5 perguntas para Thaynara OG, influenciadora e empreendedora social
À frente do São João da Thay, apresentadora e empresária maranhense fala sobre transformar visibilidade em plataforma de impacto

Thaynara OG começou a ganhar notoriedade em 2016 com vídeos espontâneos no Snapchat. Dez anos depois, a apresentadora e empresária maranhense comanda uma das produções mais robustas do calendário de festas juninas do país: o São João da Thay.
Este ano, pela primeira vez, o evento saiu de São Luís e chegou a Imperatriz, no interior do estado, reunindo mais de 60 mil pessoas em um palco com dimensões equivalentes às do Rock in Rio.
O festival se consolidou como um dos maiores eventos beneficentes do Brasil, com atrações como Ana Castela, Gustavo Mioto e Péricles somadas a manifestações da cultura nordestina.
Além da programação musical, o São João da Thay promoveu uma experiência imersiva pela Chapada das Mesas para convidados e imprensa, com direito a visita ao Poço Azul e às cachoeiras da região. A rede hoteleira de Imperatriz teve ocupação acima de 90% durante o período.
Formada em direito, Thaynara é hoje Embaixadora dos Lençóis Maranhenses pela Unesco e Embaixadora da Gerando Falcões, à frente do projeto Academia de Vida, voltado à profissionalização de jovens em situação de vulnerabilidade social no Maranhão.
Nesta entrevista, ela fala sobre transformar visibilidade em plataforma de impacto, os bastidores da gestão de um festival desse porte, a recusa de patrocínios de casas de apostas e como lida com a própria saúde mental em meio à pressão dos bastidores.
FC Brasil – Você é uma das principais criadoras de conteúdo do país e transformou essa visibilidade em uma plataforma de impacto cultural e social a partir do Maranhão. Como aconteceu essa virada, de influenciadora a vitrine do seu estado?
Thaynara OG – Cresci como uma adolescente que, quando via o meu estado na TV, nas notícias, ele estava sempre associado a alguma coisa negativa. Isso me fez crescer associando a ideia de sucesso a estar fora do Maranhão.
Então, quando me vi, em 2016, conseguindo projeção sendo quem eu sou, morando onde eu moro, com o meu sotaque, com a minha identidade regional, isso me deu um gás. Agora eu vou mostrar o que de fato é o Maranhão, a potência que é o Maranhão, e desmistificar esses preconceitos.
O São João da Thay tem três pilares: o cultural, o fomento ao turismo e o social.
Foi algo genuíno, porque antes dessa carreira eu já queria ser defensora pública. Sempre tive essa vocação, esse propósito de contribuir socialmente de alguma forma. A vida muda, mas o propósito continua.
É algo que eu tento mostrar desde 2017, quando criei o São João da Thay: muitas marcas que passaram a investir no festival nem olhavam para o Maranhão como um polo relevante do calendário nacional de São João, e hoje ativam de uma forma bem mais forte e mais presente.
FC Brasil – Por trás da apresentadora existe uma estrutura de negócio que sustenta um evento do tamanho do São João da Thay. Como é esse lado empresária, longe das câmeras?
Thaynara OG – Esse ramo de trabalhar com eventos e show business é um dos mais complicados que existem. E olha que eu faço apenas um evento por ano. Quem vive disso o ano inteiro merece os meus mais sinceros parabéns, porque não é fácil.
Vai desde a logística de convidados, reunião com marcas, reuniões com instituições públicas, prefeitura, governo do estado, até visita técnica do local e do passeio. Eu preciso estar presente pessoalmente para explicar como é o projeto, qual é a nossa intenção.
Antes de anunciarmos o evento em Imperatriz, por exemplo, o prefeito reuniu outros 15 prefeitos da região só para eu me apresentar: quem sou, o que é o São João da Thay, como ele impactou a região de São Luís e dos Lençóis Maranhenses e o que a gente pode somar ali no sul do estado. É praticamente uma agenda política.
Claro que, para o evento dar certo, você precisa confiar em uma equipe e saber delegar. Eu tenho várias frentes, de palco, de marcas, de entregas, de logística dos convidados, mas tudo passa por mim. É um desafio enorme. Fazendo isso apenas uma vez por ano, a energia e a entrega que isso exige são imensas.
FC Brasil – Nos últimos anos, casas de apostas se tornaram um dos maiores patrocinadores do mercado de influência no Brasil, mas você optou por não aceitar esse tipo de parceria no São João da Thay. Por que essa decisão e como você avalia a responsabilidade de quem cria conteúdo em aceitar, ou recusar, esse tipo de publicidade?
Thaynara OG – Sempre acreditei que a gente tem que ter responsabilidade na influência digital. Sou advogada e sei o quanto essas coisas impactam na vida das pessoas.
