As três causas do burnout – e apenas uma delas é seu chefe

Programas de bem-estar falham quando ignoram as causas estruturais do burnout nas empresas e na sociedade

três fatores que podem causar burnout
Crédito: Magnific

Sally Clarke 5 minutos de leitura
Favoritar no Google

Quase todas as conversas que tenho com líderes atualmente giram em torno do burnout em suas equipes.

Não estou falando de um dia ruim ou de uma semana difícil, mas do problema de verdade. Aquele que se instala sem ninguém se dar conta, se acumula ao longo dos anos e, em determinado momento, derruba você.

A Organização Mundial da Saúde define o burnout como uma síndrome causada pelo estresse crônico no ambiente de trabalho que não foi administrado de forma adequada. Crônico. Essa palavra faz toda a diferença.

Burnout não é um trimestre complicado nem uma sequência de madrugadas em claro para cumprir um prazo crucial. É o resultado de uma pressão contínua e persistente, com características bem definidas: exaustão profunda, aumento do cinismo em relação ao trabalho e uma sensação crescente de que você já não consegue desempenhar bem atividades nas quais antes era competente.

Quando entendemos o que realmente é o burnout, surge uma pergunta mais útil: o que, exatamente, está gerando esse estresse crônico?

Em minhas pesquisas e no trabalho que desenvolvo com organizações e líderes, passei a enxergar o burnout não como um problema de causa única, mas como a convergência de diferentes fatores.

Existem três forças culturais que se combinam para criar uma tempestade perfeita de estresse crônico no trabalho. Enquanto não reconhecermos as três, continuaremos sem atacar a raiz do problema.

1. CULTURA DA SOCIEDADE

A primeira força é a mais ampla e, justamente por isso, a mais difícil de perceber. Muito antes de entrarmos no mercado de trabalho, já absorvemos uma série de mensagens sobre o significado do trabalho, o que representa sucesso e de onde vem nosso valor como seres humanos.

ícone de mulher conversando com colega de trabalho por vídeoconferência

Basta observar normas que tratamos como naturais: culturas que associam descanso à preguiça e excesso de trabalho à dedicação; sistemas que medem o valor das pessoas pela produtividade; e a ideia de que a pessoa mais ocupada é também a mais importante.

Perguntamos às crianças o que elas querem ser quando crescer. Aos adultos, a primeira pergunta costuma ser "o que você faz?".

Essas não são normas neutras. Elas constituem a arquitetura invisível sobre a qual construímos nossa vida profissional.

2. CULTURA CORPORATIVA: O SISTEMA MAIS PRÓXIMO DE NÓS

A segunda força é a mais fácil de identificar porque é a mais visível. E ela é muito real. A cultura da organização onde trabalhamos exerce enorme influência sobre o risco de desenvolver burnout.

Sobrecarga estrutural de trabalho, equipes permanentemente reduzidas, funções mal definidas ou em constante mudança e reorganizações frequentes não são falhas isoladas de gestão. São características de organizações que herdaram (e muitas vezes ampliaram) normas prejudiciais presentes na sociedade.

O mesmo acontece com aquilo que considero uma cultura da hipocrisia: a distância entre o discurso corporativo ("as pessoas são nosso maior patrimônio", "nos importamos com seu bem-estar") e aquilo que a empresa realmente faz na prática, como premiar o presencialismo, normalizar a disponibilidade permanente e esperar que menos profissionais assumam cargas de trabalho cada vez maiores.

No meu trabalho de consultoria, essa incoerência é um dos fatores que mais impulsionam o burnout.

Leia mais: Sociedade do cansaço: estamos cansados demais para perceber?

Muitos líderes realmente desejam que suas equipes prosperem. Mas boas intenções, sem mudanças estruturais, geram apenas ruído. Nenhuma iniciativa de bem-estar consegue neutralizar um sistema estruturalmente tóxico.

3. CULTURA INTERNALIZADA

A terceira força é a mais pessoal e, provavelmente, a mais subestimada. Também é aquela que muitos líderes acabam usando para responsabilizar as pessoas individualmente.

Quero deixar claro que não se trata de fraqueza nem de falha pessoal. Estamos falando das crenças que absorvemos das duas forças anteriores e que passamos a considerar valores profundamente nossos.

Ninguém nasce acreditando frases como "eu não paro quando estou cansado; paro quando termino", "burnout é o preço do sucesso" ou "pedir ajuda é sinal de fraqueza". Tudo isso foi aprendido.

Essas ideias vêm de cuidadores, colegas, escolas, meios de comunicação e publicidade, muitas vezes interessados (inclusive financeiramente) em convencer as pessoas de que seu valor precisa ser conquistado.

Quem costuma ser mais vulnerável a essa força são justamente os profissionais mais motivados: aqueles que internalizaram a ideia de que seu valor depende de suas conquistas e, por isso, trabalham mais e por mais tempo.

Leia mais: Por que os programas de bem-estar não vão resolver o burnout

Fatores individuais, como personalidade e experiências na infância, influenciam a forma como cada pessoa absorve essas pressões culturais. Mas eles são consequência da cultura, não sua origem. Explicam o material inflamável, não o incêndio.

Mude a cultura e você muda o cenário de risco para todos.

A IMPORTÂNCIA DE RECONHECER AS TRÊS FORÇAS

Na prática, isso significa que, se uma empresa lança um programa de bem-estar, mas mantém a sobrecarga estrutural de trabalho, ela apenas transfere a responsabilidade para os indivíduos.

Se ajudamos as pessoas a questionarem suas crenças internalizadas, mas nunca examinamos as normas sociais que as produziram, estamos pedindo que elas nadem contra a corrente indefinidamente.

o que, exatamente, está gerando esse estresse crônico?

Por outro lado, se reformamos políticas internas sem enfrentar as forças culturais mais amplas, criamos ilhas de ambientes saudáveis em meio a um oceano que continua igual.

A prevenção real exige honestidade para enfrentar as três forças ao mesmo tempo.

No nível da sociedade, isso significa questionar as normas que associam valor pessoal à produtividade e desprezam o descanso.

No nível corporativo, exige responsabilidade estrutural e o fim da distância entre o discurso sobre bem-estar e a realidade vivida pelos funcionários.

No nível individual, significa oferecer ferramentas para que as pessoas compreendam as crenças que internalizaram – não para responsabilizá-las por um problema sistêmico, mas para ajudá-las a entender o ambiente complexo em que vivem.

O burnout é resultado do estresse crônico mal administrado. Enfrentá-lo de forma eficaz significa atacar suas raízes: a sociedade que normaliza o excesso de trabalho, as organizações que perpetuam esse modelo e as crenças que todos nós internalizamos, sem culpa e muitas vezes sem perceber, tornando-nos cúmplices do nosso próprio esgotamento.


SOBRE A AUTORA

Sally Clarke é uma ex-advogada de finanças corporativas que se tornou especialista em estresse e burnout, palestrante e líder de opini... saiba mais