Metade dos profissionais aceitaria ganhar menos para ter mais flexibilidade

Trabalhadores trocariam parte do salário por mais autonomia, sinal de que flexibilidade virou estratégia de negócios

Metade dos profissionais aceitaria ganhar menos para ter mais flexibilidade
Créditos: deagreez/ Adobe Stock/ Debbie Harris/ Unsplash

Natalie Nixon 5 minutos de leitura
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Você trabalha em um ambiente onde ser flexível é visto como sinal de indecisão? Ou a flexibilidade é considerada uma qualidade?

Em muitos ambientes profissionais, a flexibilidade deixou de ser tratada como um benefício. Ela passou a ser encarada da mesma forma que o oxigênio: quando existe, tudo funciona; quando falta, as coisas simplesmente deixam de funcionar.

Um novo estudo da Clarify Capital, realizado com quase mil funcionários e gestores, confirma essa mudança. A flexibilidade deixou de ser um diferencial para se tornar um pré-requisito para criar as condições em que a criatividade e o desempenho dos negócios podem prosperar.

Curiosidade é a capacidade de manter uma mentalidade aberta, imaginativa e voltada para perguntar "e se?". É ela que dá origem a novas ideias.

Mas essa curiosidade depende de um tipo específico de autonomia: a sensação de ter controle sobre o próprio tempo e sobre a própria atenção.

Por isso, um dado da pesquisa da Clarify Capital me chamou a atenção: 50% dos profissionais que trabalham em jornadas tradicionais, das 9h às 17h, afirmam que aceitariam ganhar menos em troca de mais controle sobre seus horários.

mãos disputam cabo de guerra com um relógio esticado
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Eles não estão apenas buscando conveniência. Estão dispostos a abrir mão de parte da segurança financeira em troca da autonomia sobre a própria capacidade de pensar. Esse é um sinal poderoso.

Quando as pessoas se sentem presas a uma rotina criada para a lógica industrial, e não para o trabalho do conhecimento, a curiosidade diminui. O cérebro passa a priorizar a execução de tarefas, e não a imaginação.

Nesse contexto, flexibilidade não diz respeito ao lugar onde o corpo está. Diz respeito ao espaço mental necessário para produzir o trabalho mais original.

DESCANSO TAMBÉM GERA RESULTADO

Descanso não significa necessariamente tempo ocioso. Ele funciona como uma infraestrutura estratégica: o momento de recuperação cognitiva que torna possível sustentar criatividade e rigor ao longo do tempo.

Os dados da Clarify Capital revelam um paradoxo importante. Entre os profissionais com trabalho flexível, 67% classificam sua saúde mental como boa ou muito boa. Entre aqueles que seguem uma jornada tradicional, esse índice cai para 59%.

Ao mesmo tempo, 25% dos trabalhadores com horários flexíveis dizem sentir pressão para trabalhar por mais horas, contra apenas 14% entre os funcionários de jornada convencional. Ou seja, flexibilidade sem limites não é descanso. É apenas hora extra invisível.

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É justamente aí que a liderança faz toda a diferença. As empresas que adotaram o trabalho flexível e registraram crescimento de 42% na receita, segundo os gestores entrevistados pela Clarify Capital, provavelmente também construíram uma cultura que protege os períodos de recuperação.

O retorno sobre o investimento no descanso não é abstrato. Ele aparece nos resultados financeiros.

A LIDERANÇA DECIDE SE A FLEXIBILIDADE FUNCIONA

Grande parte das discussões sobre flexibilidade parte de uma premissa equivocada: acreditar que a política, por si só, resolve o problema.

Os dados da Clarify Capital mostram outra realidade: 61% dos que têm flexibilidade no trabalho afirmam entregar resultados acima das expectativas, contra 53% daqueles que trabalham em jornadas tradicionais.

Além disso, 65% dos gestores dizem que a flexibilidade no trabalho melhora a retenção de talentos, enquanto 62% afirmam que ela ajuda a atrair profissionais qualificados.

25% dos trabalhadores com horários flexíveis dizem sentir pressão para trabalhar por mais horas.

Esses números não refletem apenas uma política de RH. Eles refletem uma cultura organizacional. E cultura é construída de dentro para fora. É uma abordagem baseada na ideia de que o autoconhecimento é pré-requisito para liderar bem e de que a vida interior de um líder é tão importante quanto seu currículo.

Líderes que ainda não fizeram esse trabalho interno frequentemente oferecem flexibilidade com uma mão, enquanto transmitem ansiedade e vigilância com a outra. O resultado é que os funcionários têm liberdade na agenda, mas continuam controlados pela cultura da empresa.

O desempenho acima das expectativas observado entre profissionais em modelos flexíveis não é um acaso. Ele surge quando as pessoas realmente se sentem confiáveis e quando seus líderes têm autoconhecimento suficiente para confiar nelas de verdade.

A ERA DA IMAGINAÇÃO REQUER UM NOVO MODELO DE GESTÃO

Vivemos o que chamo de Era da Imaginação: um período em que criatividade humana e inteligência consciente se tornaram os ativos mais escassos – e mais estratégicos – que uma organização pode desenvolver.

A inteligência artificial consegue otimizar processos, automatizar tarefas e acelerar operações. O que ela não faz é produzir o tipo de julgamento humano, relacional e contextual que nasce quando as pessoas realmente têm autonomia sobre o próprio tempo.

O estudo da Clarify Capital oferece um retrato desse momento de transição. Os profissionais dispostos a trocar parte do salário por mais autonomia não estão fazendo uma escolha de estilo de vida. Estão mostrando qual é o combustível da economia criativa.

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A pergunta que os líderes deveriam fazer não é se devem oferecer flexibilidade. A verdadeira questão é se desenvolveram a capacidade interna necessária para transformar a flexibilidade no trabalho em uma força geradora de valor, e não apenas em uma política permissiva. Essa diferença muda tudo.

Na Era da Imaginação, as organizações vencedoras não serão necessariamente aquelas com a pegada tecnológica de IA mais sofisticada. Serão aquelas que criarem as condições para que as pessoas que trabalham lá pensem com profundidade, descansem sem culpa e cultivem a curiosidade.


SOBRE A AUTORA

Natalie Nixon é estrategista criativa, palestrante e presidente da  Figure 8 Thinking. saiba mais