Geração Z usa IA todos os dias, mas confia cada vez menos nela

Se a estratégia de IA da sua empresa pressupõe que os jovens liderarão a adoção, ela pode ter sido construída sobre um mito

Colagem mostra jovem usando notebooks e celular diante de padrões digitais.
A Geração Z está entre os grupos que mais utilizam inteligência artificial, mas sua confiança na tecnologia está diminuindo.

Faisal Hoque 9 minutos de leitura
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No início deste ano, mostramos a dois de nossos estagiários, ambos jovens brilhantes na casa dos 20 anos, uma versão inicial de uma apresentadora gerada por IA que estávamos desenvolvendo para conteúdos de treinamento. Eu esperava que eles gostassem dela de imediato.

São jovens que cresceram nas redes sociais e nos videogames, pessoas que nunca conheceram um mundo sem smartphones e YouTube. Eram os arquétipos dos nativos digitais. Se havia alguém que se sentiria à vontade com um avatar de IA, certamente seriam eles.

Eu estava errado. Para ser direto, eles odiaram a versão — e a odiaram porque era IA.

Nossos estagiários não são casos isolados. Eles são sintomas de uma tendência mais ampla na Geração Z. Em maio, o ex-CEO do Google Eric Schmidt foi vaiado repetidamente ao fazer um discurso de formatura sobre IA na University of Arizona.

Ele chegou a interromper a fala para reconhecer a reação da plateia: “Eu sei o que muitos de vocês estão sentindo em relação a isso. Eu consigo ouvir.”

Não foi uma ocorrência incomum. Schmidt foi o terceiro orador de formatura vaiado naquele mês por elogiar a IA, depois de palestrantes da University of Central Florida e da Middle Tennessee State University receberem a mesma reação.

Segundo a pesquisa mais recente Voices of Gen Z, a percepção dos jovens norte-americanos sobre a IA está se deteriorando rapidamente. A parcela de pessoas entre 14 e 29 anos que se sente esperançosa em relação à tecnologia caiu de 27%, um ano antes, para 18% em 2026.

Gráfico compara entusiasmo, esperança, raiva e ansiedade da Geração Z em relação à inteligência artificial em 2025 e 2026.
Em um ano, o entusiasmo da Geração Z com a IA caiu de 36% para 22%, enquanto a esperança recuou de 27% para 18%. Crédito: Walton Family Foundation/ GSV Ventures/ Gallup.

E são esses os funcionários que sua implementação de IA pressupõe que liderarão a adoção, os clientes com os quais o planejamento de produto da sua empresa conta e, dentro de uma década, os compradores que decidirão em quais fornecedores confiar.

Quando o grupo demográfico que está no centro dos modelos de adoção de IA passa a se mostrar abertamente hostil à proposta, isso se torna um problema estratégico que líderes empresariais precisam enfrentar com urgência.

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GERAÇÃO Z E IA

Ouvimos que os profissionais da Geração Z confiam mais na IA do que nos próprios gestores quando buscam conselhos de carreira. Eles não estariam apenas adotando a tecnologia, segundo uma pesquisa do setor amplamente divulgada, mas liderando sua adoção e ensinando colegas mais velhos a utilizá-la.

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As organizações se planejaram com base nisso: implementações voltadas aos jovens, orçamentos de treinamento que presumem familiaridade com a tecnologia e lançamentos de produtos que tratam a adesão das pessoas com menos de 30 anos como um ponto de partida garantido.

É o que podemos chamar de premissa do nativo digital: coloque uma tecnologia diante de alguém que cresceu cercado por telas e a adoção acontecerá por conta própria.

O problema fundamental não é a rejeição. É algo muito mais difícil de detectar: o uso sem confiança.

Essa história está apenas parcialmente correta — e é exatamente aí que mora o perigo. O problema fundamental não é a rejeição. É algo muito mais difícil de detectar: o uso sem confiança.

