente quer levar pro futuro”.