Venho de uma realidade que conheço de perto: trabalhei anos ao lado da Unicef Brasil, que tem vários projetos no Maranhão, e já apoiei o Criança Esperança e a Fundação Antônio Bruno, em São Luís. Ver o meu povo em situação de vulnerabilidade social é algo que não tem como ignorar.

O São João da Thay tem três pilares: o cultural, o fomento ao turismo e o social, de retornar para a sociedade por meio de apoio a instituições. Este ano, apoiamos a Gerando Falcões, que está lançando o Favela 3D em São Luís, e também o Centro Cultural de Tatuajuba, em Imperatriz.
Então, se faço uma festa em que um dos objetivos é tirar o povo de uma situação de vulnerabilidade, seria hipócrita fazer essa mesma festa com o apoio de uma bet, que é responsável por deixar pessoas em situação de vulnerabilidade, não só patrimonial, mas também de saúde mental, a ponto de tirar a própria vida.
Para mim, seria uma ironia que não faz sentido. Eu luto justamente para conseguir esse retorno social, para tirar o Maranhão das projeções ruins que saem na mídia.
Leia mais: “Inventaram um jeito de deixar um brasileiro triste com um gol do Brasil”
Sei que é tudo muito tentador, porque um patrocínio desses paga praticamente 80% do evento. Seria muito mais fácil. Mas eu não teria a cara de falar dos objetivos do São João da Thay com patrocínio de bet. Para mim, isso nunca foi uma possibilidade.
FC Brasil – Você já falou publicamente sobre perder a voz durante o São João e sobre a pressão dos bastidores. Como cuida da saúde mental num evento desse tamanho, e o que fez para evitar o burnout?
Thaynara OG – Tenho acompanhamento de um bom psicólogo e de um bom psiquiatra para tratar a ansiedade. No período do evento, fico ainda mais ativa fisicamente para trabalhar essa ansiedade e dormir melhor.
Também tenho uma conexão espiritual forte: tudo que não está no meu controle, eu confio que vai acontecer da melhor forma. E a presença da minha família me traz sempre de volta para quem eu sou. É uma junção de coisas, mas é bem difícil.
se faço uma festa em que um dos objetivos é tirar o povo de uma situação de vulnerabilidade, seria hipócrita fazer isso com o apoio de uma bet.
Este ano, por exemplo, um pouco antes de entrar no palco, já maquiada, com a coreografia e o time prontos, veio a notícia de que um arco da estrutura do palco tinha soltado e caído, e isso atrasaria o evento em uma hora e meia.
Tive que decidir ali, na hora: corto um dos shows e a galera fica desapontada, atraso a abertura dos portões e a galera fica desapontada comigo, ou abro os portões agora e todo mundo vê a estrutura sendo montada.
Ninguém sabe o que passa pela cabeça da anfitriã, porque, nesse papel, você tem que lidar com tudo com leveza, subir no palco com o maior sorriso do mundo e seguir o protocolo.
Se não fosse todo esse contexto que eu tenho, muita fé, um bom psicólogo, um bom psiquiatra e a minha família me apoiando, não teria conseguido. No final, resolveram o problema em 30 minutos, a gente não cancelou nenhum show e recuperou o atraso ao longo da programação. Mas eu surtei.
FC Brasil – Se você tivesse que resumir o que aprendeu transformando visibilidade em uma plataforma de impacto duradoura, o que diria para quem está começando a crescer nas redes hoje?
Thaynara OG – Acho que toda influência digital tem que ter responsabilidade e propósito. Eu me coloco não só no lugar de criadora, mas também no lugar de consumidora de conteúdo: amo consumir fofoca, meme, vídeo bobo.
Mas acho que todo criador de conteúdo pode ir além disso. Uma coisa não anula a outra. Dá para fazer algo divertido e, ao mesmo tempo, dar visibilidade para uma pauta que tem a ver com você. Se todo influenciador tivesse esse compromisso, o mundo ficaria bem melhor e cada lugarzinho do Brasil ficaria melhor representado.
Do ponto de vista de negócios, quando você conquista um lugar de credibilidade e autoridade, isso te dá durabilidade numa carreira que é muito dinâmica.
Leia mais: A gente não é o país do Carnaval
Todo dia surge um TikTok, uma nova rede social, um novo influenciador do momento. Mas, quando você se posiciona de um jeito que as pessoas te respeitem, te veem com credibilidade, as marcas reconhecem isso, e você constrói uma carreira duradoura.
Eu mesma nunca imaginei que estaria, há 10 anos, ainda trabalhando com grandes marcas e frequentando grandes eventos com relevância. Mas tenho certeza de que toda essa construção, todas as decisões tomadas desde 2016, me trouxeram até aqui.