Foguete da SpaceX vai atingir a Lua — e expõe o problema do lixo espacial

A parte superior descartável de um Falcon 9 atingirá a superfície lunar a cerca de 8,7 mil km/h e reacenderá o alerta sobre o lixo espacial.

Ilustração de foguete da SpaceX diante da Lua, em referência à colisão prevista para 5 de agosto
Uma estrutura descartável de um Falcon 9, da SpaceX, deve atingir a Lua na madrugada desta quarta-feira (5).

Jesus Diaz 6 minutos de leitura
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A parte superior descartável de um foguete da SpaceX, o Falcon 9, atravessa o espaço a cerca de 8,7 mil km/h em rota direta de colisão com a Lua. A estrutura deve abrir uma pequena cratera e levantar uma nuvem de detritos lunares perto da cratera Einstein, na borda ocidental iluminada pelo Sol.

Talvez pareça inofensivo. Não é bem assim. A Lua não é Manhattan, é claro, mas isso não torna a situação menos preocupante.

O problema é que casos assim continuarão acontecendo até começarem a representar perigo para os seres humanos. Segundo o astrofísico Jonathan McDowell, este impacto específico não oferece risco imediato. O cenário muda, porém, diante da perspectiva de bases permanentes na Lua.

“Este impacto não será um problema. Mas, em um futuro com bases permanentes na Lua, impactos semelhantes seriam preocupantes, e precisamos evitar deixar estágios de foguetes em órbitas caóticas desse tipo”, afirma.

Se nada impedir que SpaceX, Blue Origin e outras organizações espaciais dos Estados Unidos e da China utilizem o espaço de maneira irresponsável, continuaremos ouvindo histórias como essa até que algo realmente grave aconteça. Essas empresas precisam planejar suas missões de modo a descartar qualquer resíduo com segurança.

A nova corrida à Lua deve ganhar velocidade ao longo do século XXI. Estados Unidos e China disputam a instalação de bases e operações de mineração na superfície lunar nos próximos anos. Frotas de robôs e tripulações de astronautas circularão pela região, enquanto bilhões de dólares serão investidos na exploração do regolito — a camada de poeira e fragmentos rochosos que cobre a superfície.

Manter os seres humanos e toda essa infraestrutura em segurança dependerá de um ambiente orbital previsível.

Superfície craterada da Lua com a Terra aparecendo ao fundo no espaço
A Terra se põe sobre o horizonte lunar em imagem registrada pela tripulação da Artemis II durante a passagem pelo lado oculto da Lua, em abril de 2026. Crédito: NASA

ROTA DE COLISÃO

A estrutura, conhecida como segundo estágio do foguete, é um cilindro com aproximadamente 13,7 metros de altura e 3,7 metros de diâmetro. Ela foi lançada em 15 de janeiro de 2025, a partir do Complexo de Lançamento 39A, no Kennedy Space Center, na Flórida.

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O foguete levava dois módulos lunares construídos por empresas privadas: o Blue Ghost, da Firefly Aerospace, responsável pelo primeiro pouso lunar totalmente bem-sucedido de uma espaçonave privada; e o Resilience, da ispace, que foi destruído durante sua tentativa de pouso.

Como era descartável, a estrutura não havia sido projetada para retornar à Terra depois de liberar suas cargas. Ela permaneceu em uma órbita altamente elíptica que, periodicamente, a levava para além da órbita da Lua.

Atingir a superfície lunar nunca fez parte dos planos da SpaceX. No entanto, forças sutis, entre elas a pressão da radiação solar, alteraram gradualmente a trajetória nos meses seguintes ao lançamento. Isso acabou colocando a estrutura na atual rota de colisão.

“Em termos gerais, a órbita da Lua e a deste objeto se cruzam”, explica Bill Gray, especialista em rastreamento espacial que calculou a previsão do impacto. “Normalmente, um passa pelo ponto de interseção enquanto o outro está em outro lugar. Mas, em 5 de agosto, eles chegarão a esse ponto ao mesmo tempo.”

A colisão deve ocorrer por volta das 03h35 desta quarta-feira (5), no horário de Brasília.

