Amazon confunde clientes com robôs e bloqueia acesso a avaliações

Ao tentar impedir a extração de dados por agentes de IA, empresa restringe clientes legítimos e exige recurso por e-mail

Colagem mostra pessoa com cartão diante da marca Amazon, avaliações por estrelas e caixas “I’m not a robot”.Imagem de abertura da reportagem sobre clientes da Amazon classificados por engano como bots. A colagem combina a marca da empresa, avaliações por estrelas, uma pessoa segurando um cartão e caixas de verificação com a mensagem “I’m not a robot”.
Créditos: meeboonstudio, Vahram via Adobe Stock / BoliviaInteligente via Unsplash

Jared Newman 6 minutos de leitura
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Enquanto tenta impedir que rastreadores de inteligência artificial acessem seu site, a Amazon está transformando clientes humanos em dano colateral.

Desde o fim de 2025, a Amazon bloqueia avaliações para alguns consumidores, permitindo que eles leiam apenas um pequeno número de comentários sobre cada produto. Quando isso acontece, o cliente precisa enviar uma contestação por e-mail e esperar vários dias úteis por uma resposta.

Um porta-voz da Amazon confirmou que a empresa está tentando restringir a extração não autorizada de dados em seu site. Nesse processo, porém, também vem classificando clientes legítimos como bots por engano, em meio ao acúmulo de reclamações no Reddit e nos fóruns da própria Amazon.

A Fast Company norte-americana conversou diretamente com dois usuários afetados. Um deles é assinante do Prime desde o lançamento do programa.

A Amazon não respondeu às perguntas sobre quando começou a restringir o acesso às avaliações, como verifica as solicitações dos usuários, quantas pessoas foram afetadas e quais comportamentos podem gerar um falso positivo.

“Sabemos que podem ter ocorrido casos isolados em que clientes não conseguiram acessar avaliações e trabalhamos para garantir esse acesso”, afirmou um porta-voz à Fast Company.

Mesmo que a maioria dos usuários nunca perca o acesso às avaliações, esse tipo de problema pode se tornar mais frequente. À medida que rastreadores e agentes de IA se tornam melhores em se passar por humanos, enquanto as plataformas continuam tentando bloqueá-los, provar que você não é um robô ficará cada vez mais difícil.

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QUANDO O CLIENTE É TRATADO COMO BOT

Fred Hall é assinante antigo do Prime e depende das avaliações de clientes da Amazon para pesquisar produtos. Ele vasculha os comentários em busca de detalhes sobre recursos específicos e consulta avaliações com notas baixas para identificar possíveis problemas.

Mas, quando foi procurar um desumidificador na Amazon em meados de julho, descobriu que a empresa só permitia que ele visse oito avaliações de cada produto.

Em uma conversa com o atendimento ao cliente, um funcionário informou que Hall havia “violado as Condições de Uso da Amazon referentes à coleta ou extração de dados de conteúdo gerado pela comunidade, como as Avaliações de Clientes”.

Hall considera a explicação “ridícula”.

“Parece que o algoritmo de IA foi ajustado de forma um pouco rígida demais. Sou membro do Amazon Prime desde que o Prime passou a existir”, diz. “Não sou um extrator de dados tentando roubar informações das avaliações.”

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Embora a Amazon tenha aceitado a contestação de Hall alguns dias depois, a empresa nunca explicou o que havia dado errado. Ele afirma não usar ferramentas de navegação com IA nem de automação. O episódio o levou a repensar sua assinatura do Prime.

“Se eu não tivesse insistido durante a conversa com o atendente, não teria a menor ideia de por que meu acesso havia sido retirado. E, mesmo assim, a justificativa foi bastante vaga”, diz Hall.

Da mesma forma, Sean Kaufman descobriu que só conseguia acessar oito avaliações de qualquer produto, sem opções de ordenação ou filtros.

Procurado depois de publicar suas reclamações no Reddit, Kaufman afirmou que não usa bloqueador de anúncios, VPN nem ferramentas de navegação com IA. Ele não faz ideia de por que a Amazon sinalizou sua conta, a não ser pelo fato de analisar profundamente as avaliações de produtos concorrentes antes de decidir o que comprar.

No caso de Kaufman, um atendente da Amazon ofereceu um crédito promocional de US$ 10 como “um gesto de desculpas” e prometeu encaminhar o problema a uma instância superior em até 24 horas. Isso nunca aconteceu, e foram necessários cinco dias para que ele recuperasse o acesso completo às avaliações.

Kaufman diz que o que mais o incomoda é a falta de transparência da Amazon, já que agora ele só pode tentar adivinhar o que acontecerá se seus hábitos de compra “não atenderem às expectativas algorítmicas de normalidade”.

“O que mais me irrita é que a Amazon nem sequer se deu ao trabalho de me avisar que minha conta havia sido restringida”, prossegue Kaufman. “Nada foi explicado — antes, durante ou depois —, o que gerou uma enorme confusão sobre a natureza desse programa.”

MAIS BOTS DE IA, MAIS TRANSTORNOS PARA OS HUMANOS

À medida que agentes e rastreadores de IA se tornam melhores em imitar o comportamento humano, a Amazon não é a única empresa a causar transtornos para pessoas de verdade enquanto tenta descobrir quem é humano na internet.

Em abril, o Google começou a testar um novo sistema reCAPTCHA para conter a atividade de bots nos sites. Em vez de apenas pedir aos usuários que resolvam um quebra-cabeça visual, o sistema solicita que eles leiam um QR code com o celular. Outra versão exige uma série de gestos com as mãos.

O Google afirma que essas medidas são uma resposta específica a agentes de IA capazes de navegar e interagir com a internet de forma autônoma — como aqueles que a própria empresa está criando.

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Enquanto isso, o Reddit bloqueou o acesso de quase todos os mecanismos de busca à sua plataforma, em uma tentativa de manter os rastreadores de IA afastados. A única exceção é o Google, que paga para utilizar os dados do Reddit no treinamento de inteligência artificial.

O Internet Archive — biblioteca digital responsável pela Wayback Machine, ferramenta que preserva versões antigas de páginas da internet — também não tem conseguido arquivar reportagens de diversos veículos. Essas empresas afirmam temer que seus conteúdos sejam extraídos por sistemas de IA.

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A DISPUTA PELO CONTROLE DA INTERNET

Quanto à Amazon, em novembro de 2025 a empresa processou a Perplexity por causa de um recurso de compras “agêntico”, capaz de navegar pelo site da varejista em nome dos usuários.

A Amazon acusou a Perplexity de tentar fazer seus agentes de IA se passarem por humanos e de ignorar os pedidos da empresa para desativar o recurso.

Um porta-voz da Amazon não quis comentar se o conflito com a Perplexity tem alguma relação com o endurecimento das restrições ao acesso às avaliações. Até a publicação desta reportagem, a empresa também não havia divulgado orientações para os usuários acusados de extrair esses dados.

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As empresas de tecnologia prometeram um futuro em que visitar sites se tornaria obsoleto porque a IA faria isso por você. Só que agora elas tentam impedir que as concorrentes façam exatamente isso e, nesse processo, atrapalham justamente as pessoas que querem acessar seus sites.

Para Kaufman, a perspectiva é bastante sombria.

“Se isso servir de indicação de como as coisas vão acontecer, a tomada de decisões orientada por IA é uma perspectiva assustadora para a humanidade”, afirma.


SOBRE O AUTOR

Jared Newman é jornalista freelancer de tecnologia há mais de 15 anos e contribui regularmente para a Fast Company, PCWorld e TechHive. saiba mais