Uma pesquisa recente com quase 2,5 mil jovens, liderada por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, descobriu que a Geração Z lidera a adoção de IA no ambiente de trabalho. Ao mesmo tempo, acredita que a tecnologia está deixando seus colegas mais preguiçosos e menos capazes.

Uma pesquisa de 2026 da Randstad, realizada com mais de 27 mil profissionais, afirma que a Geração Z é a mais preocupada com o impacto da IA sobre seus empregos.

Navegar por essa nova realidade exige compreender três coisas: por que a desconfiança dessa geração é informada, e não automática; por que as métricas tradicionais não conseguem detectá-la; e como esse comportamento está redefinindo o que pode ser considerado um produto viável.

A PROXIMIDADE AUMENTA O ESCRUTÍNIO

A geração que cresceu dentro da tecnologia não é a mais devotada a ela. É a mais criteriosa. A razão está no ponto de vista que esses jovens acumularam.

Eles viram colegas terceirizar redações para ferramentas de IA e perder a capacidade de escrevê-las. Acompanharam conteúdos sintéticos inundarem os feeds em que vivem. Além disso, chegaram a um mercado de trabalho no qual os cargos de entrada que lhes foram prometidos estão entre os primeiros a ser automatizados.

A imagem mostra uma pessoa sentada de forma relaxada em um puff laranja, usando notebook no colo, com pernas esticadas e chinelos, sobre um fundo azul vibrante com formas gráficas. A mensagem visual remete imediatamente a trabalho remoto confortável, home office informal, nomadismo digital, flexibilidade profissional ou a ideia de trabalhar sem rigidez de escritório. Também pode sugerir produtividade casual, cultura startup, freelancer ou geração que mistura lazer e trabalho. O contraste entre o puff macio e o laptop cria uma tensão interessante: conforto versus performance. Dependendo do contexto, a imagem pode elogiar a liberdade de trabalhar de qualquer lugar ou criticar a romantização de estar sempre conectado mesmo em momentos de descanso.
A familiaridade dos jovens com a tecnologia não garante confiança: a Geração Z usa IA com frequência, mas questiona seus impactos sobre habilidades e empregos. Anton Vierietin via Getty images

A desconfiança não nasce de uma ansiedade antitecnológica impulsiva. Ela está fundamentada nas lições que suas experiências no mundo real lhes ensinaram.

Para líderes de organizações, a conclusão é simples: seja uma escola integrando IA às salas de aula, um gestor impondo ferramentas à equipe ou um fundador apresentando um produto de IA, não é mais possível presumir que a geração nativa digital se sentirá naturalmente atraída pela tecnologia.

A aceitação da Geração Z é uma hipótese que precisa ser testada, não um fato com o qual se pode contar. O nativo digital, como costuma aparecer nos planejamentos das empresas, não existe mais.

O USO É UMA MÉTRICA INCOMPLETA

Cerca de 51% da Geração Z utiliza inteligência artificial generativa pelo menos uma vez por semana nos Estados Unidos. Na União Europeia, 64% das pessoas entre 16 e 24 anos usaram IA em 2025.

Se olhássemos apenas para os números de adoção, poderíamos imaginar que a história entre a Geração Z e a IA é um romance que se aprofunda progressivamente.

Mas histórias de amor também podem apodrecer por dentro — e é isso que está acontecendo aqui. Até mesmo os usuários diários estão menos entusiasmados e menos esperançosos do que estavam um ano atrás.

O funcionário que utiliza a ferramenta de IA todos os dias, mas confia um pouco menos nela a cada semana, não representa uma implementação bem-sucedida.

A distância entre uso e confiança aparece no comportamento, não apenas na percepção. É assim que organizações conseguem adoção sem adesão real, uso oportunista sem convicção, atalhos que ignoram os sistemas oficiais e, em alguns casos, resistência aberta.

Para os executivos, a tradução no ambiente de trabalho é direta: o funcionário que utiliza a ferramenta de IA imposta pela empresa todos os dias, mas confia um pouco menos nela a cada semana, não representa uma implementação bem-sucedida.