Como a Lua não possui atmosfera, espera-se que a estrutura chegue intacta à superfície, em vez de se desintegrar durante a queda. Ela atingirá o solo a uma velocidade estimada de 8,7 mil km/h, equivalente a sete vezes a velocidade do som, em um ângulo de 34 graus em relação à vertical.

O impacto terá força comparável à detonação de três toneladas de TNT e deve abrir uma cratera com aproximadamente 27 metros de diâmetro e 4,9 metros de profundidade.

A cratera será pequena demais para ser observada por telescópios na Terra. Espaçonaves em órbita da Lua, como a Lunar Reconnaissance Orbiter, da NASA, e a sonda sul-coreana Danuri, poderão registrá-la em imagens.

O clarão produzido pela colisão deverá durar menos de um segundo e provavelmente será fraco demais para ser observado diretamente. A pluma de material ejetado, porém, permanecerá por mais tempo.

Os detritos lunares lançados pela força do impacto poderão percorrer vários quilômetros no espaço e continuar detectáveis por telescópios durante dezenas de minutos.

“A gravidade na Lua é baixa, e não há vento para dispersar a poeira”, afirma Benjamin Fernando, do Laboratório Nacional de Los Alamos.

Tudo isso poderia ter sido evitado se a estrutura tivesse sido projetada com combustível suficiente para se redirecionar a uma órbita ao redor do Sol, em vez de ser abandonada em uma órbita caótica ao redor da Terra.

Reservar esse combustível teria tornado a missão mais pesada e mais cara — o mesmo dilema que leva operadores a abandonar estruturas semelhantes no espaço. A lógica é que o espaço seria grande o suficiente para que deixar resíduos para trás não fizesse diferença. A colisão com a Lua mostra que essa estratégia não é sustentável.

HOUSTON, TEREMOS UM PROBLEMA

A NASA já provocou deliberadamente a queda de equipamentos na Lua. Durante a era Apollo, seções de foguetes e módulos lunares foram lançados contra a superfície para gerar medições sísmicas. Em 2009, a espaçonave LCROSS, da NASA, e seu estágio superior foram direcionados intencionalmente para a superfície em busca de gelo próximo ao polo sul lunar.

Desta vez, porém, o impacto não foi planejado. Este será apenas o segundo caso documentado de uma estrutura de foguete desativada atingindo acidentalmente a Lua. O primeiro ocorreu em 2022, quando um segmento de foguete chinês abriu duas crateras no lado oculto do satélite.

A indiferença em relação ao significado desse impacto é perturbadora, sobretudo quando se considera que o espaço é público. Ele pertence a todos, mas organizações continuam tratando-o como propriedade privada em nome do lucro.

A SpaceX já preencheu a órbita baixa da Terra com milhares de satélites Starlink. Muitos estão caindo em um ritmo crescente e se vaporizando na forma de poeira metálica na atmosfera.

Há também a oferta pública inicial de ações da SpaceX, baseada em grande parte na promessa de Elon Musk de criar uma constelação de milhares de data centers de inteligência artificial em órbita.

Essas estruturas contribuiriam ainda mais para a poluição atmosférica e, segundo McDowell, aumentariam drasticamente a possibilidade da chamada síndrome de Kessler. Popularizado pelo filme Gravidade, o cenário teórico descreve uma cascata de colisões capaz de inutilizar órbitas inteiras.

É possível argumentar que os riscos da superlotação das órbitas e do aumento dos lançamentos valem a pena em nome do progresso — ou que são necessários para o futuro da humanidade como uma civilização capaz de viajar pelo espaço.

Nenhuma organização, porém, pode justificar o abandono de seus resíduos simplesmente porque agir de outra forma custa mais caro. Medidas de controle de tráfego e de desorbitagem controlada precisam ser reforçadas antes que frotas e tripulações comecem a chegar à Lua.

A Lua, assim como a órbita terrestre, a atmosfera e o próprio espaço, não pertence à SpaceX nem a qualquer bandeira. Pertence a todos. O mínimo que se pode exigir de quem lucra com o espaço é que pare de deixar balas no céu.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais