A nova geração de brinquedos tecnológicos não tem tela
Novos jogos usam narração, peças físicas e controles simples para estimular a criatividade sem recorrer a aplicativos ou telas

Quando minha filha de 10 anos colocou as mãos em uma Toniebox com uma versão de Jogo da Vida, da Hasbro, passou a tarde inteira no quarto. Quando fui ver como ela estava, descobri que experimentava diferentes caminhos de vida: uma estilista apaixonada por jardinagem, uma astronauta com filhos gêmeos.
Mais tarde, convenceu o pai a jogar uma partida de Monopoly (Banco Imobiliário). Nenhum dos dois jogos precisava de uma tela. É exatamente esse mercado que a Tonies, fabricante de brinquedos criada há uma década, quer conquistar.
Nos EUA, o tempo que crianças de até oito anos passam jogando aumentou 65% desde 2020, enquanto o tempo total diante das telas continuou relativamente estável, em cerca de duas horas e meia por dia.
No Brasil, pesquisa do Datafolha aponta que 78% das crianças de até três anos e 94% das de quatro a seis anos têm exposição diária a telas. Ainda de acordo com o Datafolha, crianças de 0 a seis anos passam, em média, de duas a três horas por dia em frente às telas.
Grande parte desses jogos digitais é vendida como educativa ou inofensiva. Ainda assim, o volume preocupa os pais. Mais da metade afirma já ter sentido que seus filhos estavam viciados em telas.
A Tonies acredita ter encontrado um meio-termo. Conhecida por seus cubos de histórias sem telas, a empresa se uniu à Hasbro para transformar três de seus jogos de tabuleiro mais famosos – Monopoly, Jogo da Vida e Cara a Cara – em aventuras em áudio para seu dispositivo mais recente.
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A iniciativa faz parte de um movimento mais amplo, tanto da indústria de brinquedos quanto da tecnologia, para criar produtos infantis envolventes, mas que não sejam projetados para manter as crianças presas por tempo indefinido.
"Nosso objetivo não é que a criança nunca saia da Toniebox", afirma Ginny McCormick, primeira diretora de experiência da Tonies. "As histórias têm um fim. Existe um equilíbrio adequado."
HISTÓRIA SEM TELAS
A Tonies foi fundada na Alemanha em 2016 por Patric Faßbender e Marcus Stahl, dois pais que se conheceram na pré-escola dos filhos e compartilhavam a mesma frustração: tentar reproduzir histórias infantis em CDs riscados.
Eles criaram um alto-falante em formato de cubo, revestido por espuma resistente, que reproduz histórias quando um boneco é colocado sobre ele. Um Pinóquio toca contos clássicos; uma Pequena Sereia reproduz a história da Disney acompanhada de algumas músicas.
O sistema foi desenvolvido para ser intuitivo o suficiente para que até uma criança pequena consiga usá-lo sozinha, permitindo que os pais mantenham os filhos entretidos sem recorrer às telas.
A empresa chegou aos Estados Unidos em 2020 e se tornou presença constante nas prateleiras de grandes redes de varejo, crescendo principalmente por indicação entre consumidores.
Segundo McCormick, as famílias utilizam o aparelho, em média, 240 minutos por semana, em momentos como a rotina antes de dormir e viagens longas de carro. O brinquedo atrai consumidores de diferentes faixas de renda, apesar do preço elevado: US$ 130, enquanto os bonecos começam em US$ 20.
O ponto em comum, diz ela, é o desejo dos pais por um dispositivo que os filhos consigam operar de forma independente, mas que não seja guiado por algoritmos.
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Esse crescimento ganhou força com a Toniebox 2, lançada nos Estados Unidos em 5 de outubro de 2025. O novo aparelho trouxe um anel luminoso, alarmes para dormir e acordar, controles parentais mais completos no aplicativo e, pela primeira vez, a Tonieplay, biblioteca de jogos sem telas operados por um pequeno controle.
CLÁSSICOS DA HASBRO EM OUTRO FORMATO
A Hasbro acaba de lançar três jogos para o sistema: Monopoly, Jogo da Vida e Cara a Cara. Todos utilizam a mesma interface física: um controle que funciona como um seletor giratório e também pode ser pressionado como botão. Cada jogo inclui ainda um conjunto próprio de peças.

Em Monopoly, os jogadores encostam seus cartões no aparelho para participar de leilões rápidos de propriedades, como ferrovias e companhia elétrica. Também podem disputar pequenos desafios, como descobrir quem aperta o botão mais rápido. Enquanto isso, o Sr. Monopoly narra a partida e mantém o saldo de dinheiro de cada participante.
Em Cara a Cara, um inspetor conduz cada investigação enquanto os jogadores organizam 30 cartas plásticas com monstros. As crianças ouvem uma pista narrada, viram os monstros que não correspondem à descrição e, quando sobra apenas um candidato, giram o controle para confirmar a resposta.
Já Jogo da Vida transforma o controle em uma roleta, usada para movimentar o peão pelo tabuleiro e responder perguntas sobre carreira e escolhas de vida.
Segundo McCormick, as equipes da Hasbro e da Tonies trabalharam em conjunto para despertar o interesse das crianças por meio da narrativa.
"Se você mostrar um dragão para todo mundo, todos saberão exatamente como ele é. Mas, se contar uma história sobre um dragão, haverá mil maneiras diferentes de imaginar sua aparência e como ele se sente. É isso que desperta a imaginação e permite que as crianças conduzam a narrativa."
O sistema foi desenvolvido para para que até uma criança pequena consiga usá-lo sozinha.
Ela afirma que o maior desafio foi resistir à tentação de reproduzir fielmente os jogos de tabuleiro. Cara a Cara é o exemplo mais evidente: o original depende da observação visual de rostos, enquanto a nova versão substitui os personagens por monstros descritos por um narrador.
A empresa também criou modos para um único jogador em Cara a Cara e Jogo da Vida. Segundo McCormick, um dos principais obstáculos das tradicionais noites de jogos em família é conseguir reunir pessoas suficientes em volta da mesa. Apenas Monopoly continua exigindo pelo menos dois participantes.
O PRÓXIMO PASSO
Tonies e Hasbro já colaboravam em outras franquias, como Peppa Pig, cujos direitos pertencem à fabricante de brinquedos. Agora, segundo McCormick, as empresas estudam levar outros jogos do catálogo da Hasbro para o formato em áudio.
Internamente, o estúdio de desenvolvimento da Tonies reúne produtores musicais, contadores de histórias e pesquisadores especializados em desenvolvimento infantil para testar constantemente novas mecânicas.
"É uma combinação de arte e ciência", afirma McCormick. "Fazemos sessões de criação muito livres, mas temos um processo rigoroso de seleção para garantir que cada mecânica de jogo seja adequada ao estágio de desenvolvimento daquela criança."
A aposta da empresa é que a próxima geração de tecnologias voltadas ao público infantil não será avaliada pelo tempo que consegue prender a atenção das crianças, mas pela capacidade de deixá-las seguir para outras atividades quando a experiência termina.
Com informações da redação da Fast Company Brasil