Na melhor das hipóteses, ele representa um abandono adiado. Na pior, pode fazer parte de quase um terço dos profissionais que admitem tentar sabotar silenciosamente a transformação por IA.

A resposta para esse desafio é acompanhar a confiança, não apenas o uso. Isso significa acrescentar indicadores de percepção e sentimento a todos os painéis de implementação de IA.

PRIVACIDADE É UM ATRIBUTO DO PRODUTO

Em nenhum outro lugar o choque entre a premissa do nativo digital e a realidade dessa geração aparece de forma tão visível quanto nos óculos inteligentes da Meta.

No papel, um dispositivo vestível equipado com câmera e capaz de ouvir continuamente deveria ser perfeito para a Geração Z: social, integrado ao ambiente e gamificado.

óculos inteligentes da marca Ray-Ban desenvolvidos pela Meta
Os óculos inteligentes da Meta combinam câmera, microfone e inteligência artificial, mas enfrentam questionamentos sobre privacidade e sobre o uso das imagens registradas (Crédito: Divulgação)

Na prática, a principal objeção — levantada com mais força pelos jovens consumidores — é que os óculos invadem a privacidade das pessoas. A preocupação aumentou após reportagens e processos questionarem como as imagens registradas são revisadas e utilizadas.

Essa geração passou a vida inteira aprendendo que a privacidade é o preço da tecnologia. Por isso, a Geração Z enxerga uma ameaça onde a Meta esperava que ela enxergasse um recurso interessante.

Para os líderes, isso significa que a privacidade precisa deixar de ser apenas uma questão de conformidade para se tornar uma questão de mercado.

A revisão ética deve funcionar como uma etapa comercial decisiva, não somente jurídica — uma decisão real de seguir em frente ou interromper o projeto, com jovens consumidores e funcionários participando da discussão.

QUATRO MUDANÇAS PARA ESTE TRIMESTRE

Aqui estão quatro medidas que podem preparar sua empresa para a Geração Z:

  1. Revise sua estratégia de IA em busca de premissas sobre nativos digitais. Identifique todos os pontos em que a adoção é projetada com base na idade, e não comprovada por testes.
  2. Adicione métricas de confiança a todos os painéis de adoção. Acompanhe a percepção junto com o uso e trate uma distância crescente entre os dois indicadores como um sinal de alerta, não como uma nota de rodapé.
  3. Crie o filtro “será que realmente devemos fazer isso?”. Antes de lançar qualquer recurso de IA, realize uma revisão que trate preocupações com privacidade e vigilância como riscos de mercado com poder de veto.
  4. Transforme os funcionários mais jovens em um sistema de alerta antecipado. Crie canais estruturados para revelar o ceticismo das contratações mais jovens. Essa é a melhor prévia disponível do seu mercado futuro.

A PRIMEIRA GERAÇÃO A ENXERGAR COM CLAREZA

A tentação é interpretar a desilusão da Geração Z como uma peculiaridade geracional: jovens sendo contrários às ferramentas que inevitavelmente acabarão adotando.

A ambivalência da Geração Z não representa um atraso na curva de adoção. É uma prévia da direção que todo o mercado está tomando.

As evidências apontam para o sentido oposto. As pessoas que hoje estão na casa dos 20 anos não são apenas versões mais jovens daquelas que estão na casa dos 30. Seus instintos políticos, valores e relação com a tecnologia operam em uma frequência genuinamente diferente.

A mudança é tão profunda que alguns observadores identificam os primeiros sinais de uma transformação contracultural como não se via desde a década de 1960.

E, para onde vão os jovens, a sociedade costuma ir depois. A ambivalência da Geração Z não representa um atraso na curva de adoção. É uma prévia da direção que todo o mercado está tomando.

As empresas que continuarem projetando para o nativo digital imaginário continuarão lançando produtos que o nativo digital real rejeita.


SOBRE O AUTOR

Faisal Hoque é fundador da Shadoka, que desenvolve aceleradores e soluções tecnológicas para o crescimento sustentável. saiba mais